Gonçalo Junior
   
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IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 7 – Benício

 

Sou meio maluco. Ou melhor, tenho surtos, às vezes. Mas sem perder a consciência, claro. Muito pelo contrário. De repente, deparo-me com um personagem e boto na cabeça que vou escrever sua biografia. Vem assim, do nada. Geralmente, quando estou no chuveiro. Como já disse aqui, todas as mais importantes decisões de minha vida eu tomei debaixo do chuveiro - na época em que não se falava em racionamento, meus banhos duravam pelo menos vinte minutos. E vou em frente com a ideia. Desistir jamais, depois da decisão. Mesmo que a primeira percepção que eu tenha é de que nada ou quase nada exista sobre aquela pessoa. Portanto, vai me dar um trabalho dos infernos. Foi assim com Alceu Penna e se repetiu com Benício, o grande artista que fez centenas de cartazes de cinema entre as décadas de 1960 a 1990 – inclusive os 31 filmes dos Trapalhões e uns 300 do movimento da pornochanchada.

Não tenho certeza se a ideia de fazer um livro sobre ele nasceu de um dos muitos cafés que tomei com o editor Wagner Augusto, do Clube dos Quadrinhos, o mesmo que tinha publicado em 2004 a primeira versão do meu livro Alceu Penna e as garotas do Brasil. É bem provável que sim. Sei que depois acertamos fazer juntos três livros sobre mestres das artistas gráficas que achávamos importantes e admirávamos muito. Depois de Alceu Penna e Benício, viria Eugenio Hirsch, imigrante austríaco e mago das capas de livros da Civilização Brasileira na década de 1960 e que mudou a história do livro no Brasil. Eugênio está pronto e na gaveta há oito anos. 

Wagner tem o maior arquivo sobre quadrinhos e artes gráficas do Brasil que tenho notícia, tudo meticulosamente organizado. Mas, sobre Benício, havia muito pouco em suas pastas e caixas, se não me falha a memória. Só depois eu entenderia que Benício não é daquele tipo de artista que gosta de aparecer na mídia. Prefere levar uma vida discreta e ser notado apenas pela qualidade dos seus trabalhos. E foi isso que o consagrou como um dos maiores artistas gráficos brasileiros de todos os tempos. Meu primeiro passo, já com a ideia fixa na cabeça, foi ver o que havia sobre ele na Internet. Em 2006, tinha bem menos que hoje, claro. De qualquer modo, cheguei ao site do próprio artista, que trazia o telefone do estúdio dele para encomendas de trabalho. Liguei e, para minha surpresa e alegria, no segundo toque ele mesmo atendeu.

Identifiquei-me, falei que era jornalista e tinha publicado alguns livros. Em seguida, perguntei se ele me daria a honra de contar a história de sua vida. Imagina quantas vezes ele recebeu propostas assim. Mas, caí nas graças dele de imediato. E perguntou como eu queria fazer, se podia passar em seu ateliê, no Rio, para me conhcer e conversarmos. Expliquei que, naquele momento, ficava complicado porque que eu morava em São Paulo. Contou-me que viria fazer uma palestra na capital paulista dali a uma semana, no SESC do centro, em dobradinha com Nelson Motta, sobre literatura policial. Nelson estava no seu terceiro romance do gênero e Benício havia feito cerca de duas mil capas para os livrinhos de bolso da Editora Monterrey sobre espionagem e histórias policiais. Principalmente a espiã Brigitte Montfort, musa de duas gerações de brasileiros.

Estávamos em 2006. Benício e o filho ficariam hospedado em um hotel na Avenida Paulista, ao lado do Metrô Consolação, e combinamos que eu passaria no seu quarto no começo da tarde do dia de sua apresentação para fazermos a primeira entrevista. Deu tudo certo. Conversamos por três horas e fomos para a palestra no começo da noite. Na verdade, deu quase tudo certo porque Benício é daquele tipo de pessoa que ouve o interlocutor gastar dois minutos elaborando uma pergunta e responde: Sim, não, não sei, não me lembro. Mesmo assim, saí de lá felicíssimo com o resultado. Tinha uma biografia promissora para fazer, pois sua vida, como eu imaginava, foi marcada por acontecimentos interessantíssimos. Eu sabia, por exemplo, que ele tinha pintado cartazes de filmes com modelos ao vivo cuja lista incluía Sônia Braga e Vera Fischer, só para citar duas.

Depois dessa conversa, falamos por telefone umas vinte vezes ao longo de duas semanas. Eu tinha transcrito as fitas e anotado folhas e folhas de dúvidas sobre detalhes que fazem a diferença depois para se ter um livro mais completo na hora de ler. Montar o quebra-cabeça de 50 mil pecinhas que era sua vida começou a me desesperar, em determinado momento, porém. Como eu não desisto fácil, mantive o ritmo. E descobri o caminho das pedras: o uso do e-mail para conseguir outras informações. Percebi que a qualquer hora que eu escrevesse, Benício respondia logo. Então, comecei a debulhar o milho por essa ferramenta. Com a pergunta por escrito, ele teria mais tempo para pensar na resposta mais completa. 

