Gonçalo Junior
   
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 11 – Enciclopédia dos monstros

No mesmo ano em que lancei O incrível homem que encolheu, em 2008, a Ediouro mandou para as livrarias minha Enciclopédia dos monstros, um livro em formato quadrado que me deu muitos problemas antes e depois da sua publicação. Vou recordar, mesmo que brevemente. Esse volume nasceu de uma quase encomenda feita por um estúdio de produção editorial, especialista em revistas para bancas, principalmente. O dono, para quem eu fazia freelas, pediu-me uma lista de projetos que eu gostaria de desenvolver no formato dos famosos Almanaque dos Anos 80, Anos 90 etc. Ele fez uma espécie de convocação a vários colaboradores seus, que lhe entregaram suas listas. Mas o meu foi o único aprovado. A ideia era clara para mim: tratava-se de uma obra autoral, assinada por mim, portanto, mas seria integralmente produzido na montagem e produção gráfica pelo tal estúdio. A editora também lhe pagaria um valor pela apresentação da proposta.

Os olhos dessa pessoa, no entanto, cresceram e eu passei a ser pressionado de modo nada agradável para assinar papéis que transferiam a propriedade do livro à sua empresa. No começo, havia da parte dele a desculpa de que, assim, eu pagaria menos impostos. Percebi a manobra e não aceitei. Depois, com a minha negativa, caiu para a baixaria total. O sujeito dizia coisas do tipo: “Eu fui um idiota, deveria eu mesmo ter assinado como autor, do mesmo modo que fulano e beltrano (seus concorrentes) fazem”. Essa história acabou com o rompimento de nossas relações por vários anos. O livro saiu, mas, por mim, teria sido deletado. Perdi todo o entusiasmo depois dessa trama de cobiça e ganância.

Depois que o livro chegou às livrarias, vieram os problemas de direitos autorais. Foram vendidos, oficialmente, oito mil livros em cerca de três anos, segundo números da editora. E nada mais teria sido impresso, embora, no ano passado, 14 livrarias virtuais tivessem exemplares para vender. Para encurtar a história, eu recebi bem menos do que achava que tinha direito e tentei de todas as formas resolver isso amigavelmente. Tudo foi finalmente solucionado com um acordo judicial em que me dei por satisfeito, graças à mudança na equipe de advogados da empresa, bem mais maleável e disposta a encontrar uma solução para o impasse.

Poucas vezes me senti tão à vontade para escrever sobre um tema, apesar do termo “enciclipédia” assustar, pois pressupõe algo imenso, uma obra de referência, trabalhosa, minuciosa, responsável, confiável. Aconteceu que eu estava em casa nesse assunto. Louco por filmes e quadrinhos de terror desde a infância, no final da década de 1970, eu acompanhei tudo que saiu de lá para cá: as muitas editoras que publicaram gibis do gênero, os programas de TV e, principalmente, os filmes. Vi todos os clássicos e todas as cinesséries, como Sexta-feira 13, A hora do pesadelo e A hora do espanto. Achava-me capacitado para empreitada, enfim.

Mesmo assim, não foi fácil mapear mais de mil monstros que acabaram compondo a obra. E tive ajuda de vários lugares. Uma prima minha, fã de Stephen King e escritora de terror (Débora Gimenes), por exemplo, mobilizou uma das comunidades do escritor na rede social Orkut para mapear quantos monstros havia em seus livros. Se não me engano, encontraram 76 criaturas entre as que tiveram alguma importância. O mais difícil, porém, foi mapear as aberrações alienígenas dos seriados japoneses – Ultraman, Jaspion, Powers Rangers, Robô gigante etc. Não existia levantamento deles naquela época e acho que ainda hoje também não. Comprei de um colecionador de Belo Horizonte as duas primeiras temporadas de nada menos que doze séries (ok, algumas só tinham uma temporada apenas) e assisti todos os episódios com a caneta na mão. É mole?

Quase dez anos depois, tento criar coragem para atualizar o livro e fazer nova edição. Temo, porém, deixar passar dados importantes, pois, muita coisa aconteceu nesse período, como a saga Crepúsculo, os novos seriados de TV, personagens de quadrinhos e da literatura. Cada vez mais, no entanto, empolgo-me com essa ideia e estou quase pronto para meter a mão na massa. Tenho orgulho do que saiu publicado nessa primeira edição. Jamais contestaram o valor da minha pesquisa e acho que é uma obra para consulta única no mundo.



