Gonçalo Junior
   
Histórico
Outros sites
UOL - O melhor conteúdo
BOL - E-mail grátis

Votação
Dê uma nota para meu blog

 


IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 5 – Tentação à italiana

Depois de trabalhar como repórter por oito anos, no começo de março de 2003, deixei o jornal Gazeta Mercantil com um grupo de colegas, depois de cinco meses sem receber salários. Foi uma demissão coletiva como protesto, pois chegara um momento em que a direção não queria mais dialogar com a redação e apenas dizia que não tinha dinheiro para pagar nossos salários e nem podia estabelecer prazos. Vieram tempos difíceis para todos nós, endividados por cuasa da falta de pagamento pelo nosso trabalho. Nessa mesma época, além de me separar, pondo fim a um casamento de cinco anos, precisei me reinventar em busca de freelas e formas de pagar todas as dívidas acumuladas por causa da crise do jornal. Eu tinha um grande desafio porque sempre levei uma vida reclusa, nunca tive o hábito de frequentar eventos e festas de jornalistas. Portanto, tinha poucos contatos para buscar ajuda.

Mas me virei, corri atrás. Nesse período, entre 2003 e 2004, fiz um milhão de coisas para pequenas editoras, o que me levou a aprender muita coisa nova. Trabalhava muito e recebia pouco. Entre outros trampos, fiz vários livros por encomenda, para vendas em bancas de jornal. Era o que havia, quando a maioria dos colegas jornalistas que eu conhecia estava desempregada. Escrevi cinco livros derivados daquele lixo editorial chamado Código da Vinci, de Dan Brown, que tive de ler umas três vezes, para uma editora portuguesa – um deles até rendeu uma carta elogiosa de um professor da Universidade de Coimbra. Jamais vi esses livros prontos. Sei que os textos eram vendidos para um editor de Lisboa que montava, imprimia e vendia por lá, sem jamais mandar uma única cópia para cá.

Para a Ópera Graphica, organizei uma infinidade de álbuns em quadrinhos nessa mesma época. Fiz o álbum sobre os 50 anos do personagem de faroeste Tex no Brasil, além de organizar títulos que resgatavam a atrajetória de grandes mestres dos quadrinhos, todos com apresentação minha – longos textos biográficos, na verdade, além das seleções das histórias que formavam cada antologia. Dessas experiências para banca de jornal, tenho orgulho de ter escrito, produzido e idealizado o livro Tatuagem de Cadeia, publicado pela Editora Escala, em 2003. Tinha 160 páginas e meu nome aparece no expediente apenas como editor, mas eu o escrevi inteirinho.

O motivo para a edição foi o lançamento do filme Carandiru, do diretor Hector Babenco. Sua assessora de imprensa, Margarida Oliveira, querida amiga a quem devo muitos favores, jogou nas minhas mãos mais de 600 fotos que pertenciam ao arquivo do médico e escritor Dráuzio Varella. Era um pequeno tesouro, pois ele tinha tirado aquelas fotografias ao longo de anos, pacientemente, dos incontáveis presos que atendeu em seu consultório. Depois, conversei demoradamente com o gentil Babenco e com as coordenadoras de maquiagem que cuidaram das tattoos nos atores que fariam os presos. Assim, montei um glossário em que explicava o significado de cada um dos símbolos impregnados na pele. Hoje, vejo isso como um precioso documento sobre a vida no sistema prisional brasileiro. Se alguém tiver um exemplar e quiser me presentear, agradeço muito. Ah, Sabotage, que posou para a capa, foi assassinado logo depois. Acho que o livro nem tinha saído ainda...

Também fiz um livro por encomenda que se chamou inicialmente de Medicina para leigos, pela Editora Garçoni, em 2004, por encomenda de um laboratório farmacêutico. A obra deveria ser distribuída como brinde, disseram-me. Entrevistei 25 especialistas (guardo as entrevistas ainda hoje) e o formato era pergunta e respostas que a maioria dos leigos tem sobre cada especialidade médica – oftalmologia, urologia, ginecologia, neurologia, cardiologia, obstetrícia, anestesiologia, geriatria, otorrinolaringologia etc. Sei que saiu por três pessoas me disseram tê-lo folheado em consultórios médicos, mas jamais vi um exemplar. Nem faço ideia de vomo ficou a edição.

Foi nessa época, meio que como terapia para aquelas incertezas que eu vivia, em dias de isolamento total, que resolvi escrever meu primeiro livro teórico, que chamei de Tentação à italiana – um perfil dos mestres do erotismo italiano, e que a Opera Graphica Editora publicou em junho de 2005, em formato tabloide e capa dura e fez um enorme sucesso. Saiu matérias em dezenas de jornais e revistas e os mil exemplares de tiragem foram vendidos em apenas um mês. Foi um impressionante êxito editorial, mas que jamais teve uma nova edição. Meu amigo Toninho Mendes chegou a preparar uma edição atualizada, que lançaria pela sua editora Peixe Grande. Infelizmente, ele faleceu em janeiro deste ano e o projeto voltou para a gaveta novamente.

Tentação à italiana pretendia ser uma provocação ao preconceito que a chamada crítica especializada de quadrinhos tem ainda hoje contra os grandes mestres dos quadrinhos eróticos, como Guido Crepax, Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri, cujas obras são o foco do meu estudo. Li tudo, absolutamente tudo, que eles fizeram ao longo da vida, mesmo as edições que não saíram no Brasil. Inclusive as obras não eróticas. Eu vinha colecionando seus livros havia pelo menos duas décadas. Sempre me incomodou de eles serem rotulados de fazerem pornografia, quando tudo não passava de uma visão distorcida, apressada ou equivocada de quem fazia essas afirmações. Eram, portanto, artistas menores, apesar de desenherem mulheres de modo deslumbrante.

Havia uma profundidade imensa e conceitual nos trabalhos desses artistas e resolvi fundamentar a partir da análise de cada álbum, um a um, meticulosamente, ao mesmo tempo em que intercalava com dados biográficos de cada autor. Todos eles, na minha opinião, eram artistas libertários, que pregavam a emancipação e a liberdade sexual das mulheres. Era assim em Valentina, Bianca e Anita, de Crepax; em Druuna, de Serpieri; e nas garotas espirituosas e ousadas de Manara. Em todas, elas tinham absoluto controle da situação e acabavam por submeter os homens às suas vontades e caprichos. Por isso Valentina se tornou um ícone da Revolução Sexual dos anos de 1960, ao lado de sua inspiradora, Barbarella, de Jean-Claude Forrest, de 1962, que abriu uma ampla estrada para a libertação das mulheres da opressão milenar das religiões. Acredito que consegui fundamentar de modo convincente essa minha teoria, digamos assim.



Escrito por goncalo.junior às 20h54
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 4 – A GUERRA DOS GIBIS

Parte 2

 

O que Adolfo Aizen guardava naquelas gavetas teria me poupado de pelo menos dez anos de pesquisas, quando Naumim me mostrou o material, em 1998. Mas havia também coisas fantásticas e desconhecidas que acabariam por render mais dois capítulos no primeiro volume de A Guerra dos Gibis. Havia cartas que o editor recebera de autoridades como ministros, deputados, prefeitos e até presidentes da República pelo seu trabalho em usar os quadrinhos para educar as crianças. Encontrei também páginas de sua agenda com encontros para discutir com entidades conservadoras e críticas de suas revistinhas a campanha que vinha sendo feita para criar uma lei de censura aos quadrinhos.

