Gonçalo Junior
   
Histórico
Outros sites
UOL - O melhor conteúdo
BOL - E-mail grátis

Votação
Dê uma nota para meu blog

 


Impressões de viagem

Livro 6 – O homem-Abril

 

Quando o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, perguntou-me se eu toparia enxugar 30% do texto original de A Guerra dos Gibis para que ele o publicasse, eu topei na hora, mas sem ter a menor ideia de como faria isso. Eu estava cansado e atormentado, depois de oito anos em busca de um editor para esse livro. Eu sempre achei que tirar uma vírgula dali seria como cortar na carne, amputar um dedo, tamanho apego que tinha pelo meu próprio trabalho. Por onde começar os cortes? A solução, como em tudo em minha vida, veio durante um banho, com a água do chuveiro a refrescar meu cérebro: e se eu tirasse a história de Victor Civita e da Editora Abril? Pensei: não fará a menor falta. E, depois, poderia escrever um volume somente sobre a tão famosa editora brasileira. E assim foi feito. No final, somadas as contas, o percentual de corte chegou a 35%. Significava que se tudo do original fosse publicado ficaria um volume com perto de 600 páginas!

E foi desse modo que nasceu O homem-Abril – Cláudio de Souza e a história da maior editora brasileira de revistas. Sem dúvida, tornou-se meu maior fracasso editorial - perto do meu único título infantil, O incrível homem encolheu, que tratarei aqui mais adiante. Nada me tira da cabeça que esse livro foi largamente boicotado pelos veículos de imprensa. Como a maioria dos jornalistas que cobrem livros não lê integralmente as obras que resenha, na dúvida, era melhor não comprar briga com a gigante do mercado editorial nacional. Penso que aconteceu assim. Afinal, trabalhar lá era o sonho de todo ser da imprensa até a primeira década do século XX. Lembro que Zé Luís, responsável pela divulgação da loja Comix, patrocinadora da Opera Graphica, editora do livro, mandou 94 exemplares por Sedex para jornalistas especializados que eu selecionei. Só saiu na Gazeta Mercantil, porque minha amiga Elaine Bittencourt, editora do caderno de cultura, quis dar. E no Correio da Bahia, de Salvador, graças à decisão da editora Isabel Laranjeiras e da repórter – e amiga – Dóris Miranda.

Não havia motivos para deixarem O homem-Abril passar em branco. Não era uma obra sensacionalista sobre a Abril. Mas, por outro lado, não foi pensado para eu conseguir um emprego lá. Fiz a minha obrigação de repórter e nada omiti ou fiz exaltação. Eu sabia que teria enorme dificuldade para convencer um editor entre as maiores editoras a apostar no livro. E se isso acontecesse, seria grande a chance de propor cortes para não ferir a sensibilidade de Roberto Civita, herdeiro e presidente do grupo. Por isso, propus a edição aos editores Carlos Mann e Franco de Rosa, da Opera Graphica, que toparam na hora. Por confiarem em mim e por serem rebeldes – mas responsáveis – por natureza, não fizeram qualquer objeção ao conteúdo. Saiu tudo exatamente como eu queria. Mas, além do silêncio da imprensa, uma tragédia tornaria esse volume ainda menos conhecido e mais raro: um temporal destruiu 1,5 mil dos 2 mil exemplares impressos, que estavam armazenados no galpão da Comix, no bairro da Casa Verde.

Todo o conteúdo de O homem-Abril nasceu da combinação de longos trechos que tirei de A Guerra dos Gibis com entrevistas que eu tinha feito com Cláudio de Souza, ex-secretário pessoal e nome importantíssimo na história da editora; e os irmãos Roberto e Richard Civita. Conversei com todos eles em abril de 2000, para uma reportagem de duas páginas para a Gazeta Mercantil, onde eu trabalhava, sobre os 50 anos da Abril que a pessoa responsável pela edição, por rancor, inveja ou instabilidade emocional, não deixou que saísse na capa do caderno – colocou um tema infinitamente irrelevante. Aliás, não posso deixar de contar uma história curiosa ocorrida durante a conversa com Roberto Civita. Nossa entrevista começou às 17 horas. Por volta das 19h, como eu estava acompanhado de um fotógrafo, disse a ele que seria interessante fotografarmos ele com a moedinha nº 1 do Tio Patinhas. Roberto pareceu não entender do que eu estava falando.

