Gonçalo Junior
   
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 13 – O Mocinho do Brasil, Laços Editora, 2009.

Acima de qualquer coisa, este livro é uma provocação aos críticos e resenhistas brasileiros pedantes de histórias em quadrinhos. Em especial, aqueles que costumam fazer subdivisões dos personagens de quadrinhos para separar o que consideram mais representativos, mais artísticos e o que classificam como lixo, quase sempre dentro dos critérios de gosto pessoal - muitas vezes alienado e questionável. Por muito tempo, o mocinho de faroeste Tex esteve nessa última categoria. Não é um mal que atinge apenas os quadrinhos. No cinema, na literatura e na música o problema do preconceito e do maniqueísmo se repete todos os dias nas páginas dos jornais e das revistas. Há também o compadrio, o hábito de elogiar os amigos e ignorar os desafetos.

Criado na Itália em 1948, Tex se tornou um fenômeno editorial no Brasil e isso não há como negar - daí o título O Mocinho do Brasil. O personagem circula há 46 anos, desde abril de 1971. Está na terceira editora, a Mythos, e mais forte que nunca, com meia dúzia de edições regulares e especiais todos os meses. Mais velhos que ele só os gibis da Disney que a Abril publica desde 1950. Só esse fato já deveria despertar o interesse de estudiosos da comunicação e não apenas de HQ. Como entender ou explicar algo assim? Por que Tex tem uma fórmula tão eficiente de atrair novas gerações de leitores? Eu me considero mais do que capacitado para escrever ou falar do personagem, pois li e tenho a coleção completa do 1 ao 340 - sem contar a segunda edição inteira e os 200 primeiros volumes de "Tex Coleção" e a reedição em cores das primeiras histórias. Os cem primeiros, devo ter lido umas dez vezes.

Optei por tentar ao menos explicar que há no formato Tex o mais puro e legítimo folhetim de aventura, que vem desde o século XVII, na Europa. Sua narrativa é arrastada, longa em demasia quando comparada com outros gêneros de quadrinhos, como os de super-heróis. Mas próxima dos mangás produzidos no Japão, cujas séries podem chegar a ter nove mil páginas. Tex é o herói folhetinesco clássico, que toma partido dos fracos e faz justiça dentro da lei. Suas aventuras funcionam como uma espécie de escapismo e cartasse, uma vez que o bem e a justiça sempre triunfam no final. Os diálogos são simples, diretos, marcados por suspense e heroísmo.

O leitor médio de Tex só lê Tex. Com raras exceções. Não são os compradores de super-heróis, quadrinhos infantis ou as luxuosas edições em livro vendidas nas livrarias. Supõe-se que seu nível de escolaridade seja baixo, uma vez que as tramas não trazem diálogos filosóficos ou subjetivos. É o que se pensa. Aa prática, porém, indica e tem mostrado que muitos profissionais com nível universitário e mais velhos continuam a ler Tex. São médicos, advogados, dentistas, engenheiros, auditores fiscais etc. Podem não ler outros gêneros, mas estão longe do padrão estereotipado de leitor que foi criado - do motorista de caminhão, do sujeito que não completou os estudos - o que não tem a ver aqui com qualquer demérito.

O grosso do meu livro, no entanto, narra sua saga editorial no Brasil, iniciada em fevereiro de 1951, na revista de bolso Junior, então publicada pelo jornal O Globo, de Roberto Marinho. Depois, passou pela Vecchi, onde lançou a numeração, a partir de 1971, que existe até hoje. Com a falência da editora, em 1983, o personagem passou para a Rio Gráfica e Editora/Globo, até ser assumida, quase quinze anos depois, definitivamente pela Mythos, onde circula até hoje.

Localizar e entrevistar todos editores e até tradutores de Tex foi uma epopeia árdua e que demandou bastante tempo. Mas consegui falar com todos. Também inclui um capítulo que considero dos mais relevantes: os plágios sofridos pelo herói por parte de desenhistas brasileiros. Selecionei apenas os mais explícitos, em que sequencias inteiras foram copiadas descaradamente.

