Gonçalo Junior
   
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A VIDA NÃO DEVIA TER DESSAS COISAS

 

Anne Maira foi uma linda garotinha que eu vi nascer e crescer. Transformou-se numa irmã mais nova que passou a fazer parte da rotina lá de casa. Cresci como amigo de seus irmãos, que tomaram rumos diferentes na vida. Anne era mais nova uns cinco anos e não saía da nossa casa porque nossas mães são amigas inseparáveis, daquelas que atravessam a vida juntas, pro que der e vier, mesmo com desentendimentos, daqueles típicos entre irmãos e que, quando você presta atenção, estão entre beijos e abraços.

O carinho que eu desenvolvi por Anne é algo difícil de explicar ou mensurar. Havia entre nós uma mistura de irmandade, fraternidade e uma dessas paixões que transcendem o desejo. Ela era minha baixinha preferida, uma irmã caçula, com quem eu ia ao cinema quando ela chamava ou não havia companhia para mim. Eu morria de ir com ela, quando víamos um filme de terror - no Cine Bahia e no Cine Glauber Rocha, na década de 1980. A cada cena, para irritação da plateia, ela soltava espontaneamente um “Maria Valei-me” em alto e bom som.

Minha mudança para São Paulo afastou a gente por vinte anos. Anne virou uma bem-sucedida enfermeira, profissional respeitada, adorada pelos colegas. Há cinco anos, fui visitar um amigo internado no hospital onde ela trabalhava e pedi para que a chamassem. Um atendimento de emergência, no entanto, fez com que o encontro não fosse possível. Aguardei por horas. Deixei recados desaforados que me renderam um telefonema doce dela. Do seu jeito, deu boas risadas antes de pedir desculpas pelo desencontro.

Em agosto, soube que Anne estava com um câncer agressivo no cérebro. Justo ela, que salvou tantas vidas, estava agora do outro lado do balcão. Falamos por telefone como se nos tivéssemos encontrado no dia anterior. Confessamos o amor único e sublime que um tinha pelo outro. Sabe daquelas conversas quando a gente diz tudo que devia ter falado a vida inteira e que sai sincero, verdadeiro, espontâneo? Aconteceu assim. Anne, minha irmãzinha querida, que tanto conviveu comigo, lutava cheia de esperança para continuar por aqui. Mostrou-se mais preocupada em me tranquilizar.

Nos falamos diversas vezes nos dois meses seguintes, entre seus internamentos e longos períodos de convalescência. Ela não atendia o telefone. Só respondia pelo whatsapp. Eu entendia como impossibilidade por causa da fragilidade de sua saúde. Adorava tirar selfies para mostrar que não tinha desistido de lutar. Todas com um largo sorriso e nenhuma palavra dita ou escrita. No dia 16 de novembro, mandou-me uma foto ao lado da mãe. Estava com a cabeça raspada e vestia uma roupa de formatura. Quinze dias depois, eu estava em Salvador. Dias antes, liguei e mandei um monte de mensagens, queria visitá-la.  Chegavam ao seu celular, mas nunca eram lidas.

Enquanto eu fazia isso, precisamente no dia 1º de dezembro, ela partia. Por um desses desencontros da vida, só hoje, dia 3 de fevereiro, dois meses depois, soube que ela foi embora sem a gente se despedir. E sou tomado de uma tristeza imensa. Anne amava a vida e mostrava isso ajudando os outros, na profissão que escolheu. Merecia completá-la, chegar a velhice para cumprir a promessa de sermos dois velhinhos adolescente, um tirando sarro um do outro.

 

Anne era única filha mulher de sua mãe, minha segunda mãe, que está desolada. Quando penso nela, vem a certeza de que todas as vezes que a vi, ela estava sorrindo. Seu passatempo preferido era me pirraçar. A gente sabia que tinha em comum a característica de fazer disso uma forma de expressão de carinho e amor. Como sabemos, o tempo não para e não volta. Não a verei nunca mais. Mas, como as pessoas que amei e amo, ela estará sempre comigo. Valeu muito, Anne. Eu nunca vou te esquecer e vou te amar sempre.



Escrito por goncalo.junior às 14h27
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