Mas nada se comparava ao achado maior: um kit feito em 1954 pela associação dos editores de quadrinhos para ser enviado à imprensa com as explicações sobre como seriam feitos os vetos pelos censores da entidade aos quadrinhos, a partir de um código de conduta que seria imposto aos artistas a partir daquele ano. O pacote reunia nove livrinhos (regulamentos, biografia do chefe dos censores etc) que eram verdadeiras peças arqueológicas sobre a história dos comics nos EUA. O envelope foi enviado pela entidade ao brasileiro Alfredo Machado, dono da distribuidora Record, que abastecia as editoras com quadrinhos importados dos Estados Unidos. E ele o entregou pessoalmente a Aizen – que o ajudaria a criar um código interno na Ebal para conter os “excessos” de suas revistinhas. Esse material está comigo, bem guardado, presente de Naumim. Acredito que poucas pessoas no mundo tenham uma cópia.

E todo o resto do arquivo de Aizen foi xerocado por mim no decorrer de três viagens que fiz ao Rio. Daí é possível imaginar a quantidade de material que reuni. Na peinerada final, fiquei com 1.300 páginas de documentos. Nessa época, eu já trabalhava no jornal Gazeta Mercantil, em São Paulo, e cobria as áreas de TV e Internet, o que me levava ao Rio pelo menos duas vezes por mês, para entrevistas com figuras dos bastidores da Rede Globo. Hoje, com o leilão do prédio da Ebal, adquirido para a construção de um supermercado, não faço ideia do que aconteceu com o acervo de Aizen. Naumim faleceu há dois anos e levou com ele essa informação. Talvez tenha ido para a Biblioteca Nacional, já que ele doou a coleção de revistas da Ebal para aquela instituição.

Bom, depois de dezenas de negativas de editora quanto a publicarem A Guerra dos Gibis, no começo de 2002, eu estava bastante chateado porque a Conrad tinha assumido o compromisso comigo de lançar o livro no final do ano anterior e desistiu de um modo ético ou mesmo respeitoso. Já tinha até data marcada para os autógrafos, na Livraria Cultura, da Avenida Paulista. Quinze dias antes, por causa do silêncio da editora, liguei para perguntar se estava tudo certo e uma funcionária, meio sem graça, perguntou-me: “Fulano não te ligou? O livro foi cancelado”. Não ligou e nem ligaria. Cobrado por mim, via e-mail, apenas me mandou uma mensagem com uma proposta maluca: reduzir o livro a um terço do tamanho e transformá-lo em um romance. A pessoa chegou a escrever cinco páginas, orientando-me como deveria escrever a tal versão romanceada. Nem respondi. Patético demais.

Em maio de 2002, mudei o título do livro de “A Guerra dos Gibis” para “Tubarões da subliteratura”, como os críticos chamavam os editores de quadrinhos, principalmente Roberto Marinho, acusado por seus concorrentes de deformar o caráter das crianças com as revistinhas que sua editora publicava. E mandei uma cópia para uma famosa editora paulistana. O editor achou "fantástico" o tema  segundo suas palavras – e até mandou o motorista dele me buscar para conversarmos. Ele queria publicar, mas com uma condição: que eu “apimentasse” as passagens onde Marinho era citado e mudasse o título para “Roberto Marinho, o tubarão da subliteratura”. Segundo ele, o nome do empresário, que ainda estava vivo, ajudaria a vender. Eu fiquei de pensar e, depois, disse a ele que não queria fazer sensacionalismo para ter o livro lançado. E dei o assunto por encerrado. Ele também. Nunca mais nos falamos.

Até que, em meados de julho de 2002, eu estava na redação da Gazeta Mercantil, quando precisei falar com Juliana Vettore, assessora de imprensa da Companhia das Letras. Precisava de um livro para resenhar que a editora tinha acabado de lançar. A essa altura, eu estava cansado, completamente sem esperanças, não tinha mais editoras para onde mandar o livro e sempre achei que a Companhia não aceitaria meu livro, por não ser uma dissertação ou uma tese. Veio um estalo, pedi um minuto de sua atenção, fiz um resumo para Juliana e perguntei se ela achava que aquele tema poderia interessar à editora. Ela respondeu empolgada que sim. Perguntei se ela me faria o enorme favor de passar o texto para a pessoa certa lá dentro. Respondeu: “Com o maior prazer”. No dia seguinte, paguei um motoboy para levar a cópia lá e entregar em suas mãos.

Um dia depois, o editor Paulo Werneck me ligou. Disse que estava com o livro em mãos e me daria uma resposta em três meses. Mas que eu ficasse à vontade para ligar quando quisesse. Confesso que não cheguei a me animar, embora ele fosse o primeiro editor a prometer que o leria. Uma semana depois, eu já tinha esquecido o assunto quando o telefone da minha mesa tocou, no momento em que eu ia entrar no elevador para tomar um café, daqueles de fim de tarde, quando a fome aperta. Resolvi atender, sob protestos dos colegas. Queriam que eu descesse com eles. Pedi que fossem na frente.

Não prestei atenção quando uma voz feminina disse do outro lado que alguém queria falar comigo e me pediu para esperar. O sujeito foi direto ao assunto, sem rodeios: “Gonçalo, aqui é Luiz". E eu, sem me dar conta, disse: "Fala, Luiz, o que que você manda, meu velho?" E ele, sério, respondeu: "Já li metade do seu livro e queria saber se você o enxugaria 30% para eu publicar. Entendo que se você disser não. Nesse caso, eu me ofereço para apresentar seu livro a outro editor que tope publicá-lo como está”. No meio da fala dele, a ficha caiu: era Luiz Schwartz, o dono da Companhia das Letras. O cara falava em publicar meu livro. Cortar 30%? Por que tanto? Nao perguntei isso a ele. Mesmo com tamanho apego, respondi que conseguiria sim fazer o corte. “Pois bem, vou sair de férias amanhã, levarei seu livro para terminar a leitura e te procuro na volta, em meados de agosto”.

 

Esperei com bastante ansiedade, sem arredar da minha mesa. Nada de café. A secretaria dele me ligou na época prevista, marcamos um horário e fui conversar com ele. O papo foi ótimo, prometi que entregaria a versão reduzida em cinco meses, no começo de 2003 – o livro só sairia, de fato, em dezembro de 2004, o que me fez achar que, mais uma vez, morreria na praia. Eu não tinha assinado contrato, mas acreditei na palavra do cara, que foi cumprida. Antes de sair de sua sala, ele me disse: “Vamos mudar o título? ‘Tubarões da subliteratura’ não é legal. Que tal ‘A Guerra dos Gibis’?" Eu virei e falei: “Fechado. Você acredita que esse era o nome original do livro?” E foi assim que tudo aconteceu e eu serei eternamente grato a ele.



