Gonçalo Junior
   
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 9 – Biblioteca dos quadrinhos

 

 

Adoro fazer coisas provocativas, embora nem sempre sou compreendido em minha intenção. E o que acontece, às vezes? Sou questionado, quando encontrado em algum evento ou palestra, nos raros que vou: "Por que você fez esse livro? Não tem a sua cara, não entendi..." Tem sim, cara-pálida. É só observar direito e vai ver que existe algo provocativo ou subversivo em tudo que faço. Senão, nada teria sentido para mim. Pois bem. Este livro meio maluco não foge à regra e vou explicar porque estou falando isso.

Cansei de ouvir que havia poucas obras sobre quadrinhos publicadas no Brasil. Alguns dizem isso para justificar a preguiça que tem em localizar o que se tem produzido nos últimos 50 anos e que contribui para novos estudos sobre os quadrinhos. A falta de memória, da história ao menos contada em fragmentos, sem dúvida é grande e tudo isso me incomoda bastante. Mas não é bem assim. Há muito material disponível, basta deixar o comodismo de lado e ir atrás. Mesmo assim, como mera provocação a certos acadêmicos que conheço, resolvi escrever um livro com uma lista do que tinha em casa.

Em apenas um mês, consegui juntar mais de 700 títulos, subdivididos em quatro categorias: sobre quadrinhos; com capítulos sobre quadrinhos, adaptações dos quadrinhos e revistas e fanzines sobre o tema. O projeto nasceu da ideia do editor Carlos Mann, que perguntou se eu topava resenhar um livro por semana para o site que ele pretendia montar de sua editora, a Opera Graphica. Respondi que sim e, num desses impulsos quando a gente não está a fim de fazer quase nada, nem mesmo ver um filme – coisa que faço todo dia, vejo uns 500 por ano –, comecei a vasculhar minhas estantes.

Fui separando os títulos mais óbvios, que estavam razoavelmente organizados pertos um do outro, pois baguncei minha biblioteca depois de quatro mudanças de endereço em apenas cinco anos. Depois, fui peneirando, caçando. E, convenhamos, em 2004, a Internet não tinha a quantidade de informação de hoje, o que teria me ajudado bastante. Acredite, escrevi este livro em 28 dias, mesmo com outras obrigações, os freelas que tinha de fazer para pagar as contas. Eu tinha lido tudo, sabia do que se tratava cada um e só quebrei um pouco a cabeça para organizar as fichas, de modo a tornar mais prático e funcional a obra como fonte de pesquisa.

Essa era a intenção: criar um guia para nerds, estudiosos e colecionadores de quadrinhos consultarem sempre. Assim, coloquei informações básicas como título, nome do autor, editora, ano de lançamento, número de páginas e medidas. E, o mais importante, um pequeno comentário em cinco linhas de computador sobre o conteúdo de cada um. Ao invés de falar mal, mostrar as limitações, as repetições, fiz o oposto. Procurei destacar apenas o que havia de positivo, o que era possível de ser aproveitado em uma pesquisa, uma reportagem, um artigo, um ensaio etc.

Antes de botar a mão na massa, com a lista impressa nas mãos, levei para Carlos em uma reunião que tínhamos marcado para discutir outras coisas, sugeri a ele que, ao invés do site, poderíamos fazer aquilo em livro. Apresentei meus motivos. O mais importante deles era me livrar daquela obrigação de mandar para ele toda semana um texto sobre uma obra. Eu levaria vinte anos até completar somente o que eu tinha reunido até ali. Ele, como sempre, empolgou-se na hora. Escolhemos o título mais funcional possível: Biblioteca dos Quadrinhos. Chamou seu sócio Franco de Rosa e pediu para que desenhasse as vinhetas que separariam as seções e a capa. Como seria uma obra de bastante manuseio, ele sugeriu que fosse feita uma edição com capa dura.

 

O livro ficou belíssimo, bem cuidado, com lindos desenhos de Franco. Hoje, não sei se conseguiria fazer uma atualização deste volume. Nos últimos doze anos, saiu uma quantidade impressionante de livros com trabalhos acadêmicos, biografias ou entrevistas com autores. Somam-se a isso as revistas especializadas, como Mundo dos Super-heróis e NeoTókio, só para citar duas. Não seria exagero dizer que meu levantamento dobraria de tamanho em caso de atualização. Mas ficaria feliz se alguém se dispusesse a esse árduo desafio. Boa sorte, então. 



Escrito por goncalo.junior às 18h17
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 8 – O messias

 

Sempre me pareceu mais lógico afirmar que o crime no Rio de Janeiro, como em outras capitais do Brasil, nunca foi exatamente organizado. Mesmo com o aparecimento de facções criminosas razoavelmente estruturadas. Vejo que, na verdade, tudo não passou, até o momento, de disputas feitas por vaidosos chefes do tráfico, em busca de poder por meio da violência e do exibicionismo. Jamais existiu, por exemplo, um único comando criminoso capaz de “governar” um coletivo grande de favelas, como no caso do Rio de Janeiro.

