Gonçalo Junior
  

E A VIDA, O QUE É, DIGA LÁ MEU IRMÃO...

 

Hoje meu velho pai completa 85 anos e desafia o tempo e a vida. Ainda sorri, brinca e fala palavrões desconcertantes. Não era assim, foi o Alzheimer que mudou esse comportamento nele. Homem íntegro, sério, respeitador. A doença é terrível, uma frase muito longa seu cérebro não consegue assimilar. Mas ele entende ainda algumas coisas que acontecem à sua volta.

No último feriado, passei três dias grudados nele, abraçamo-nos por tanto tempo como nunca fizera em toda a vida, se somarmos os momentos que fizemos isso. A distância entre pai e filho que ele nunca fez questão de manter não existe mais. Beijei sua testa, seu rosto, arrumei seu cabelo, brinquei com ele. Meu pai é uma criança de cinco anos. Quer brincar, mas não sabe exatamente como subir no beliche ou no armário.

Há alguns anos, fui impaciente com ele, sem perceber os primeiros sintomas da doença. Todos os dias, ligava-me para saber quando saia o livro sobre Assis Valente. Era esse o único assunto, o que dominava sua mente, suas preocupações. Estava ansioso. Eu respondia, mas resmungava com ele: o senhor me perguntou isso ontem.

Hoje, esses telefonemas diários me fazem uma tremenda falta. Ao longo deste ano, uma única vez o telefone tocou lá em casa vindo dele. A cuidadora perguntou por mim e disse que meu pai lhe pedira para ligar. Ele reclamou, disse que eu era enrolado, que não ia visitá-lo. No mês passado, negou-se a atender minhas ligações. “Esse sujeito não tem palavra, diz que vem e fica me enrolando”. Ou essa: “Fala que eu saí, não vou atender”.

Hoje, dei os parabéns para ele. Parece que entendeu que eu queria dizer o quanto esta terça, dia 27 de outubro de 2015, é importante para ele e para todos os seus filhos, irmãos e sobrinhos. Seu Gonçalo, um patriarca sem fazer esforço para isso, continua teimoso, ranzinza, costuma demitir suas cuidadoras. Quando isso acontece, a cabeça está melhor.

Ok, 85 anos é muito tempo. Ele já viveu bastante. Mas nós queremos mais, queremos ele aqui ainda por cinco ou dez anos, como um ponto de referência, como uma fonte de amor de um homem que viveu exclusivamente para os quatro filhos. Ele e minha mãe nesse sentido são parecidos. Duas fortalezas de força, esperança e de certeza de cumplicidade e amor. É tudo que preciso para seguir em frente.



Escrito por goncalo.junior às 12h37
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