Expliquei a ele que, em maio de 1975, vinte e cinco anos antes, portanto, ele e o irmão, por sugestão de Cláudio, mandaram confeccionar às escondias uma réplica em ouro de 18 quilates, inclusive com a redoma de vidro, da famosa pataca de Tio Patinhas, para darem ao pai, em homenagem a um quarto de século da Abril. Seus olhos brilharam e se encheram de lágrimas. Roberto, então, chamou um exército de assessores e funcionários e mandou que achassem a tal moedinha de qualquer jeito. A editora virou um pandemônio. Por volta das 23h30, depois de algumas cobranças por telefone, acharam a tal relíquia. Pense: ficamos quatro horas e meia conversando com Roberto, comemos lanche, bebemos refrigerante, enquanto várias pessoas vasculhavam o prédio – o objeto estava imundo, largado em um depósito-morto. As fotos ficaram maravilhosas. A mesma pessoa que vetou a matéria na capa, porém, disse que não ia dar o empresário segurando a moedinha na redoma. Eu nunca vou me conformar com editores estúpidos, que usam sua vaidade e ódio da humanidade contra o bom jornalismo.

A vida de Cláudio de Souza é o fio condutor de O homem-Abril. Essa foi a forma que encontrei para fazer justiça ao seu esquecido e desprezado papel na trajetória da editora. Ele criou as revistas importantíssimas e que existem até hoje, Mickey, Capricho, Cláudia, Manequim, Quatro Rodas, Almanaque Abril, Almanaque Disney, Disney Especial, Realidade, Placar etc., além de ter montado o embrião da distribuidora Dinap e o Departamento de Documentação (Dedoc). Ele foi fundamental também na criação dos fascículos, que impulsionaram economicamente a Abril, a ponto de torna-la a maior editora de revista brasileira de todos os tempos. Nenhuma publicação da empresa jamais lhe deu qualquer crédito nesse sentido. Aquele livrão A revista no Brasil, por exemplo, cita uma série de “criadores de revistas”, mas o ignoram completamente.

Sempre gentil, seu Cláudio adorou a ideia da biografia e me ajudou o quanto pode, pois nada havia guardado das décadas de 1960 e 1970, a não ser o primeiro Manual dos Escoteiros-Mirins, outra invenção sua, que me deu autografado. Respondeu longamente a mais de uma dúzia de extensos questionários e me devolveu a primeira versão do livro entulhada de anotações em todos os cantos possíveis, de todas as páginas, inclusive no verso. Reforcei o material com as quase seis horas de conversa que tive com Roberto e o papo de duas horas com Richard – além de entrevistas com vários antigos funcionários, como Waldir Igaiara de Souza, que o substituiu no departamento de revistas infanto-juvenis. O resultado me agradou demais e o editor Roberto Guedes, que cuidou da versão final para publicação, até hoje diz que é o melhor livro que escrevi. Fico feliz ao ouvir isso porque, na minha opinião, ficou completo e redondinho.

O homem-Abril tem histórias maravilhosas de desafios e superações de uma empresa que se tornaria desbravadora, em um mercado tradicionalmente dominado por editoras cariocas. O personagem maior, claro, é Victor Civita. Mas Cláudio se destaca porque trabalhou 24 anos na empresa, foi seu sétimo funcionário, e fiou lá até 1975. Revela, por exemplo, que nos dez primeiros anos da editora, ninguém sabia que o norte-americano Civita era o verdadeiro dono do negócio porque estrangeiros não podiam ser dono de empresas de comunicação no Brasil, como estabelecia a lei de imprensa, instituída em 1934. À frente, ele colocou seu ex-gerente de banco Gordiano Rossi, transformado em sócio. O texto tem passagens interessantes sobre o nascimento das revistas Realidade, Veja e Playboy, e a luta do editor Mino Carta contra a censura na ditadura militar, que levou à sua demissão.