Escrito por goncalo.junior às 20h03
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 4 – A GUERRA DOS GIBIS

Parte 1

A minha saga para publicar A Guerra dos Gibis talvez mereça ser contada para que sirva de exemplo a quem tenta realizar um sonho e pensa desistir, depois de ouvir meia-duzia de "nãos". Ao longo de oito anos, entre 1994 e 2002, levei 27 sonoros "nãos" de editoras de todo país. A partir do terceiro exemplar que mandei, quando ainda morava em Salvador, tive uma ideia que não era original, creio: colei levemente as dez primeiras páginas do capítulo inicial, bem na parte de baixo. A minha intenção era conferir se as negativas que eu recebia tinha, de fato, fundamento. Ou seja, ao virar as páginas, o editor romperia, certamente, as colagens feitas por mim. Todas as cópias que consegui pegar de volta estavam ainda coladas. Portanto, ninguém tinha lido meu manuscrito. Não havia porque desistir se eu, de fato, não estava sendo avaliado. E sempre que acontecia isso, eu recuperava as forças para reescrever o livro inteirinho novamente. Eu diria que aconteceu ao menos doze vezes.

A Guerra dos Gibis nasceu de meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do curso de Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia, apresentado no primeiro semestre de 1993. Eu passara os quatro anos do curso fazendo minha pesquisa e escrevendo meu texto. Ao final, em folhas datilografadas, em espaço 1, ficou em cerca de 1.100 páginas. Eu teria que tirar cinco cópias em xerox – para meu orientador, biblioteca da Facom e três membros da banca examinadora. E uma para mim. Seriam mais de dois maços de papel de 500 páginas cada, o que assustaria a todos. Como meu orientador confiava bastante em mim, deixou para olhar o trabalho pronto. Não sabia do catatau que eu tinha escrito. Bom, eu não tinha grana para fazer 6.600 cópias e tomei uma decisão drástica: eliminaria alguns capítulos, de modo que ficou com cerca de 500 páginas cada cópia.

O que pouca gente sabe é que meu TCC renderia três livros, já publicados atualmente: A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), O Homem-Abril (Opera Graphica) e Maria Erótica e o Clamor do Sexo, também conhecido como A Guerra dos Gibis 2 (Peixe Grande). Infelizmente, esse texto original não existe mais. Até a cópia da biblioteca da Facom desapareceu, depois de eu ter sido procurado por um aluno, em busca de ajuda para o TCC dele sobre quadrinhos  suspeito que ele não devolveu o exemplar. Enfim, resolvi pegar a primeira parte do meu trabalho, retrabalhar o texto e enriquecê-lo um pouco para tentar a publicação. O título inicial era A Incrível Guerra dos Gibis. Logo, simplificaria para A Guerra dos Gibis.

Antes de prosseguir, um parênteses: a produção do TCC me fez guardar na cabeça números bem substanciosos: 130 entrevistas realizadas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba – para todos esses lugares, viajei de ônibus, bancado por meu pai, que me ajudava no possível. Levava a grana contadinha e um talão de cheques dele para alguma emergência, pois tínhamos conta-conjunta – aliás, era bem difícil que aceitassem cheques de outros estados. Mas poderia funcionar no momento de sufoco. Como quase nada havia sobre o tema censura aos quadrinhos, tive de ir ao Rio várias vezes pesquisar na Biblioteca Nacional ou entrevistar Naumim Aizen, filho de Adolfo Aizen, fundador da Editora Brasil-América, a Ebal, um dos focos da minha “reportagem”.

Consultei cerca de 1.500 volumes da revista O Cruzeiro, de 1928 a 1970, para tentar localizar matérias sobre a repressão aos quadrinhos entre 1920 e 1960. Isso deu aproximadamente 200 mil páginas pacientemente folheadas. Soma-se a isso o tempo gasto para copiar as matérias à mão, já que não havia celulares ou máquinas fotográficas que me permitissem o luxo de usá-las. O computador era precaríssimo. O meu primeiro foi um PC 386 com pouquíssima memória, mas o que havia de última geração em 1994, antes da invenção do Pentium. Consultei uma dezena de jornais por microfilme, uma forma rudimentar de ler jornais antigos que existe até hoje em algumas bibliotecas. Devo ter olhado mais de um milhão de páginas.

Certa vez, paguei quase integralmente, ao longo de seis meses, três salários que recebia do jornal Tribuna da Bahia pela tradução de dois livros em francês e um em alemão que eu achava importantes para enriquecer o livro. Fiquei durango por um bom tempo. Felizmente, morava com minha mãe, que segurava as pontas nas despesas. Até que um dia, um milagre para lá de motivador aconteceu comigo: eu estava na portaria do prédio da Ebal, em frente ao estádio de São Januário, em São Cristóvão, esperando Naumim. Ele chegou atrasado e esbaforido. Tínhamos conversado por telefone na noite anterior. Eu lhe tinha dito: “Naumim, li numa entrevista que seu pai deu na década de 1960 que ele guardava nas gavetas de sua mesa centenas de recortes de jornais e documentos para um dia provar o quanto os quadrinhos tinham sido perseguidos no Brasil. Essa gaveta existe?” Ele respondeu que sim e que conversaríamos no dia seguinte.

Ao me ver, ele falou, sorrindo: "Você é muito cagão. Eu não me lembrava onde estavam as chaves das gavetas de papai, e Sônia (sua esposa) chegou hoje de Santos e ela sabia onde tinham sido guardadas. Venha, vou abri-las para você”. Quando chegamos ao terceiro andar, passamos por uma sala, onde um senhor já idoso, um dos últimos a continuar na editora, trabalhava calmamente. Naumim lhe disse: “Seu fulano, vou abrir as gavetas de papai!” E se virou para mim: “Eu tenho uma vaga noção do que há lá, mas jamais foram abertas desde a sua morte (1991). Você vai ser a primeira pessoa além dele a ver o conteúdo”.

Eram quatro gavetas imensas. E quando ele abriu a primeira, foi como se eu estivesse na Ilha do Tesouro e acabasse de encontrar um baú cheio de joias. (Continua)

 



Escrito por goncalo.junior às 19h59
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 3 – CLAUSTROFOBIA

Tem muita gente que pensa que virei roteirista de quadrinhos depois que publiquei meus livros de reportagens sobre quadrinhos. Tipo aquele sujeito que é visto como estranho no ninho, o tipo metido a besta que resolveu escrever histórias. Sem dúvida que senti certa hostilidade nesse sentido. Quem não me conhece que acredite nisso. Não sabem essas pessoas que, na década de 1980, escrevi centenas de tiras e histórias em quadrinhos com os personagens infantis de Cedraz e até chegamos a publicar em uma série de revistas em quadrinhos de Cuba. Também desenhava minhas próprias tiras, com personagens criados por como Baiano e Vampiros do Terceiro Mundo.

Somava-se a isso pelo menos quatro fanzines feitos inteirinhos com roteiros meus e desenhos de Leônidas Greco e Sidney Falcão, que chamei de Livre Cativeiro e Baianada. O primeiro, infelizmente, teve apenas um dos três números lançados. Além disso, saíram histórias minhas em vários fanzines lançados no decorrer da década de 1980, como Mutação, Marca de Fantasia, Leve Desespero e um que eu mesmo editava, Quadrinhos Magazine.