Escrito por goncalo.junior às 21h35
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 10 – O incrível homem que encolheu

Eu tive um tio que era uma pessoa do coração tão bom, mas tão bom, que faliu como comerciante. Qualquer pessoa que entrasse no seu boteco e pedisse um prato de comida, ele jamais negava. E não cobrava, claro. Óbvio que alguns parasitas perceberam isso e abusavam da sua boa vontade - dia sim dia não aparecia lá pedindo um prato. Tanto esse boteco quanto os dois ou três pequenos armazéns que ele teve foram custeados por meu pai, uma espécie de sócio e superprotetor desse irmão mais novo. Nenhum dos negócios foi para frente. Meu tio era capaz de ficar sem comer para alimentar alguém. Não tinha malícia. Não tinha maldade. Jamais o vi falar mal de alguém, queixar-se de algum parente.

Ele me adorava. Chegou a morar com a família na casa do meu pai por alguns anos. Nos primeiros anos da minha vida, quando cresci na pequena cidade onde nasci, ele era uma pessoa onipresente para mim, uma criança que só dava trabalho por causa dos problemas de saúde que teve: desde internamento longo por pneumonia a vomitar duas lombrigas imensas numa crise de vermes no organismo a um acidente com um trinco da porta que vasou meu olho direito e que custou algumas cirurgias – caríssimas – e longos tratamentos durante seis anos. Meu tio sabia da minha paixão por quadrinhos. Sabia também que toda quarta-feira chegava revistas novas na banca e que uma custava Cr$ 5. Nesse dia, ele me dava essa quantia e mandava eu correr até a banca.

Meu respeito por ele sempre foi imenso. Nos últimos anos de vida, corroído pela diabetes – mesma doença que mataria meu pai e uma irmã deles –, tornou-se uma pessoa calada, distante, quieta, tristonha. Não trabalhava, vivia da aposentadoria de um salário mínimo. Seu único problema era o vício no jogo do bicho. Gastava boa parte do seu pouco dinheiro que recebia nessa jogatina que é pura armação. Eu o via nas festas e encontros familiares e tentava, ao máximo, dar-lhe atenção. Meu tio tinha se tornado uma pessoa invisível entre os seus. Era como se ele não estivesse ali, não existisse. Não tinha “dado certo” na vida e se tornara quase um estorvo, embora eu soubesse que ninguém ali pensasse que o tratava assim ou pensava dessa forma - infelizmente, para parte da minha família, dinheiro é a coisa mais importante do mundo. E carrões também.

Foi para ele que escrevi meu primeiro livro de ficção, minha primeira obra infantil, O incrível homem que encolheu. Na história, mostro a rotina de um menino cujo tio faz tudo para e por ele. Só que, à medida que cresce, o garoto toma consciência de que o tio é um ninguém na família de um modo inusitado: pelo encolhimento do corpo. Enquanto ele cresce, o tio diminui de tamanho. Fica tão pequeno, que desaparece. Anos depois, o sobrinho descobre que ele vive no buraco do rato que tem em seu quarto. Revoltado, reúne a família e dá uma bronca tem todo mundo, no esforço de recuperar a dignidade desse sujeito tão bom. À medida que consegue isso, o tio retoma parte do seu tamanho - mas continua a ser menor do que ele imaginava, pois permanece um pária para alguns parentes.

Para as crianças, a moral da história é: nunca dê valor às pessoas pelo o que elas têm de bens materiais, mas pelo que elas são, pelo que representam na sua vida. Eu nunca disse a meu tio que tinha escrito esse livro para ele, que estava vivo, quando saiu pela Editora Amarilys. Temia magoá-lo, ele poderia imaginar que eu o retratei de forma cruel. Talvez a maioria de quem o lê – inclusive seus filhos, que não sabem da sua existência – pensem exatamente assim. Mas, para mim, trata-se apenas de uma homenagem a um homem simples, que mal sabia assinar o nome mas que, até o fim da vida, mostrou-me que a bondade humana pode não ter limites. E que, às vezes, como foi o seu caso, paga-se um preço muito alto por isso.



Escrito por goncalo.junior às 20h47
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