Gonçalo Junior
  

SIM, NÓS AINDA ESTAMOS AQUI. OU UMA DICA PARA LER UM BOM LIVRO

Marcelo Rubens Paiva ficou conhecido na década de 1980 por ter relatado no livro Feliz Ano Velho a dura experiência de ficar paraplégico após um mergulho enquanto se divertia com amigos. Virou escritor, escritor famoso. Escritor teimoso. Escreveu seguidos romances, mas a crítica sempre lhe torceu o nariz. Por causa do seu estilo coloquial, descompromissado com a erudição que costuma consagrar autores, foi chamado de semi-analfabeto, como ele mesmo diz. Mas seguiu em frente e virou colunista do Estado de S. Paulo, além de premiado autor de teatro – vi uma peça dele e gostei muito, embora não me recorde o nome.

Há um outro fato traumático que também o tornou conhecido em todo Brasil: em 20 de janeiro de 1971, seu pai foi arrancado de casa, diante dos cinco filhos pequenos e da esposa, Eunice, para sessões de tortura que o levaram a morte pelas forças de repressão da ditadura militar. Seu corpo jamais foi encontrado. Marcelo chega a falar disso no seu mais famoso livro. Mas revê tudo e passa a vida a limpo em um volume de memórias que acaba de sair: Ainda estou aqui. É um relato arrancado do fundo da alma, doloroso, de uma sinceridade impressionante – quando fala da mãe, por exemplo, mulher de luta que não se curvou diante das adiversidades da vida – sobre aqueles tempos difíceis. Não há pieguice em sua narrativa, é preciso ressaltar.

O relato é carregado de emoção e, pelo modo como ele tratou do tema, lavou-me a alma. Numa época em que fazer revisões da própria vida e de suas posições políticas quase sempre tem levado muitos famosos - cantores, atores, escritores, jornalistas, políticos e cidadãos comuns - a posturas que misturam neofascismo com neozarismo, preconceitos e bastante intolerância, tão bem caracterizados nos desfiles – eu disse desfiles, não manifestações – verde-amarelo da Avenida Paulista, Marcelo vai na contramão. Aos 55 anos, honra o nome do pai, a dignidade da mãe e mantém a sua postura de sujeito indignado, decente, coerente, inconformado, ma ser chato ou rancoroso.

Certa vez, um mês antes de morrer em uma acidente de carro numa madrugada paulistana, aos 77 anos, em 1999, perguntei a Dias Gomes porque ele, naquela idade, não tinha feito como a maioria das pessoas depois dos 30 ou 40 anos e abandonado a sua capacidade de se indignar com as coisas, de continuar a sonhar com valores como justiça social e liberdade. Em sua sabedoria, disse apenas que a vida não teria sentido para ele de outra forma. Marcelo segue esse caminho com um grande livro, para fazer pensar e resgatar valores hoje pisoteados na ala fascista de nossa imprensa escrita ou televisiva.

Por isso, tomei a liberdade de reproduzir alguns trechos aqui:

Ao falar sobre a casa onde a família morou e seu pai foi sequestrado, Macelo lembrou que o sobrado tinha virado um restaurante. “Cheguei a visitá-la. Comecei a subir para o segundo andar. Um garçom me barrou. Expliquei que eu morara ali anos antes e queria rever a casa. Ele deixou. Sozinho, circulei pelos quartos. O meu se transformara em um depósito de garrafas. Tudo estava igual, o piso, as treliças das janelas, as mesmas portas e fechaduras. Tinha ainda o calor da minha família. Tinha ainda o calor do meu pai. Eu tinha vontade de contar para todos como fui feliz naquela casa".

Noutra passagem, um momento de grande emoção, ao falar da luta da mãe para superar a vida de dona de casa até os 41 anos, fazer faculdade, trabalhar e sustentar os filhos. “De dia, ia para a rua XV de novembro, sede da firma. Em casa, no quarto, trancada no escuro, chorava todas as noites, chorava sozinha, sem que nos déssemos conta. Não queria que percebêssemos, mas que tivéssemos uma infância e adolescência sem âncoras na alma, que tocássemos a vida, os estudos, que tivéssemos amigos, namoradas. Não repartiu sua dor com ninguém. Não sei julgar se estava certa ou errada. Era seu jeito de ser”.

A passagem que mais me tocou, no entanto, foi essa: “Em 1981, teve que vender um pequeno apartamento do meu avô Facciolla, em São Vicente. Precisava da assinatura do meu pai. Relatou o ‘problema peculiar’ ao juiz da Vara de Família, Marcos Martins, pedindo uma outorga judicial, ou seja, o direito de fazer a transação imobiliária sozinha. O juiz não apenas concedeu, como escreveu à Procuradoria da Justiça do Rio de Janeiro exigindo que um inquérito para apurar o desaparecimento de Rubens Paiva. Para ele, o relato de Eunice continha ‘veementes indícios de crime’ cometidos contra Paiva e sua família. Ela comemorou muito. Alguém estava do nosso lado. Foi o começo do reconhecimento. E da sua viuvez jurídica”.

Este talvez seja o melhor livro que escreveu em toda a vida.



Escrito por goncalo.junior às 15h04
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