Parei de desenhar, mas nunca deixei de escrever histórias. Tenho centenas de páginas inéditas porque sempre foi um problema para mim encontrar desenhistas que fossem até o fim com meus projetos. Perdi as contas de quantos deles têm roteiros meus há dez, quinze, vinte, trinta anos. Eles se empolgam no início, mas desistem depois de algumas páginas, por falta de tempo e pela necessidade de priorizar os trabalhos que remuneram. Compreensível, claro.

E foi com esperança de ver alguns roteiros desenhados que tive a petulância de procurar um de meus ídolos para propor uma parceria: Júlio Shimamoto. Éramos amigos por causa dos fanzines – fiz um inteirinho dedicado a ele – e tinha escrito oito tramas pensadas exatamente para serem realizadas com seu traço. Todas tinham um ponto em comum: a vida asfixiante, desesperada, alucinante de seus personagens na cidade de São Paulo – na verdade, uma delas é ambientada no sertão nordestino.

Por isso, denominei esse conjunto de Claustrofobia. Todas as histórias foram escritas nas primeiras semanas que se seguiram à minha mudança para São Paulo, em outubro de 1997. Eu estava diante do impacto que a rotina cruel dessaa enorme e selvagem cidade impôs para mim. Eu tentava me situar, achava tudo cinzento, as pessoas fechadas, de pouca conversa, desconfiadas, sem qualquer traço de simpatia umas com as outras.

Eu também desconfiava de todos: do motorista de táxi que dizia não saber onde ficava a Avenida São João para faturar mais, do mendigo que colocou sonrisal debaixo da língua para simular ataque epilético e tirar dinheiro das pessoas, do cadeirante que eu encontrava todo dia indo para a casa carregando a cadeira nas costas e andando normalmente, da vizinha que se vestia de mendiga para catar lata na rua e tinha dois carros na garagem. Tudo isso eu vi e convivi nos primeiros meses de Sampa.

E situei as minhas histórias em suas ruas, nas proximidades de Higienópolis (onde eu morava) e o vizinho bairro de Santa Cecília, áreas que eu explorava em minhas caminhadas matinais. Foi na Praça Marechal Deodoro, por exemplo, povoada de mendigos, que eu situei a história mais barra pesada do álbum, quando um grupo de moradores de rua, acidentalmente, mata um guarda truculento, que cai sobre um fogueira e acaba devorado pelas chamas , Eles, famintos, fazem do corpo chamuscado uma ceia de Natal.

Para minha surpresa e alegria, Shimamoto adorou as histórias e, juntamente com seu "sim", mandou a primeira desenhada. Eu fiquei alucinado com aquilo. Teria minhas histórias ilustradas pelo grande mestre. Ele fez tudo bem rápido. E aproveitou uma viagem do Rio para São Paulo para conversarmos bastante sobre as estratégias para buscar um editor. Como ele visitaria a Devir naquele dia, levaria a história para Leandro Luigi Del Manto e lhe proporia a publicação. Foi fácil demais e ele topou na hora. Mais por causa de sua magnífica quadrinização, claro.

Tanto Claustrofobia como meus três álbuns seguintes de quadrinhos, as histórias são mudas. Ou seja, sem qualquer balão ou legenda. Um desafio de linguagem que Shima tirou de letra, com seus experimentos geniais. Cada uma das histórias foi feita com um traço diferente, tamanha a capacidade dele de inventar estilos. Até hoje, tem gente que acha que a edição foi feita por vários artistas.

O álbum saiu e teve algumas resenhas na imprensa. Todas positivas, principalmente por causa da arte de Shima, claro. E fizemos a noite de autógrafos numa segunda-feira chuvosa, 4 de dezembro de 2004, na Gibiteca Henfil, do Centro Cultural São Paulo. Cinco dias depois, lancei na Comix, com tarde de autógrafo, meu mais extenso e ambicioso livro até aquele momento: A Guerra dos Gibis.



Escrito por goncalo.junior às 00h35
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 2 – ALCEU PENNA E AS GAROTAS DO BRASIL


Levei mais de três anos para lançar meu segundo livro. A gente sempre acha que depois do primeiro tudo fica fácil. Que nada. Pelo menos no meu caso, a coisa emperrou. Passei 2001 e 2002 em busca de um editor para A guerra dos gibis, que será tema em breve aqui. Finalmente sairia em dezembro de 2004. Antes, porém, publiquei Alceu Penna e as garotas do Brasil, um livrinho com pouco mais de uma centena de páginas sobre o lendário cartunista e setorista de moda da revista O Cruzeiro, entre as décadas de 1930 e 1960.

Alceu foi minha primeira biografia e apontaria o caminho que eu seguiria na escolha de meus biografados: tipos pouco conhecidos ou esquecidos mais que tinham enorme importância histórica. Aliás, a opção por esse caminho só me daria uma certeza: de que não ganharia dinheiro com livros, pois as vendas teriam pouca força, faltava a meus personagens "apelo comercial". Nunca me arrependi disso. Dinheiro nunca foi uma meta ou uma prioridade para mim.

Eu tinha bons motivos para me empolgar com Alceu. Ele foi bastante influente para as mulheres e importante para a sua emancipação política e como cidadãs, trabalhadoras etc. Toda semana, esse mineiro discreto e talentoso, altamente confiante em sua capacidade, publicava em O cruzeiro a coluna “As Garotas”, em que pregava a liberdade das moças, o direito delas irem sozinhas à praia, de namorarem sem se casar, de se divertir sem patrulhamento moral da sociedade, da família, dos vizinhos. Era, enfim, um subversivo.

Aliás, mais que isso. Por causa da Segunda Guerra Mundial, O cruzeiro não podia importar editoriais de moda da França e coube a Alceu Penna criar aqui coleções para as leitoras e virou um talentoso figurinista, além de pioneiro da moda no Brasil - posição, aliás, que ainda espera reconhecimento. Foi amigo de Carmen Miranda, fez roupas para ela e dizem até que a ensinou a mexer a saia rodada em movimento de ondas. A primeira oportunidade de trabalho que Millôr Fernandes teve foi como assistente desenho de Alceu, que o levou para trabalhar na lendária revista de Assis Chateaubriand.

Mas foi por causa dos quadrinhos que ele fazia em parceria com Nelson Rodrigues para o jornal O Globo Juvenil, de Roberto Marinho, que fui atrás de sua história e conseguir entrar em contato com sua irmã, Tereza Penna. Com ela, Alceu tinha passado seus últimos anos de vida. E tinha guardado um acervo fantástico de documentos, como cartas, desenhos inacabados ou inéditos, uma montanha de originais etc.

Dona Tereza abriu-me seu arquivo, confiou em mim – e se arrependeria amargamente disso, como contarei no momento de falar da segunda edição deste livro. Então, fotocopiei na papelaria da esquina de seu prédio dezenas de cartas e, por incrível que pareça, escrevi o livro em três dias. Com tanta informação, o texto jorrou de minha cabeça. Achei que ficou redondinho e procurei meu amigo Wagner Augusto, dono da editora Clube dos Quadrinhos (Cluq), que, gentilmente, topou publicá-lo com uma pequena tiragem de 500 exemplares.

