Gonçalo Junior
   
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NÓS QUE TANTO AMAMOS OS FOLHETINS

 


Um casal, que jura entre si amor eterno, é separado por uma mentira terrível, cruel, forjada pelo pai da jovem e pelo ex-namorado. Ela, então, se casa com esse outro, o vilão, porque o amado supostamente teria morrido num confronto com a polícia por questões políticas. Quase quinze anos depois, os dois antigos amantes se reencontram em um evento público e a mentira é desfeita. Mas há muitas outras a serem descobertas. E uma das mais importantes vem de um acidente de carro com o filho da mocinha. Na transfusão de sangue, o médico descobre que é o pai do menino, cujo amor da mãe por ele resistiu ao tempo.

Não estou falando, claro, de um folhetim do século 19, mas da história de Os dias eram assim, novela da Rede Globo das 23 horas. Toda essa trama em formato tão antigo tem uma roupagem moderna: os terríveis tempos de repressão, tortura e corrupção dos 21 anos da ditadura militar. Escrita por Ângela Chaves e Alessandra Poggi, com colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres, direção geral e artística de Carlos Araújo, a novela tem como essência a fórmula do folhetim.

Nenhuma outra teledramaturgia da Globo nos últimos 25 anos foi tão fiel a esses conceitos quanto Os dias eram assim. Não adianta inventar a roda, os velhos folhetins são mesmo insuperáveis, mexem com a emoção do público, prendem, aprisionam o público para acompanhar a história todos os dias. É puro preconceito ver isso como algo negativo. Pelo contrário. Se olharmos por outro ângulo, esse drama tão marcante na história da nossa TV, que é o mais contundente sobre os males e horrores do regime militar, cumpre bem sua função de entreter. E, mais importante, informar, instruir e educar as novas gerações sobre um período tão importante na vida nacional nos últimos cem anos.

A lição de dramaturgia que essa narrativa passa é a de que as novelas da Globo podem se renovar às avessas. Ou seja, recorrer ao folhetinesco quando a audiência de alguma atração patina. Todo mundo pode falar mal, mas a maioria das pessoas gosta dos dramalhões mesmo maquiados como Os dias eram assim. Esse disfarce, por outro lado, ganha intensidade com uma trilha sonora marcante e carregada de elementos nostálgicos, capazes de afundar ainda mais o telespectador na tragédia amorosa cotidiana dos personagens.

Tanta intensidade faz aflorar a reação e os comentários equivocados, superficiais e carregados de preconceito. Algo semelhante ao que acontece à música brega, que tanto incomoda os homens com suas letras sobre machos traídos. O brasileiro classe média, dito intelectual, é arrogante quando o assunto é emoção. E tende a ser infeliz por isso. Felizes somos nós que amamos os folhetins e sofremos com Os dias eram assim.



Escrito por goncalo.junior às 00h56
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