Gonçalo Junior
   
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O MAU CRIOULO SIMONAL

 

Embora esteja escrevendo uma biografia de um cantor famoso das décadas de 1930 e 1940, tenho ouvido muito Wilson Simonal nas últimas semanas. Praticamente todos os seus discos saíram em CD, o que facilita as coisas para mim. Simonal foi um fenômeno raro na música brasileira nos primeiros anos de ditadura militar. Considero sua voz a mais bela no gênero masculino já surgida no país.

 

Cheio de suingue, malemolência e malandragem para cantar, explodiu um sucesso atrás do outro, como “Sá Marina”, “País Tropical” e “Vesti azul”. Ele fazia o tipo sedutor e, ao que parece, adorava sair com mulheres brancas. Levou muitas à loucura, moças de classe média, inclusive casadas. Se não bastasse, “aquele crioulo metido a besta”, como se diz até hoje sobre os negros que “não procuram seu lugar”, gravou uma música em que dizia que todas as garotas eram gamadas nele porque, quando criança, ao invés de talco, sua mãe passou açúcar em seu bumbum. Por isso, muita gente detestava Simonal, mas não dizia que agia assim por racismo. Ele simplesmente era "metido", como já ouvi de senhoras da época.

Até que ele fez uma grande merda: ameaçou seu contador – que supostamente o teria roubado – de pedir para que amigos seus que eram agentes do DEOPS lhe dessem uma surra. Sem argumento, descontrolado, o cantor falou demais em recorrer a quem torturava e matava presos políticos e virou manchete de jornal. Não demorou para o crioulo ser taxado de dedo-duro dos colegas e jogado no limbo, até morrer de cirrose, esquecido, três décadas depois. Nunca se provou nada contra ele.

Esse assunto sempre me intrigou, pois a desgraçada ditadura militar, que um bando de imbecis quer de volta, foi tema de dois livros meus - Maria Erótica e A morte do Grilo - e eu pesquisei muito sobre o assunto. Em 1975, Simonal gravou um samba carnavalesco em que praticamente pedia reconciliação e uma chance para retomar sua carreira. Era o belo “A vida é só para cantar”, versão de um sucesso estrangeiro. Era tarde demais.

Quando esse assunto vem à tona, o racismo escancarado da mídia, principalmente, contra Simonal é amenizado ou ignorado. Ele foi um mau crioulo que rompeu as regras de convenção racial velada e hipócrita que se esconde na nossa fama hoje desmascarada de povo tolerante. E nessa luta desigual contra o preconceito, ao que consta, ele sempre esteve sozinho. Simonal foi o único exilado da ditadura dentro do seu próprio país, como diz o documentário sobre ele. E morreu sem alforria. Triste isso.



Escrito por goncalo.junior às 19h33
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