Gonçalo Junior
  

  

 

VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 1

 

Em minha experiência como biógrafo de compositor – Assis Valente –, autor de dezenas de perfis e entrevistas com mestres musicais diversos (Dorival Caymmi, Valter Franco, Raul Seixas etc) e leitor de biografias da área, um detalhe em comum na vida desses artistas sempre chamou minha atenção: o fato de terem crescido em um ambiente musical. Ou seja, na sua infância ouvia-se muita música em casa. Mas, quantos como eu também tiveram os primeiros anos assim e não seguiram o caminho da música? Pelo menos de forma direta, pois, no meu caso, em toda a vida como jornalista profissional, escrevi sobre o tema, inclusive com resenhas de livros e discos.

Curioso que lá, na pequena cidade de Guanambi, onde passei a maior parte da infância, tocava-se de tudo em nossa casa. Discos. Toca-discos. Minha mãe amava Roberto Carlos e tinha uma quedinha pela música brega de Agnaldo Tomóteo e Carmen Silva. Quando brigava com meu pai, então, botava esses cantores no volume máximo e afundava o rosto no travesseiro. Chorava horrores, diante dos filhos impotentes para consolá-la. Meu irmão mais velho curtia Queen, Rod Stwart, Supertramp e coisas do gênero. Minha irmã, que veio antes de mim, ouvia Beatles e Janis Joplin – no seu quarto, descobri ainda os romances de Charles Bukowski, John Fante e Clarice Lispector. Foi ela quem moldou meu gosto musical e literário, sem dúvida. Afinal, era estudante de Filosofia e rebelde por natureza.

Mas foi meu pai a pessoa que realmente fez a minha cabeça musical, ao me apresentar velhos compositores, cantores e instrumentistas. A lista é imensa: Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Silvio Caldas, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, Mario Reis, Francisco Alves, Ademilde Fonseca, Ari Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, Chiquinha Gonzaga, Dorival Caymmi, Marilia Batista, Braguinha, Noel Rosa, Aracy de Almeida etc. Sobre todos, ele tinha na memória impressionante histórias maravilhosas dessas pessoas: algumas tristes, outras alegres, e muitas anedotadas.

Toda quinzena, ele me dava o dinheiro para ir à banca de seu Nunes - que parecia ter 110 anos e adulterava o preço de capa, pois só ele era jornaleiro na cidade - e comprar um fascículo da Nova História da Música Popular Brasileira, que a Editora Abril produzia e trazia de brinde um disco de vinil (LP), com uma seleção cuidadosa dos sucessos daquele compositor. Passávamos duas semanas lendo as biografias e ouvindo as músicas, até sair o próximo volume - foram 72 fascículos, se não me engano, lançados entre 1975 e 1978. Eu adorava tudo aquilo. Ouvia, aprendia, doutrinava-me e descobria a maravilha de nossos grandes mestres. (Continua)



Escrito por goncalo.junior às 23h33
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