É um trabalho que me trouxe algumas alegrias, como vê-lo levar o editor original, o italiano Sergio Bonelli, a comentá-lo na edição regular da revista e se estender por seis edições, em que lembrou de suas relações com o Brasil e as viagens que fez ao país. Por outro lado, o leitor-colecionador de Tex é o mais chato e insuportável que existe. Refiro-me a alguns daqueles idiotas que chegam ao ponto de se vestir como o herói e ricar o tempo todo dizendo que ninguém sabe mais do herói que ele. por isso, não foram poucos os que vieram questionar informações que dei, sem considerar minhas minuciosas pesquisas. Essas pessoas não tiveram a gentileza de apontar méritos ao meu trabalho. Elas não gostam de ver mentiras perpetuadas ao longo de décadas serem desmascaradas. Como, por exemplo, datas de publicação.

 

Outro dia, falei em uma página que pretendia fazer nova edição desse O Mocinho do Brasil e apareceu um dizendo que o livro era bom, mas tinha “muitos erros”. Pedi para que me apontasse, pois pretendia checá-los. O sujeito disse que não se lembrava mais r que tinha me mandado por e-mail havia bastante tempo. Um outro viajou quase 700 quilômetros apenas para chegar no dia do lançamento e dizer que tinha uma data incorreta. Tentei convencê-lo de que estava correta a afirmação. Acho que não consegui. Dessas pessoas quero distância.



Escrito por goncalo.junior às 10h10
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 12 – Vida Traçada

 

É o que se chama de livro de bolso, em formato reduzido e que cabe na palma da mão, publicado pela editora alternativa Marca de Fantasia, de João Pessoa, em 2009. Eu devia um livro para o editor Henrique Magalhães, querido amigo, sobre os cangaceiros nos quadrinhos e, em um encontro nosso aqui em São Paulo, perguntei se poderia pagar ao menos parte da dívida com uma pequena biografia de Flávio Colin que estava pensando em escrever. Henrique é um fã entusiasmado dele e topou na hora. Eu tinha uma pasta razoável com mais de duas dezenas de entrevistas que ele deu a uma infinidade de revistas e jornais desde a década de 1970, até um pouco antes de sua morte, em 2002, aos 72 anos de idade.

Escrevi esse volume em menos de um mês. Suficiente para confirmar o que já achava dele. Para mim, Colin é um dos maiores, mais completos e originais autores de histórias em quadrinhos de todo o mundo e em todos os tempos. Gênio absoluto. Artista que transcende essa tão desprestigiada arte contemporânea que são os comics. Raros traços são tão facilmente identificáveis quanto o dele. E foi por causa dessa admiração que comecei a reunir tudo que encontrava sobre sua vida, sua obra, seus pensamentos e ideias. Dei atenção não só entrevistas e reportagens como a sua obra publicada. Algumas coisas se revelaram bem raras, aliás. O colecionador João Antonio de Almeida, por exemplo, apresentou-me às histórias de terror que saíram nas duas contracapas internas da revista policial X-9, no início de sua carreira, no começo da década de 1950.

A principal fonte para o livro foi, sem dúvida, a viúva de Colin, dona Norma, com quem conversei diversas vezes por telefone, Consegui seu número com o editor Carlos Mann. Ela me contou, em detalhes, algo completamente desconhecido de seus fãs até aquele momento: a trágica infância do marido, uma das mais tristes que já encontrei em minhas aventuras como biógrafo. Flávio e o irmão foram sequestrados pelo próprio pai e mantidos quase como prisioneiros em um colégio interno de padres no interior do Paraná. Ao longo de uma década, negaram à sua mãe o direito de vê-los, por mais que ela fosse ao local e implorasse aos padres. Jamais conseguiu ao menos comovê-los com seu drama. Naqueles tempos de superioridade machista do homem sobre a mulher, a autoridade paterna jamais deveria ser questionada. Essa história marcou o artista para sempre de modo traumático, naturalmente.

 

Eu não chamaria esse pequeno livro de biografia, mas de perfil. Colin é grande demais para algo tão pequeno - em formato e número de páginas, principalmente. Embora eu tenha mapeado e citado quase tudo que ele produziu e publicou, há muita coisa a ser acrescentada, apurada, investigada. Como, por exemplo, detalhes documentados da vida dos dois irmãos no colégio interno e a relação do desenhista com colegas e editores, além do seu processo de criação. A sua vida na publicidade também foi pouco explorada e é possível fazer uma leitura mais precisa e analítica de sua obra. De qualquer modo, gosto bastante do resultado e torço para que, um dia, algum pesquisador aprofunde mais o que levantei aqui. Flávio Colin merece.



Escrito por goncalo.junior às 10h12
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