Alceu Penna e as garotas do Brasil teve a tiragem esgotada em poucos meses. Virou um xodó dos vendedores do setor de moda da Livraria Cultura, único lugar em que foi colocado para vender. Despretensioso, tornou-se importantíssimo para mim. Eu o fiz em momento pessoal muito complicado de minha aventura paulistana. Serviu demais para melhorar minha auto-estima e me dar confiança, provar que eu poderia fazer voos até mais ousados e que o formato livro me ajudaria a me realizar como jornalista, com a mais completa liberdade para escrever o que quisesse, mas sem abrir mão da liberdade.

Sem contar que o livro anterior, País da TV, era uma coletânea de entrevistas. E A Guerra dos Gibis ainda não tinha sido publicado. Por tudo isso, tenho um enorme orgulho dessa primeira edição.

 



Escrito por goncalo.junior às 02h02
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 1 – PAÍS DA TV

 

Meu primeiro livro não foi exatamente o meu primeiro livro. Foi o que consegui publicar e tudo aconteceu bem rápido. Eu trabalhava desde 1995 no jornal Gazeta Mercantil, na sucursal de Salvador. Em outubro de 1997, mudei-me para São Paulo e fui trabalhar no caderno de cultura, "Leitura de Fim de semana", comandado pelo talento precoce Daniel Piza, um dos poucos grandes chefes que tive, daqueles com real competência para exercer a função. Oficialmente, eu deveria cobrir as áreas de TV (aberta e paga) e Internet - que engatinhava a passos firmes. Principalmente os bastidores. Mas fazíamos de tudo – resenhas de filmes e livros, além da cobertura de programas especiais de TV.

Sugeri e Daniel aprovou a série "Homens de TV", que apresentaria uma entrevista mensal publicada em duas páginas com algum nome importante dos bastidores da TV brasileira. O primeiro que escolhi foi por pura tietagem e curiosidade: Max Nunes. Sim, aquele que tinha criado os mais importantes programas de humor do rádio e da televisão no Brasil, a partir da década de 1940. O segundo também seguiu o critério da admiração: Dias Gomes, autor de "Roque Santeiro". Depois, vieram medalhões como Boni, Walter Avancini, Nilton Travesso, Fernando Faro e muitos outros.

Como sempre transcrevi integralmente todas as minhas entrevistas e salvava os textos brutos em arquivos à parte, levei a ideia de fazermos um livro com 15 daquelas conversas para Rogério de Campos, que começara a lançar livros pela Conrad havia pouco tempo. Expliquei que a TV faria 50 anos em setembro de 2000 e que seria uma boa época para um volume sobre a memória da TV, já que a maioria dos entrevistados estava no meio desde a década de 1950 e falava muito sobre esses primeiros tempos. Campos comprou a ideia, Daniel fez o prefácio, mas o livro atrasou alguns meses e só saiu em janeiro de 2001. Ah, todas as fotos eram do querido amigo Juan Esteves.

Campos chamou o livro de "Pais da TV", no sentido de paternidade. Mas, na ficha catalográfica, apareceu o meu, "País da TV", para enfatizar que a telinha interligava o Brasil com uma força rara em todo o mundo. As novelas, definitivamente, tinham mudado os hábitos dos brasileiros. Milhares de cinemas tinham sido fechados e muita gente não saía mais de casa à noite. Só que, nesse momento, eu tinha dois outros livros prontos, sem conseguir editor: "A Guerra dos Gibis" I e II (Maria Erótica e o Clamor do sexo). Já acumulava pelo menos uma dúzia de "nãos" de editores para o primeiro. Enquanto isso, aventurava-me com "Pais da TV".

Uma pena que esse volume tenha tido uma divulgação equivocada. Foi anunciado como um trabalho “em comemoração aos 50 anos da TV no Brasil”, embora eu tenha insistido com a assessoria de imprensa da editora para destacar ao menos um personagem na promoção: Walter Poyares, assessor pessoal de Roberto Marinho desde 1952. É uma entrevista das mais reveladoras e importantes da história cultural e política do país, sem falsa modéstia. No jargão jornalístico, um furo de reportagem (entrevista, no caso). Poyares foi o elo de ligação entre a Globo e os generais que governavam o país na ditadura. Está tudo lá, bem explicadinho, como ele fez uns conchavos para a CPI que investigava o assunto fosse arquivada. Uma pena que pouca gente leu esse livro. Mas ainda dá tempo. Geralmente tem em um sebo perto de você. 



Escrito por goncalo.junior às 21h43
[] [envie esta mensagem] []




NÓS QUE TANTO AMAMOS OS FOLHETINS

 


Um casal, que jura entre si amor eterno, é separado por uma mentira terrível, cruel, forjada pelo pai da jovem e pelo ex-namorado. Ela, então, se casa com esse outro, o vilão, porque o amado supostamente teria morrido num confronto com a polícia por questões políticas. Quase quinze anos depois, os dois antigos amantes se reencontram em um evento público e a mentira é desfeita. Mas há muitas outras a serem descobertas. E uma das mais importantes vem de um acidente de carro com o filho da mocinha. Na transfusão de sangue, o médico descobre que é o pai do menino, cujo amor da mãe por ele resistiu ao tempo.

Não estou falando, claro, de um folhetim do século 19, mas da história de Os dias eram assim, novela da Rede Globo das 23 horas. Toda essa trama em formato tão antigo tem uma roupagem moderna: os terríveis tempos de repressão, tortura e corrupção dos 21 anos da ditadura militar. Escrita por Ângela Chaves e Alessandra Poggi, com colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres, direção geral e artística de Carlos Araújo, a novela tem como essência a fórmula do folhetim.

Nenhuma outra teledramaturgia da Globo nos últimos 25 anos foi tão fiel a esses conceitos quanto Os dias eram assim. Não adianta inventar a roda, os velhos folhetins são mesmo insuperáveis, mexem com a emoção do público, prendem, aprisionam o público para acompanhar a história todos os dias. É puro preconceito ver isso como algo negativo. Pelo contrário. Se olharmos por outro ângulo, esse drama tão marcante na história da nossa TV, que é o mais contundente sobre os males e horrores do regime militar, cumpre bem sua função de entreter. E, mais importante, informar, instruir e educar as novas gerações sobre um período tão importante na vida nacional nos últimos cem anos.

A lição de dramaturgia que essa narrativa passa é a de que as novelas da Globo podem se renovar às avessas. Ou seja, recorrer ao folhetinesco quando a audiência de alguma atração patina. Todo mundo pode falar mal, mas a maioria das pessoas gosta dos dramalhões mesmo maquiados como Os dias eram assim. Esse disfarce, por outro lado, ganha intensidade com uma trilha sonora marcante e carregada de elementos nostálgicos, capazes de afundar ainda mais o telespectador na tragédia amorosa cotidiana dos personagens.

Tanta intensidade faz aflorar a reação e os comentários equivocados, superficiais e carregados de preconceito. Algo semelhante ao que acontece à música brega, que tanto incomoda os homens com suas letras sobre machos traídos. O brasileiro classe média, dito intelectual, é arrogante quando o assunto é emoção. E tende a ser infeliz por isso. Felizes somos nós que amamos os folhetins e sofremos com Os dias eram assim.



