Gonçalo Junior
  

Meu encontro com o lendário Gil Gomes, o maior repórter policial do rádio e TV de todos os tempos

 

Na década de 1970, ainda muito criança, eu passava férias inesquecíveis na fazenda dos meus avós, nos confins do sertão da Bahia. Era um casarão secular com uma gameleira na frente, que morreu há três anos, depois de 106 anos de vida. A árvore atingia, sem exagero, a altura de um prédio de cinco andares. Descobriu-se que suas raízes buscavam água a três quilômetros de distância do caule. Ficávamos lá nos meses de janeiro e fevereiro. Até começarem as aulas em março. Não podia ser diferente. Por causa das chuvas, precisávamos esperar até as águas baixarem, depois das chuvas do começo do ano, senão o carro atolava. Foi lá que o nome Gil Gomes passou a fazer parte do meu imaginário.

Por anos, pelas manhãs, eu e meus irmãos ficávamos grudados no rádio para ouvirmos as crônicas policiais de Gil Gomes, o maior repórter de rádio e TV que já existiu no Brasil – na década de 1990, ele migraria para a TV e se destacaria no programa Aqui Agora, do SBT. Diariamente, nos anos de 1970, acho que pela Rádio Record, ele escolhia um caso de morte por violência para dramatizar com sua voz alarmante, impactante, dramática, inconfundível. Gil não era do tipo que se limitava a usar como fonte o boletim de ocorrência das delegacias, como se chama o registro que o escrivão faz de um fato policial. Ele recuperava a história da vítima ou do criminoso e criava um relato humano cheio de suspense, carregado de efeitos sonoros, que alimentavam nossas mentes de ouvintes.

Tudo aquilo me impressionava muito e mostrava que o mundo era mesmo cheio de violência. E o tempo passou. Aliás, correu, voou. Nos últimos três anos, morador da cidade de São Paulo que sou desde 1997, andei atrás dele para entrevistá-lo. Queria que me desse um depoimento para a biografia do Bandido da Luz Vermelha que estou escrevendo. Nesta semana, finalmente consegui ser recebido por ele em seu acolhedor apartamento, no bairro de São Judas. Graças à querida amiga Elaine Bittencourt, da Rede Record, cheguei a seu telefone. Depois de três remarcações, ele topou me receber. Pediu-me mil desculpas, só podia falar pessoalmente. A explicação se faz necessária: há oito anos, Gil está afastado do rádio e da TV. Nesse período, ele se tornou refém do Mal de Parkinson, essa doença degenerativa que afeta o sistema motor. Apesar do quadro, sua memória continua intacta, perfeita. Pouco antes de ficar doente, perdera seu filho de 30 anos, vítima de hepatite C.

Não encontrei o repórter de voz apavorante, mas um senhor de voz dócil e com olhos de passarinho, como um velho chefe guerreiro indígena que está ali, sentado, para passar a todos seus conhecimentos e sabedoria. Assim é Gil Gomes. Não há energia ruim a seu redor. Pelo contrário. Essas foram as impressões assim que me recebeu, bem cedo, na quarta-feira, dia 23 de setembro. Conversamos por duas horas. Não falamos mais porque ele começou a demonstrar cansaço. Extremamente gentil, logo vi que estava diante de uma pessoa bem humorada, generosa, prestativa, atenciosa. Se considerar seu histórico de vida, sua popularidade em todo Brasil, a legião de milhões de fãs que acumulou em quatro décadas, espere-se encontrar alguém diferente. Mas Gil é desprovido de vaidade, de egocentrismo. Não resmunga, não mostra amargura, não reclama da vida que leva, da distância do rádio e da TV.

E, assim, tivemos um papo maravilhoso. Ouvi confissões que jamais vieram a público, creio. Do próprio bolso, por exemplo, ele comprou e distribuiu mais de mil cadeiras de rodas para deficientes físicos pobres e pagou faculdade para os filhos de 27 “bandidos”, como ele mesmo diz. Gil agia como pai, amparado que filho de bandido não é bandido. Todos se tornaram advogados, sem exceção, e ele foi à formatura da maioria. Depois que caiu doente, nenhum deles apareceu para visitá-lo. Mas não reclama disso. Essa ingratidão não parece afetá-lo. Sereno, continua a falar de modo bem articulado e, repito, com uma memória de elefante.