Lembro bem da prazerosa via-crucis que atravessamos. Eu perguntava na mensagem: Qual o nome da rua onde você nasceu? “Não me lembro”, respondeu. Eu: Ficava no centro? “Sim”. No e-mail seguinte: havia algo conhecido perto, um mercado, uma praça, um cinema? “Ah, tinha o cinema tal, onde eu gostava de ver matinês”. Aproveitava a deixa e questionava que seriados ele gostava. Eu, então, retomava o fio da meada anterior e escrevia: “Descobri que esse cinema ficava na rua tal. E as ruas próximas são essas: x, y e z. Será que você nasceu em uma dessas?”. Aí, ele respondia: “Sim, lembrei, foi na z”. Eu: Ótimo. E o número da casa?” Ele: “Aí é querer demais. Não me lembro”.  Chegou um momento que o próprio Benício descobriu uma forma de me ajudar: as irmãs que viviam em Porto Alegre.

E passou a ligar o tempo todo para elas. Eu pedia: Você pode ver se alguma de suas irmãs se lembra como era a casa, quantos quartos? Onde vocês brincavam? E ele fazia tudo certinho e me mandava as respostas. No final do livro, tínhamos trocado perto de 3.200 e-mails. Ao mesmo tempo, percebi que a cada dia ganhava mais e mais sua confiança, pois esse senhor era muito arredio no começo. Um dia, mandou pelos Correios um envelope pardo imenso, entulhado de recortes de imprensa que ele e a esposa tinham organizado e guardado no decorrer de décadas. Devia ter perto de meia centena de reportagens e entrevistas feitas em diferentes momentos de sua carreira. Um tesouro sem preço que me trouxe um monte de detalhes que eu não fazia ideia.

Na última etapa, seu genro preparou um DVD com centenas de imagens em alta resolução que ele tinha escaneado, para ilustrar o livro. Se não bastasse, Benício fez um retrato hiper-realista de si mesmo pintando Brigitte. Linda a capa, como pode-se ver na reprodução aqui postada. Em nenhum momento, preciso ressaltar, ele quis olhar o texto que eu estava escrevendo. Jamais perguntou que abordagem eu dava aos fatos de sua vida. Ele confiava cegamente em mim, passei a acreditar. Tanto que só pôde finalmente ler o livro depois que recebeu sua cota de dez exemplares impressos em casa. E adorou tudo que viu e leu, não fez nenhuma ressalva , observação ou correção. Tudo tinha valido a pena tanto para ele quanto para mim.

Esse foi um daqueles livros que não me deram trabalho para fazer o texto final. Veio redondinho na cabeça, eu tive o completo domínio de tudo desde o primeiro momento, após a transcrição das fitas: da cronologia, dos capítulos, da versão final e da revisão impressa que sempre gosto de fazer. Quando acontece isso, o texto sai logo, todo esquematizado da minha mente. Mas esse é um fato raro. Geralmente, meus livros saem de parto natural mesmo, precedido de uma dolorosa gestação, digamos assim, além do parto em si. Acredite, a analogia não é despropositada. Um livro pode levar o autor ao desespero, quando ele não consegue dar o caminho desejado. 

Benício saiu ainda em 2006. Não sei precisar ao certo qual foi o mês. Infelizmente, teve um lançamento caótico, uma das piores experiências da minha vida. Combinamos eu e Benício que os autógrafos seriam realizados no SESC Pompeia, após uma palestra sua durante um megaevento de ilustração. Suas irmãs pegaram o avião em Porto Alegre só para participar da festa, que tinha tudo para ser perfeita, uma noite de celebração inesquecível. Jorge, querido amigo dono da Comix, montou um esquema para a venda dos livros. Ele tinha apenas 15 exemplares em estoque e o editor deveria levar o resto naquela noite. As irmãs de Benício chegaram mais cedo e compraram todos.

O que parecia ser um sinal de sucesso prenunciou um pesadelo. À medida que a palestra se aproximava do fim, bateu o desespero: nada dos livros chegarem. Liguei para a casa do editor e fui informado de que ele tinha ido para um evento familiar. Depois, soube que houve um desentendimento dele com o organizador do evento, que queria cobrar uma comissão de 30% para deixar o livro ser vendido. E o editor simplesmente nada me avisou e optou pelo boicote. Culpava-me por ter fechado o lançamento naquele seminário sem falar com ele antes. Na verdade, minha intenção era ajudar. Como Benício estaria em São Paulo por conta do evento, a editora economizaria nas passagens e na hospedagem.

Foi uma noite de constrangimento surreal. Benício se sentou em uma mesa à espera dos livros para assinar e uma enorme fila se formou para comprar a biografia que não apareceu. Nunca passei tanta vergonha. Principalmente, por causa da expressão de desapontamento de Benício. Pedi um milhão de desculpas a todo mundo. Teríamos vendido fácil uns 200 exemplares naquela noite. Eu estava em dívida com o agora querido amigo Benício por causa daquele vexame e prometi que um dia pagaria com juros e correção ou em dobro, com uma nova edição e lançamentos em São Paulo e no Rio. E sempre cumpro minha palavra. Não foi diferente dessa vez,



Escrito por goncalo.junior às 00h56
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