Escrito por goncalo.junior às 00h56
[] [envie esta mensagem] []




PARA LEMBRAR ANDRÉ SETARO

 

Acabei de descobrir um documentário de duas horas sobre a vida do crítico de cinema e professor André Setaro, que nos deixou em 2014. Setaro era uma grande figura em vários sentidos. Andava de óculos escuros a qualquer hora, de preto, bebia e fumava muito. Falava arrastado - pouca gente sabe que isso acontecia por causa de um derrame antes dele completar 40 anos. Fui seu aluno de cinema na Facom/UFBA e caí em suas graças. Dei a ele uns textos para ler e, para minha surpresa, publicou-os em sua coluna na Tribuna da Bahia, com uma série de elogios à minha pessoa.

Gostava de mim a ponto de me presentear regularmente com cartazes originais de grandes filmes, que tirava da sua coleção. Guardo ainda hoje Metrópolis, Drácula, Entrevista de Felini e muitos outros. Algumas vezes, pedia-me para escolher os filmes que seriam mostrados em sala de aula e resenhados depois - era professor de crítica cinematográfica. Uma das minhas sugestões foi Laranja Mecânica, claro, o número um da minha lista de filmes prediletos.
Setaro adorava chocar. Um dia, chegou atrasado e pediu desculpas aos alunos. Em pé, ao lado da janela, entre longas tragadas de cigarro, explicou que quando estava saindo para a aula, uma vizinha se jogou do vigésimo andar de seu prédio. Em seguida, ficou uns cinco minutos detalhando bem devagar como havia ficado o corpo da moça, a cabeça destroçada, o cérebro exposto, as pernas e os braços quebrados (não me esqueço das expressões de horror dos colegas enquanto falava). Depois, quando perguntei que história era aquela, ele deu uma gostosa gargalhada e me olhou com seu jeito enigmático.
Nesse vídeo bem feito por estudantes, Setaro aparece sempre de modo impagável, no seu estilo inconfundível, único, de rebelde, contestador, de anarquista, como gostava de se definir. Foi assim até o fim, coerente com suas ideias e sem se deixar enganar. Tinha um coração imenso, era generoso. Ah, e jamais encontrei alguém que conhecesse tanto de cinema. Mas só falava sobre o assunto se você o instigasse. Saudade do mestre.

Para ver o vídeo, vá em https://www.youtube.com/watch?v=Drkb7sJTx2w



Escrito por goncalo.junior às 09h40
[] [envie esta mensagem] []




O ALÍVIO E O PRAZER DE CONCLUIR MAIS UM LIVRO

Já observei aqui que escrever é sempre um tormento, um martírio que pode se transformar em desespero. Na verdade, não é bem assim. O tormento existe, sem dúvida. E vem durante a maior parte do tempo da produção de um livro: a busca por bibliografia, entrevistas, reportagens e a localização de pessoas que tenham conhecido a pessoa que você está biografando, por exemplo. Mas tem um momento que a coisa muda de rota e você sente que o tormento deu lugar a outra sensação. É o alívio, quando você começa a se empolgar. Em tempos de revolução digital, algo parecido a encontrar um endereço sem GPS.

Nesse caso, acontece no instante que você põe o ponto final na segunda ou terceira versão, aquela que te convence que você está perto da linha de chegada. Ou seja, seu texto precisa apenas de retoques e se tem o completo domínio do conjunto e da narrativa. Numa etapa seguinte, a coisa fica ainda mais prazerosa. O grande momento da escrita de um livro, para mim, é quando, depois de revisar duas ou três vezes no computador, imprimo e encaderno o livro com espiral. Estranhamente, é quando mais mexo no texto (esquece esse pápo de retoques). No papel, consigo ter uma visão mais espacial e geográfica do que fiz. Louco, né?

Nesta semana, tive um prazer assim, ao concluir a biografia de Vadico. É um daqueles projetos que a gente leva dez ou vinte anos para fazer, porque tudo parte de uma lenta e paciente “juntada” de material – reportagens, entrevistas, discos etc. Sempre trabalhei assim. Vou juntando, juntando... Um dia, encaro e vou em frente e o livro sai. Uma exceção é a biografia de Francisco Alves, que, há uma década, começo e paro. Todo ano. É informação demais para administrar e preciso de um tempo de dedicação exclusiva para terminá-la. Um ano, pelo menos. Diria que 40% já estão escritos. Mas não tenho certeza disso. Talvez tenha que reescrever tudo de novo. Insano. Louco. Terminarei, no entanto. Só preciso me livrar de dois livros já começados.

[Perdi as contas dos livros que estavam prontos e deletei para começar do zero de novo. Um exemplo: a história das editoras La Selva e Outubro. Já escrevi e deletei tudo quatro vezes desde 1995.] 

Você deve ter ouvido falar em Vadico. Ele foi o principal parceiro de Noel Rosa. Até então, acreditava-se que tinham feito juntos onze músicas. Provo documentalmente que compuseram uma a mais. De modo surpreendente, o livro que deveria ter 120 páginas em formato de bolso virou um tijolo de 420 páginas. É um Vadico com vários detalhes inéditos. Como o período em que ele era estrela da boate Plaza e lhe mandaram um menino de 18 anos chamado Roberto Carlos para ser seu crooner. Tem novidades sobre a vida dele nos Estados Unidos e sua morte prematura, aos 52 anos.

Por que escolhi Vadico? Na verdade, eu gostaria de escrever ums biografia sobre Noel. Carlos Didier e João Máximo, no entanto, chegaram primeiro. Sua obra é definitiva sobre o compositor de Vila Isabel. Hoje, agradeço a eles, pois adorei contar a vida de Vadico. Didier, aliás, foi maravilhoso comigo, tirou-me uma série de dúvidas. Um gentleman. Um cavalheiro que reverencio com todo respeito.

Falta ainda revisar a cópia diagramada e encaminhar o livro para a gráfica. Enquanto isso, já estou com a cabeça em outro persogem. Dá licença, seu Vadico? Foi um prazer conhecê-lo. Que muitos brasileiros digam o mesmo em breve.



Escrito por goncalo.junior às 01h17
[] [envie esta mensagem] []




 

O MAU CRIOULO SIMONAL

 

Embora esteja escrevendo uma biografia de um cantor famoso das décadas de 1930 e 1940, tenho ouvido muito Wilson Simonal nas últimas semanas. Praticamente todos os seus discos saíram em CD, o que facilita as coisas para mim. Simonal foi um fenômeno raro na música brasileira nos primeiros anos de ditadura militar. Considero sua voz a mais bela no gênero masculino já surgida no país.

 

Cheio de suingue, malemolência e malandragem para cantar, explodiu um sucesso atrás do outro, como “Sá Marina”, “País Tropical” e “Vesti azul”. Ele fazia o tipo sedutor e, ao que parece, adorava sair com mulheres brancas. Levou muitas à loucura, moças de classe média, inclusive casadas. Se não bastasse, “aquele crioulo metido a besta”, como se diz até hoje sobre os negros que “não procuram seu lugar”, gravou uma música em que dizia que todas as garotas eram gamadas nele porque, quando criança, ao invés de talco, sua mãe passou açúcar em seu bumbum. Por isso, muita gente detestava Simonal, mas não dizia que agia assim por racismo. Ele simplesmente era "metido", como já ouvi de senhoras da época.

