Gonçalo Junior
   
Histórico
Outros sites
UOL - O melhor conteúdo
BOL - E-mail grátis

Votação
Dê uma nota para meu blog

 


 

VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 2

A música preferida de meu pai era Doce de Coco, a obra-prima de Jacob do Bandolim. Aliás, ele era alucinado por Jacob e por Altamiro Carrilho, dois gênios do choro. Tinha todos os discos deles desde a década de 1950 e passou a vida a dizer que seria a herança a ser deixada por ele para mim - a imensa pilha continua no seu guarda-roupa, não tive coragem ainda ver. Alguns desses discos de Altamiro, na versão CD, estão autografados, a meu pedido, pois o entrevistei algumas vezes, em shows que ele fez em Salvador na décvada de 1980. Sobre Jacob, Seu Gonçalo contava que ele tinha morrido muito cedo, de enfarto – aos 51 anos, em 1969. Falava de seu perfeccionismo, que o levava a quase enlouquecer seus músicos, do talento como compositor. Lembrava ainda que tinha um cartório e uma filha dentista.

O dia sagrado do meu pai era o domingo. E para todos nós também. Era o momento de ficar com a família, de ouvir música, de comer o tradicional franguinho ensopado ao meio-dia em ponto – às vezes, ao molho pardo ou à cabidela, como se diz em algumas regiões do país,  misturado com macarrão. Bom demais. Às 8h em ponto, os quatro filhos, bem arrumados, deveriam estar sentados a seu lado no banco da Igreja Matriz, separada de nossa apenas por uma praça. Na volta, enquanto minha mãe preparava o frango, que ela mesma matava, com impressionante destreza e frieza, meu pai se punha a ouvir música e a tomar sua cachacinha, principalmente as que "importava" das cidades de Sebastião Laranjeira ou de Januária (MG), onde se produzia as melhores do Brasil, na sua opinião.

Cada vez mais, esse hábito o levaria ao alcoolismo e à diabetes. Mas ele não era um bêbado chato. Ao contrário, tornava-se mais carinhoso, menos durão, mais atencioso. E liberava uns trocados para irmos ao cinema, o Cine Sorbone, cujo fundos víamos da frente de nossa casa. Tanto que ninguém além da nossa porta sabia ou percebia que ele gostava de beber – dizia que o álcool o ajudava a suportar o trabalho extenuante, a burocracia mecânica que tinha que se submeter. E, assim, o domingo corria com variantes de temas musicais. Isso acontecia porque, para cada época do ano, ele tinha um repertório irretocável de marchas e sambas. Se era época de Carnaval, Lamartine Babo reinava absoluto em nossos ouvidos com clássicos como Lourinha, Linda Morena e O teu cabelo não nega – esse clássico racista, sucesso estrondoso em uma época que o racismo não estava na pauta.

No Carnaval, a música que ele mais gostava era a marcha A Jardineira, na voz inconfundível de Orlando Silva, gravada em 1938. Deste, sempre falava que depois que a mãe do cantor morreu, jamais conseguiu cantar Rosa (Pinxinguinha e Otávio de Souza), por ser sua música preferida. Orlando perdia a voz, com a garganta engasgada pelo choro. Quando vinha o São João, apareciam os discos de Luiz Gonzaga, que ele também venerava. Havia ainda as marchinhas juninas cantadas por Carmen Miranda, Mário Reis, Aurora Miranda e Francisco Alves - Cai cai balão e Chegou a hora da fogueira eram imbatíveis. O Natal era tempo de depressão, de melancolia, de ouvir Boas Festas (aquele que diz "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel") e saber que seu autor, Assis Valente, tinha morrido em um banco de praça, no Rio de Janeiro, em 1958, depois de tomar veneno com guaraná. (Continua).



Escrito por goncalo.junior às 21h36
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]