 

Mas, sempre que me perguntam sobre o livro, gosto de contar uma historinha que flerta com o sobrenatural. No dia 24 de agosto de 1990, completava uma semana que dona Silvana, mulher de seu Victor, estava inconsciente, em coma, por causa de câncer no cérebro, se não me engano. Não havia mais esperança de que ela melhorasse e sua morte era dada como certa em poucos dias. O patriarca estava arrasado, depois de um casamento de quase seis décadas. Por volta das 15h, quando os dois filhos estavam postados diante de sua cama, em visita, ela acordou e, lúcida, disse: “Vão para casa, seu pai está precisando de vocês”. Em seguida, fechou os olhos e nunca mais os abriu. Naquele instante, Victor morria em casa, de enfarto, após deitar para um descanso do almoço. A mulher, partiu uma semana depois. Vai entender. Vai explicar...



Escrito por goncalo.junior às 11h38
[] [envie esta mensagem] []




IMPRESSÕES DE VIAGEM

Livro 5 – Tentação à italiana

Depois de trabalhar como repórter por oito anos, no começo de março de 2003, deixei o jornal Gazeta Mercantil com um grupo de colegas, depois de cinco meses sem receber salários. Foi uma demissão coletiva como protesto, pois chegara um momento em que a direção não queria mais dialogar com a redação e apenas dizia que não tinha dinheiro para pagar nossos salários e nem podia estabelecer prazos. Vieram tempos difíceis para todos nós, endividados por cuasa da falta de pagamento pelo nosso trabalho. Nessa mesma época, além de me separar, pondo fim a um casamento de cinco anos, precisei me reinventar em busca de freelas e formas de pagar todas as dívidas acumuladas por causa da crise do jornal. Eu tinha um grande desafio porque sempre levei uma vida reclusa, nunca tive o hábito de frequentar eventos e festas de jornalistas. Portanto, tinha poucos contatos para buscar ajuda.

Mas me virei, corri atrás. Nesse período, entre 2003 e 2004, fiz um milhão de coisas para pequenas editoras, o que me levou a aprender muita coisa nova. Trabalhava muito e recebia pouco. Entre outros trampos, fiz vários livros por encomenda, para vendas em bancas de jornal. Era o que havia, quando a maioria dos colegas jornalistas que eu conhecia estava desempregada. Escrevi cinco livros derivados daquele lixo editorial chamado Código da Vinci, de Dan Brown, que tive de ler umas três vezes, para uma editora portuguesa – um deles até rendeu uma carta elogiosa de um professor da Universidade de Coimbra. Jamais vi esses livros prontos. Sei que os textos eram vendidos para um editor de Lisboa que montava, imprimia e vendia por lá, sem jamais mandar uma única cópia para cá.

Para a Ópera Graphica, organizei uma infinidade de álbuns em quadrinhos nessa mesma época. Fiz o álbum sobre os 50 anos do personagem de faroeste Tex no Brasil, além de organizar títulos que resgatavam a atrajetória de grandes mestres dos quadrinhos, todos com apresentação minha – longos textos biográficos, na verdade, além das seleções das histórias que formavam cada antologia. Dessas experiências para banca de jornal, tenho orgulho de ter escrito, produzido e idealizado o livro Tatuagem de Cadeia, publicado pela Editora Escala, em 2003. Tinha 160 páginas e meu nome aparece no expediente apenas como editor, mas eu o escrevi inteirinho.

