Gonçalo Junior
   
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O PRIMEIRO BULLYING NÃO DÁ PARA ESQUECER

 

Sempre que se fala em bullying – e é importante que isso aconteça –, volto às lembranças de infância para recordar meu primeiro problema nesse assunto. E veio, pásmem, de uma professora. Eu tinha cinco anos de idade, quando fui levado para a escolinha de Dona Lurdes, onde deveria ser alfabetizado pela famosa Professora Dolores, a mesma que tinha ensinado a ler e a escrever meu irmão e minha irmã mais velhos. Dolores devia ter seus 30 anos. Era uma mulher severa, autoritária, auxiliada por duas professoras mais novas e mais simpáticas, cujos nomes não me lembro. Dolores parecia um capitão do exército supervisiosando a tropa. Ensinava pelo terror. Infelizmente, não tenho uma única lembrança agradável dela.

No primeiro dia de aula, colocou-nos em pequenas mesas, onde cabiam quatro crianças em cada uma. Eu imaginava a escola algo muito bom, divertido. Adorava desenhar. Não via a hora de ter minha caixa de lápis de cor com 24 unidades, meu caderno novinho, lápis, régua, canetinha hidrocor, tudo que eu tinha direito. Inclusive uma merendeira de plástico, com suco e algum lanche que minha mãe prepararia. Meus irmãos adoravam aquilo e eu achei que seria realmente muito bom. Lembro que nessa época as rádios tocavam muito a música de Roberto Carlos Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Coube a Beto, um adolescente filho de um colega do meu pai, a missão de me levar à escola nas duas semanas. Seus pais estavam viajando e ele ficou hospedado lá em casa por um bom tempo. Beto ouvia muito o compacto da música de Roberto. Tinha um cabelo grande e cacheado, como dizia a música.

Desde a primeira aula, Tia Dolores - como exigia que fosse chamada pelos alunos - voltou sua atenção para mim. Por um motivo que lhe parecia sério e grave: eu era canhoto. Durante uma semana, manteve marcação cerrada, queria que eu usasse a mão direita. Com cara de poucos amigos, começou a ser ríspida e a segurar minha mão com força, agressiva. Eu deveria segurar tudo com a direita e o pânico tomava conta de mim. Como não estava dando certo, ela procurou minha mãe e deu o alarme: se eu não passasse a escrever “corretamente”, com a mão direita, eu nunca seria alguém na vida. Não seria um "doutor". O que fazer?, perguntou minha mãe. Ela determinou que eu fosse vigiado na hora das refeições, principalmente. Deveria pegar o garfo e servir comida com a mão direita.

Deu certo, virei destro. Mas até o ano acabar, eu travei, vivi o pânico, o terror de Tia Dolores. Tinha diarreia quase todo o dia, sentia-me mal, tentava não ir à escola. Não sei como passei de ano, pois aprendi a escrever, mas não sabia ler. Sim, é possível. Tanto que isso só aconteceu no primeiro ano do primário. Em parte, na verdade. Foi como se eu nunca tivesse frequentado a escola antes. Sabia apenas desenhar as letras, não conseguia formar as palavras. Mesmo assim, passei para o segundo ano, onde cai nas garras da professora Selma, uma solteirona e nossa vizinha que odiava todos os meninos da vizinhança e se vingava delas me colocando todo dia diante do quadro para resolver questões matemáticas que eu não conseguia e desandava a chorar. Humilhação diária, total. Risos dos colegas, chacotas. Eu era o burro da sala. Por anos, fui alvo de piadas de ex-colegas.

Fui rebaixado para o primeiro ano. Eu odiava escola, tinha pavor das professoras. Todas se pareciam com Tia Dolores, que depois eu identificaria com a figura de um oficial nazista, desses que a gente vê no cinema. De volta ao primeiro ano, humilhado, derrotado, morrendo de vergonha, deparei-me com uma jovem negra chamada Vera. Alta, braços largos, acolheu-me com um sorriso imenso desde o primeiro dia, cercou-me de carinho e respeito, ensinou-me tudo e até o fim do ano tornei-me o melhor aluno da turma. Eu escrevia bem e tirei as maiores notas. Era um outro aluno. E com a mão direita. De lá para cá, jogaria bola com a perna esquerda e fazia tudo com a mão esquerda também. Além disso, meu olho principal sempre foi o esquerdo.

A mudança que Vera promoveu em minha existência aconteceu em 1974. Em 2001, quando fui a Salvador lançar meu primeiro livro, País da TV, minha mãe me fez uma grande surpresa. Perguntou-me se eu me lembrava da professora Vera. Eu disse que sim. De coração, era a minha primeira mestra, disse a ela. “Eu a reencotrei no salão (de beleza) e a convidei para seu lançamento. Ela disse que vai”. Não só foi como me mandou um telegrama fonado, cheia de orgulho. Eu nunca mais a tinha visto. Vinte e sete anos tinham se passado. Vera agora era menor que eu e disse se lembrar bem de mim. Eu lhe disse que talvez a memória dela fosse vaga porque ela tivera muitos alunos. Mas, para mim, suas lembranças estavam bem vivas. Tudo que eu sabia devia a ela. E lhe dei um longo abraço. Da primeira professora a gente nunca esquece. Seu nome: Vera. O resto foi tropeço de infância.



Escrito por goncalo.junior às 21h50
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