Em meados da década de 1990, comecei a achar que fosse aparecer alguém capaz de mudar esse estado de coisas quando passei a ver algo de novo acontecendo, em reportagens pela TV e na minha experiência como repórter que percorreu boa parte das favelas de Salvador em busca de notícias, com uma coragem que hoje eu não sei se teria. O crescimento da presença e da influência de pastores evangélicos em presídios e nesses lugares tão miseráveis apontava para uma força sem controle e de consequências imprevisíveis por causa da presença do elemento religioso.

Um dia, pensei: e se aparecesse no Rio um fanático psicopata, tipo pastor, com grande oratória e que tivesse no trágico de drogas e de armas sua principal fonte de recursos e que fosse capaz de unir pelo menos as dez maiores favelas da capital carioca, com um discurso meramente messiânico? Mais que isso, conseguisse montar um exército de perigosos criminosos, além de gente da comunidade, recrutada a partir de sua fé, e descesse com eles o morro e declarasse guerra à classe média e aos mais endinheirados? Que conseguisse até dominar a cidade e criar um governo paralelo por meio do terror?

Seria o discurso bíblico da Terra Prometida. Esse enredo evoluiu para uma longa história em quadrinhos, que chamei de O messias, pensada para ser um filme, na verdade, mas de um modo estético diferente: um longa metragem sem som. Exceto na hora em que tiros fossem disparados. Rá-tá-tá-tá. A minha referência direta para isso era o filme russo Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein, sobre um levante de marinheiros em 1905 e que seria o prenúncio da revolução russa de 1917. Era e continua a ser o filme que mais me impressionou e me influenciará por toda à vida, por causa do impacto de suas imagens, da expressão facial dos personagens obtidas pelo diretor. Portanto, como o roteiro da graphic novel deveria virar quadrinhos, decidi que não teria balões.

Depois de alguns anos em busca de um desenhista para realiza-lo, encontrei em Flávio Luiz o parceiro mais interessado. Ele havia gostado da trama e prometeu fazê-la em alguns meses. Nós nos conhecíamos desde o começo daquela década, quando trabalhamos juntos no jornal Bahia Hoje, em Salvador. Quando recebi as primeiras páginas, fiquei maravilhado com o que vi, apesar de ter visualizado, quando escrevia a história, desenhos mais sujos, mais undergrounds. Flávio é um mestre em fazer o estilo dos super-heróis da Marvel e DC, gênero pelo qual é apaixonado. De qualquer modo, acho que ficaria razoável no final.

Até que surgiu o primeiro atrito entre nós. Quando ele me mandou um lote completo finalizado das imagens, senti falta de uma série de páginas que achava importantíssimas para a compreensão da trama e que ele tinha me mostrado nos esboços. Perguntei por telefone o que tinha acontecido e ele me contou que havia excluído e jogado fora aquele material, por sugestão de uma pessoa muito próxima dele e em quem confiava. Segundo ela, dava mais fluidez e clareza à trama. Reli de novo. Tudo me pareceu confuso, truncado, fragmentado. Para mim, era exatamente o contrário do que ele tinha dito. A tal pessoa achava que tinha enorme talento para “editar” as coisas - trabalhava com livros. Achei uma intromissão deselegante e desnecessária, além de equivocada. Engoli o sapo, depois de tentar sem sucesso convencê-lo a refazer as páginas “deletadas”. Ele se manteve irredutível.

O que eu poderia fazer? Desistir de tudo? Essa mesma pessoa teria outro papel desagradável depois que o livro ficou pronto, em maio de 2006. Após muito empenho da minha parte para que o volume fosse divulgado, sem a colaboração do meu parceiro, recebi uma mensagem dessa pessoa ligada a Flávio com uma “orientação” expressa e taxativa: nas minhas próximas entrevistas, eu deveria dizer que os desenhos do rapaz foram fundamentais para o resultado “excepcional” do álbum, que melhorara bastante o conjunto. Eu quase enfartei quando li aquilo. Alguém pede para eu destratar meu trabalho a fim de valorizar o de outra pessoa? Se não bastasse, eu achava exatamente o oposto. Os cortes feitos por eles dois e o traço de super-herói prejudicaram bastante o roteiro original.

Entre perder tempo discutindo com ególatras e ficar em silêncio, preferi a segunda opção. Cancelei as entrevistas e parei de promover O messias. E fiz desse trabalho algo morto em tudo que eu já realizei. Não quero que jamais seja republicado, a não ser se for desenhado por outro artista e com a inclusão dos trechos suprimidos. Não sou de guardar mágoas ou rancor das pessoas, mas esse caso ultrapassou todos os limites suportáveis de desrespeito ao meu trabalho. Algo, aliás, que só conto porque assumi comigo mesmo o compromisso de contar neste blog a história dos bastidores dos meus livros.

Mas O messias tem uma curiosidade que vale a pena ser lembrada: ele ficou pronto exatamente na mesma semana em que aconteceram os ataques e assassinatos promovidos pelo PCC, em São Paulo, no começo de maio de 2006. Exatamente na quarta-feira, dois dias depois da cidade inteira esvaziar as ruas, no começo da tarde, em meio a ameaças de bombas nos terminais de ônibus e de metrô. O editor do livro, Carlos Mann, da Opera Graphica, soube aproveitar o contexto e soltou um release anunciando a obra e o tema, que teve impressionante repercussão na imprensa. Uma pena que a carreira desse trabalho tenha sido interrompida de modo tão chato.

 

 

 



Escrito por goncalo.junior às 00h07
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