O motivo para a edição foi o lançamento do filme Carandiru, do diretor Hector Babenco. Sua assessora de imprensa, Margarida Oliveira, querida amiga a quem devo muitos favores, jogou nas minhas mãos mais de 600 fotos que pertenciam ao arquivo do médico e escritor Dráuzio Varella. Era um pequeno tesouro, pois ele tinha tirado aquelas fotografias ao longo de anos, pacientemente, dos incontáveis presos que atendeu em seu consultório. Depois, conversei demoradamente com o gentil Babenco e com as coordenadoras de maquiagem que cuidaram das tattoos nos atores que fariam os presos. Assim, montei um glossário em que explicava o significado de cada um dos símbolos impregnados na pele. Hoje, vejo isso como um precioso documento sobre a vida no sistema prisional brasileiro. Se alguém tiver um exemplar e quiser me presentear, agradeço muito. Ah, Sabotage, que posou para a capa, foi assassinado logo depois. Acho que o livro nem tinha saído ainda...

Também fiz um livro por encomenda que se chamou inicialmente de Medicina para leigos, pela Editora Garçoni, em 2004, por encomenda de um laboratório farmacêutico. A obra deveria ser distribuída como brinde, disseram-me. Entrevistei 25 especialistas (guardo as entrevistas ainda hoje) e o formato era pergunta e respostas que a maioria dos leigos tem sobre cada especialidade médica – oftalmologia, urologia, ginecologia, neurologia, cardiologia, obstetrícia, anestesiologia, geriatria, otorrinolaringologia etc. Sei que saiu por três pessoas me disseram tê-lo folheado em consultórios médicos, mas jamais vi um exemplar. Nem faço ideia de vomo ficou a edição.

Foi nessa época, meio que como terapia para aquelas incertezas que eu vivia, em dias de isolamento total, que resolvi escrever meu primeiro livro teórico, que chamei de Tentação à italiana – um perfil dos mestres do erotismo italiano, e que a Opera Graphica Editora publicou em junho de 2005, em formato tabloide e capa dura e fez um enorme sucesso. Saiu matérias em dezenas de jornais e revistas e os mil exemplares de tiragem foram vendidos em apenas um mês. Foi um impressionante êxito editorial, mas que jamais teve uma nova edição. Meu amigo Toninho Mendes chegou a preparar uma edição atualizada, que lançaria pela sua editora Peixe Grande. Infelizmente, ele faleceu em janeiro deste ano e o projeto voltou para a gaveta novamente.

Tentação à italiana pretendia ser uma provocação ao preconceito que a chamada crítica especializada de quadrinhos tem ainda hoje contra os grandes mestres dos quadrinhos eróticos, como Guido Crepax, Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri, cujas obras são o foco do meu estudo. Li tudo, absolutamente tudo, que eles fizeram ao longo da vida, mesmo as edições que não saíram no Brasil. Inclusive as obras não eróticas. Eu vinha colecionando seus livros havia pelo menos duas décadas. Sempre me incomodou de eles serem rotulados de fazerem pornografia, quando tudo não passava de uma visão distorcida, apressada ou equivocada de quem fazia essas afirmações. Eram, portanto, artistas menores, apesar de desenherem mulheres de modo deslumbrante.

Havia uma profundidade imensa e conceitual nos trabalhos desses artistas e resolvi fundamentar a partir da análise de cada álbum, um a um, meticulosamente, ao mesmo tempo em que intercalava com dados biográficos de cada autor. Todos eles, na minha opinião, eram artistas libertários, que pregavam a emancipação e a liberdade sexual das mulheres. Era assim em Valentina, Bianca e Anita, de Crepax; em Druuna, de Serpieri; e nas garotas espirituosas e ousadas de Manara. Em todas, elas tinham absoluto controle da situação e acabavam por submeter os homens às suas vontades e caprichos. Por isso Valentina se tornou um ícone da Revolução Sexual dos anos de 1960, ao lado de sua inspiradora, Barbarella, de Jean-Claude Forrest, de 1962, que abriu uma ampla estrada para a libertação das mulheres da opressão milenar das religiões. Acredito que consegui fundamentar de modo convincente essa minha teoria, digamos assim.



Escrito por goncalo.junior às 20h54
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]