Até que ele fez uma grande merda: ameaçou seu contador – que supostamente o teria roubado – de pedir para que amigos seus que eram agentes do DEOPS lhe dessem uma surra. Sem argumento, descontrolado, o cantor falou demais em recorrer a quem torturava e matava presos políticos e virou manchete de jornal. Não demorou para o crioulo ser taxado de dedo-duro dos colegas e jogado no limbo, até morrer de cirrose, esquecido, três décadas depois. Nunca se provou nada contra ele.

Esse assunto sempre me intrigou, pois a desgraçada ditadura militar, que um bando de imbecis quer de volta, foi tema de dois livros meus - Maria Erótica e A morte do Grilo - e eu pesquisei muito sobre o assunto. Em 1975, Simonal gravou um samba carnavalesco em que praticamente pedia reconciliação e uma chance para retomar sua carreira. Era o belo “A vida é só para cantar”, versão de um sucesso estrangeiro. Era tarde demais.

Quando esse assunto vem à tona, o racismo escancarado da mídia, principalmente, contra Simonal é amenizado ou ignorado. Ele foi um mau crioulo que rompeu as regras de convenção racial velada e hipócrita que se esconde na nossa fama hoje desmascarada de povo tolerante. E nessa luta desigual contra o preconceito, ao que consta, ele sempre esteve sozinho. Simonal foi o único exilado da ditadura dentro do seu próprio país, como diz o documentário sobre ele. E morreu sem alforria. Triste isso.



Escrito por goncalo.junior às 19h33
[] [envie esta mensagem] []




  

 

PORQUE VOCÊ DEVE LER KEN PARKER, O MAIOR MOCINHO DO FAROESTE

 

 

Acompanho a epopeia do editor Wagner Augusto para publicar Ken Parker no Brasil há duas décadas. Embora tenha sido criado na Itália e não nos Estados Unidos, por Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, não apenas é mais um personagem de histórias em quadrinhos que vive no velho oeste americano. Ken Parker é, de longe, o maior, o melhor e o mais interessante mocinho do oeste já criado nesse formato de entrenimento - que me perdõem Tex, Jonah Hex, Zagor, Mágico Vento, The Lone Ranger (Zorro), Lucky Luke e outros. Suas histórias são carregadas de profundo humanismo e ele é o que se poderia chamar, nesse sentido, de um anti-herói, no sentido literal do termo - nada tem a ver com vilão, hein? Ou seja, aquele que se aproxima mais do leitor e leva a uma maior identificação porque erra, engana-se, quebra a cara, apanha, sofre, tem medo e, muitas vezes, vê-se perdido diante dos imprevistos da vida.

 

Venerado no Brasil por nomes como o cantor e compositor Arrigo Barnabé e a cartunista Laerte Coutinho, Ken Parker é quase uma religião para quem aprecia quadrinhos refinados, daqueles que atingem o conceito de arte e não de apenas entretenimento. E se não fosse o teimoso Wagner, esse público no Brasil estaria órfão. A série original, de 59 volumes, foi parcialmente lançada, pela primeira vez, entre 1978 e 1983, pela extinta Editora Vecchi, que faliu e, por isso, interrompeu a coleção no volume 53. A Best News, por volta de 1990, chegou a tentar completá-la, mas não passou de dois números. Wagner, então, começou a publicar edições especiais, com histórias mais curtas e álbuns de luxo. Até partir para o desafio de dar ao personagem o merecido tratamento editorial para a série completa. E, assim, no começo deste século, ele colocou no mercado todos os volumes, em papel especial, de primeira qualidade, e capa cartonada, com orelhas. Um primor do qual tive a honra de participar com a revisão de alguns números. Também produzi boa parte dos releases e até escrevi um guia de episódios, que nunca tive a oportunidade de publicar, mas quero fazê-lo um dia.

 

Desde o final de 2015, Wagner partiu para um novo e longo desafio: editar os 35 números da revista Ken Parker Magazine. A série original saiu na Itália a partir de junho de 1992, publicada pelos próprios autores, em edições mensais. Cada número trazia uma aventura inédita do personagem, algumas delas mais longas e, por isso, divididas em capítulos. A revista também publicava trabalhos de outros autores, artigos e reportagens ligadas aos quadrinhos naquele país. Teve uma interrupção em  setembro de 1994 e, depois, passou a ser publicada pela poderosa Sergio Bonelli Editore, até janeiro de 1996.

 

Seis números já saíram pelo selo Cluq, além do volume zero, que é distribuído gratuitamente para quem começar a coleção. A tiragem é limitadíssima em 300 exemplares, sem possibilidade de reimpressão. Eu te imploro, caro leitor deste blog: descubra Ken Parker. Mesmo que nunca tenha lido quadrinhos em sua vida ou não goste de faroeste. E o faça a partir dessa nova coleção. Comprometo-me a lhe devolver o dinheiro se não se viciar nessa rara e monumental obra-prima dos quadrinhos. Ah, o contato de wagner é esse para pedir os primeiros números: cluq@terra.com.br.



Escrito por goncalo.junior às 09h26
[] [envie esta mensagem] []




 

VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 2

A música preferida de meu pai era Doce de Coco, a obra-prima de Jacob do Bandolim. Aliás, ele era alucinado por Jacob e por Altamiro Carrilho, dois gênios do choro. Tinha todos os discos deles desde a década de 1950 e passou a vida a dizer que seria a herança a ser deixada por ele para mim - a imensa pilha continua no seu guarda-roupa, não tive coragem ainda ver. Alguns desses discos de Altamiro, na versão CD, estão autografados, a meu pedido, pois o entrevistei algumas vezes, em shows que ele fez em Salvador na décvada de 1980. Sobre Jacob, Seu Gonçalo contava que ele tinha morrido muito cedo, de enfarto – aos 51 anos, em 1969. Falava de seu perfeccionismo, que o levava a quase enlouquecer seus músicos, do talento como compositor. Lembrava ainda que tinha um cartório e uma filha dentista.

O dia sagrado do meu pai era o domingo. E para todos nós também. Era o momento de ficar com a família, de ouvir música, de comer o tradicional franguinho ensopado ao meio-dia em ponto – às vezes, ao molho pardo ou à cabidela, como se diz em algumas regiões do país,  misturado com macarrão. Bom demais. Às 8h em ponto, os quatro filhos, bem arrumados, deveriam estar sentados a seu lado no banco da Igreja Matriz, separada de nossa apenas por uma praça. Na volta, enquanto minha mãe preparava o frango, que ela mesma matava, com impressionante destreza e frieza, meu pai se punha a ouvir música e a tomar sua cachacinha, principalmente as que "importava" das cidades de Sebastião Laranjeira ou de Januária (MG), onde se produzia as melhores do Brasil, na sua opinião.