Gil contou que ajudou a polícia a solucionar perto de 700 assassinatos na Grande São Paulo. E de um modo nada convencional. Ele era tão respeitado pelos ouvintes e telespectadores que as pessoas lhe entregavam bilhetinhos ou ligavam para informar o nome do assassino. Muitos foram passados em apertos de mão. Ele encaminhava a informação ao delegado, que investigaria a veracidade da dica. Parte dessa reputação se deve à respeitabilidade que alcançou em todas as frentes por onde atuou: entre os policiais, os bandidos e a população. Gil se equilibrava na corda bamba da ética e da moral e sobreviveu intacto, até ser forçado a parar de trabalhar por problemas de saúde.

O único momento em que perdeu a tranquilidade e se mostrou indignado foi quando falou sobre o massacre do Presídio do Carandiru, em 1º de outubro de 1992. Era dia de eleição, ele chegou cedo ao necrotério porque a Polícia havia informado que uma rebelião no mais famoso presídio brasileiro havia resultado em oito mortos. Ele foi checar no IML de Pinheiros. Trabalhava no SBT e teve sua entrada barrada no local por um PM, que negou qualquer explicação para justificar o que acabara de fazer. Gil não entendeu e ficou desnorteado, era a primeira vez que acontecia aquilo em mais de 25 anos de profissão. Mas não desistiu. Enquanto tomava café em um boteco próximo e pensava no que fazer, viu um funcionário do IML chegar reclamando que nunca trabalhara tanto e com tantos corpos e sequer tinham lhe servido um lanche. E contou a Gil que o lugar estava abarrotado de cadáveres.

O repórter partiu determinado para a entrada dos fundos do necrotério. Um policial tentou impedí-lo e ele soltou um "Vai tomar no cu" sonoro e seguiu em frente, apressado. O sujeito foi atrás e tentou barrá-lo novamente. E ele repetiu a frase com mais ênfase ainds. Atordoado, o policial nada fez e ficou estático. Ao entrar, o repórter ficou chocado. Desde aquela época, a cena que suas retinas capturaram o persegue. Ele já refez dezenas de vezes um cálculo aproximado da área e das pilhas de corpos. "Não foram 111 mortos. Passou fácil dos 300 cadáveres". Gil espera o dia em que um repórter investigue de fato essa história e revele o verdadeiro número daquela que foi a mais aterrorizante imagem de toda a sua vida. Quando saiu do necrotério, dentro da viatura do SBT, ele mostrou seu estado de choque. Como a Globo monitorava o rádio do SBT e vice-versa, sua indignação fez o massacre ganhar contornos e cair na imprensa.  "Nunca gostei de bandido, mas o que fizeram foi de uma covardia sem tamanho".

A maior parte da conversa, claro, foi sobre Luz Vermelha, que Gil conheceu tão bem. Ele faz uma revelação que ouviu do próprio bandido. Um furo. É o presente que me dá, como bom anfitrião. Tudo que ele disse bate com o que apurei. Não há porque não acreditar. Conversamos mais um pouco. Gil estava bem. Se eu tivesse uma emissora de rádio, eu o contrataria para fazer um programa duas vezes por semana. Ele relembraria os grandes casos que cobriu. Com um pouco de paciência, isso é prfeitamente possível. Tenho convicção disso. Ao final, diz: “Não tenho dado entrevistas, acho que recebi você porque gostei do modo como me procurou, confiei em sua voz, pareceu-me honesta”.  Foi a coisa mais gratificante que ouvi em duas décadas de jornalismo.



Escrito por goncalo.junior às 23h01
[] [envie esta mensagem] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
HISTÓRICO



OUTROS SITES
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!