Gonçalo Junior
   
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NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE E A SAUDADE DELE ESTÁ DOENDO EM MIM

Ontem, eu e meus três irmãos enterramos nosso pai. Foi e continua a ser um momento de dor pelo qual queremos adiar por toda a vida. Principalmente quando essa pessoa, além de pai, é o seu melhor amigo, alguém que jamais o decepcionou, nunca esteve ausente e viveu exclusivamente para os filhos. Alguém que ligava todos os dias para fazer a mesma pergunta: precisa de alguma coisa?

Em um momento assim, a princípio, somos tomados da certeza de que nunca mais veremos essa pessoa tão próxima, querida e especial. E é verdade. Tememos pela saudade e pelo fato de que somos frágeis e  delicados mortais. Mas hoje me vejo na certeza de que não é bem assim. E eu preciso lembrar aqui de uma historinha pessoal que me leva a isso.

Faz tempo, 39 anos atrás, eu era uma criança de oito  para  nove anos de idade quando, deitados no sofá, como  gostávamos de fazer, enquanto ouvíamos um disco de  Ernesto Nazareth – daquela coleção vendida em bancas de jornal –, meu pai disse, em tom melancólico, que só tinha seis meses de vida. Insisti para que ele me dissesse porque, mas se limitou a responder que era pressentimento. Não achei que fosse brincadeira. Criança costuma acreditar nessas coisas. E eu fiquei em pânico, com aquela informação exclusiva na cabeça.

Meu pai ia morrer. O que fazer? Espalhar o pânico lá em casa? De jeito nenhum. Guardei a má notícia só para mim. Contei os dias, as semanas e os meses. Até que chegou o tal dia da suposta partida. Bastava virar o relógio da meia-noite do 180º dia para ele falecer. Enquanto todos dormiam, fiquei em silêncio, sentado à porta do quarto onde ele e minha mãe dormiam. Esperei, esperei, esperei. Do seu quarto só ouvia o seu ronco. Até que adormeci.

Fui acordado na manhã seguinte por meu pai. Ele queria saber porque eu estava ali e não na minha cama. Desconversei, não falei que ele tinha sobrevivido aos seis meses de vida e voltei para o quarto, feliz. Era melhor esquecer o assunto, não mexer no que estava quieto. Se não morreu naquele dia, isso não se repetiria nunca mais. Ele viveria para sempre. E quase quatro décadas se passaram até que na madrugada de ontem, atendi o telefonema do hospital. Seu Gonçalo tinha acabado de falecer.

No momento em que seu corpo descia a sepultura, essa história me veio à mente. Eu estava errado. Ele de fato morreu. Não era eterno. Mas veio também uma outra certeza que a gente só aprende com a experiência da vida. A imortalidade existe, sim. Não da forma como se idealizada, como o Highlander do filme. A pessoa permanece para sempre, viva e presente na mente de quem a ama. É uma sensação estranha até que a gente se acostume.

 

Pode-se não falar dela todos os dias, mas as lembranças se tornam recorrentes. Descobri isso depois que meu avô morreu. No começo, creio, o sentimento era apenas de pura dor. Depois, transforma-se em uma espécie de energia positiva, de conforto, de força para seguirmos em frente. Desse modo, nunca estaremos só. Meu pai, tenho certeza, é, sim, imortal. E ele viverá para sempre na minha mente e no meu coração. Como a eternidade que será minha vida para alguém que me ama, um dia.



Escrito por goncalo.junior às 18h19
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