Cada vez mais, esse hábito o levaria ao alcoolismo e à diabetes. Mas ele não era um bêbado chato. Ao contrário, tornava-se mais carinhoso, menos durão, mais atencioso. E liberava uns trocados para irmos ao cinema, o Cine Sorbone, cujo fundos víamos da frente de nossa casa. Tanto que ninguém além da nossa porta sabia ou percebia que ele gostava de beber – dizia que o álcool o ajudava a suportar o trabalho extenuante, a burocracia mecânica que tinha que se submeter. E, assim, o domingo corria com variantes de temas musicais. Isso acontecia porque, para cada época do ano, ele tinha um repertório irretocável de marchas e sambas. Se era época de Carnaval, Lamartine Babo reinava absoluto em nossos ouvidos com clássicos como Lourinha, Linda Morena e O teu cabelo não nega – esse clássico racista, sucesso estrondoso em uma época que o racismo não estava na pauta.

No Carnaval, a música que ele mais gostava era a marcha A Jardineira, na voz inconfundível de Orlando Silva, gravada em 1938. Deste, sempre falava que depois que a mãe do cantor morreu, jamais conseguiu cantar Rosa (Pinxinguinha e Otávio de Souza), por ser sua música preferida. Orlando perdia a voz, com a garganta engasgada pelo choro. Quando vinha o São João, apareciam os discos de Luiz Gonzaga, que ele também venerava. Havia ainda as marchinhas juninas cantadas por Carmen Miranda, Mário Reis, Aurora Miranda e Francisco Alves - Cai cai balão e Chegou a hora da fogueira eram imbatíveis. O Natal era tempo de depressão, de melancolia, de ouvir Boas Festas (aquele que diz "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel") e saber que seu autor, Assis Valente, tinha morrido em um banco de praça, no Rio de Janeiro, em 1958, depois de tomar veneno com guaraná. (Continua).



Escrito por goncalo.junior às 21h36
[] [envie esta mensagem] []




  

 

VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 1

 

Em minha experiência como biógrafo de compositor – Assis Valente –, autor de dezenas de perfis e entrevistas com mestres musicais diversos (Dorival Caymmi, Valter Franco, Raul Seixas etc) e leitor de biografias da área, um detalhe em comum na vida desses artistas sempre chamou minha atenção: o fato de terem crescido em um ambiente musical. Ou seja, na sua infância ouvia-se muita música em casa. Mas, quantos como eu também tiveram os primeiros anos assim e não seguiram o caminho da música? Pelo menos de forma direta, pois, no meu caso, em toda a vida como jornalista profissional, escrevi sobre o tema, inclusive com resenhas de livros e discos.

Curioso que lá, na pequena cidade de Guanambi, onde passei a maior parte da infância, tocava-se de tudo em nossa casa. Discos. Toca-discos. Minha mãe amava Roberto Carlos e tinha uma quedinha pela música brega de Agnaldo Tomóteo e Carmen Silva. Quando brigava com meu pai, então, botava esses cantores no volume máximo e afundava o rosto no travesseiro. Chorava horrores, diante dos filhos impotentes para consolá-la. Meu irmão mais velho curtia Queen, Rod Stwart, Supertramp e coisas do gênero. Minha irmã, que veio antes de mim, ouvia Beatles e Janis Joplin – no seu quarto, descobri ainda os romances de Charles Bukowski, John Fante e Clarice Lispector. Foi ela quem moldou meu gosto musical e literário, sem dúvida. Afinal, era estudante de Filosofia e rebelde por natureza.

Mas foi meu pai a pessoa que realmente fez a minha cabeça musical, ao me apresentar velhos compositores, cantores e instrumentistas. A lista é imensa: Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Silvio Caldas, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, Mario Reis, Francisco Alves, Ademilde Fonseca, Ari Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, Chiquinha Gonzaga, Dorival Caymmi, Marilia Batista, Braguinha, Noel Rosa, Aracy de Almeida etc. Sobre todos, ele tinha na memória impressionante histórias maravilhosas dessas pessoas: algumas tristes, outras alegres, e muitas anedotadas.

Toda quinzena, ele me dava o dinheiro para ir à banca de seu Nunes - que parecia ter 110 anos e adulterava o preço de capa, pois só ele era jornaleiro na cidade - e comprar um fascículo da Nova História da Música Popular Brasileira, que a Editora Abril produzia e trazia de brinde um disco de vinil (LP), com uma seleção cuidadosa dos sucessos daquele compositor. Passávamos duas semanas lendo as biografias e ouvindo as músicas, até sair o próximo volume - foram 72 fascículos, se não me engano, lançados entre 1975 e 1978. Eu adorava tudo aquilo. Ouvia, aprendia, doutrinava-me e descobria a maravilha de nossos grandes mestres. (Continua)



Escrito por goncalo.junior às 23h33
[] [envie esta mensagem] []




Rir para não chorar em peça sobre Alzheimer

Não tenho mais paciência para ver peças de teatro delirantes, subjetivas demais, longas e que deixam a plateia tensa no mero esforço de entender onde o autor quer chegar. Nesses casos, costumo ler a sinopse antes, apenas para me divertir pelo que pretende dizer e o que é dito. Ou não dito. Ou o que ficou na promessa.

Ontem, fui ver Campeão de Dominó do Alasca, de Mario Viana, com direção de Aimar Labaki, que tem no elenco meu querido amigo Valdir Rivaben, ator com talento acima da média para o humor. São apenas três personagens em cena: dois filhos adultos e uma mãe idosa, corroída pelo Mal de Alzheimer.

Viana consegue o improvável: fazer rir - e refletir - sobre um assunto perturbador, principalmente para quem tem ou teve algum parente com essa terrível doença que, como sempre digo, rouba a alma da pessoa, deixa-a à mercê por completo das crueldades e regras de um mundo implacável. Em um texto enxuto, econômico, de diálogos precisos e sem excessos, ele expõe uma consequência natural desse mal: o drama familiar que ela acarreta. Faz isso ao contrapor dois irmãos em lado bem opostos: o que passou dez anos cuidando da mãe, com grande sacrifício, e o que a ignorou esse tempo todo e volta disposto a usá-la para um golpe que pretende quitar as dívidas com mafiosos.

O mais velho tenta convencer o outro a participar de um plano cruel, quando surge o momento de se fazer uma interesse reflexão sobre as relações familiares com parentes de reações diversas. Até onde vai a paciência, o estorvo, a responsabilidade de cada um? Todos esses pontos incomodam e levam a pensar, com sutileza e inteligência. No balanço final, sobressai um drama cômico carregado de humanismo e emoção. O trio é afiadíssimo nos 50 minutos do espetáculo. Vá ver.



Escrito por goncalo.junior às 11h58
[] [envie esta mensagem] []




ALÕ VOCÊ AÍ DE CIMA!!!

SEI QUE NÃO VAI ME LIGAR AMANHÃ.

MAS VEJA SÓ OS NOSSOS DISCOS PREFERIDOS QUE ESTOU OUVINDO, COMO NOS VELHOS TEMPOS!

TÁ CHEGANDO AÍ?

NÃO É POR E-MAIL OU INTERNET. VIA CORAÇÃO.

 

 

 



Escrito por goncalo.junior às 11h37
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]