ANTES QUE ME ACUSEM DE PLÁGIO

No dia 7 de dezembro de 2007, o Blog dos Quadrinhos, do jornalista Paulo Ramos, noticiou, sob o título “O terror está de volta aos quadrinhos. E em 2008 tem mais”, que eu e Leônidas Greco pretendíamos lançar em breve a história em quadrinhos "A Cabeça da Noiva", com 140 páginas. “A trama transforma cangaceiros em zumbis”, resumiu Ramos. Ele citava a introdução da trama: "Diz a lenda que você só extermina um cangaceiro se decaptar a cabeça". E prosseguia com uma descrição que lhe fora feita por Leônidas: "Depois de uma batalha em que dezenas de cangaceiros são mortos, três soldados são encarregados de decaptá-los, mas cometem um erro: não viram o corpo do chefe, que permaneceu com a cabeça." O próprio blogueiro continuou: “O cangaceiro-chefe volta à vida na forma de zumbi e sai à caça das cabeças cortadas”. Mais uma vez, Lênidas: "Isso é feito, mas falta a da noiva do chefe, que fora levada antecipadamente para o comando da polícia como prova da missão cumprida". O resultado é uma guerra entre a polícia e os zumbis cangaceiros. Ramos observou ainda que nós havíamos feito uma prévia em vídeo, disponível em duas versões no youtube desde 21 de novembro de 2007, com 403 visualizações numa delas até a noite de hoje, 9 de fevereiro de 2010. (http://www.youtube.com/watch?v=Yfnez3jPX68) Relembro tudo isso preocupado em me antecipar a um fato que parece-me inevitável: quando essa HQ for publicada, talvez escrevam ou digam ou apontem algumas semelhanças com o premiadíssimo álbum “Bando de Dois”, de Danilo Beiruth, publicado no final do ano passado pela Zarabatana. E, quem sabe, digam que chupei essa belíssima graphic novel. Ambas as histórias trazem cangaceiros como protagonistas. Ambas falam da busca por cabeças cortadas para que cangaceiros mortos encontrem seu descanso eterno. Nas duas histórias, as cabeças são levadas para a cidade num carro de boi. Não quero com isso tirar qualquer mérito do elogiado álbum, que gostei muito. Mas sinto a necessidade de deixar esse registro aqui. Não deixa de ser curiosa outra coincidência. A abertura com páginas mudas de “Bando de Dois” traz um cangaceiro se arrastando pelo calor insuportável da caatinga, quando ele tem a visão do seu chefe, acompanhado de outros comparsas, que lhe pedem para recuperar suas cabeças. No meu álbum “Claustrofobia”, em parceria com o mestre Julio Shimamoto e publicado pela Devir em dezembro de 2004, há uma HQ de cangaceiros que começa mais ou menos assim: um sertanejo se arrasta com a mulher no calor insuportável do sertão, em busca de água. Ela morre e ele prossegue. Até que encontra um cangaceiro morto e tem uma alucinação, na qual ele passar a fazer parte de um bando de cangaceiros. Repito, ao que me parece, tudo não passa de meras coincidências. E antecipo aqui a minha humilde defesa.  
Escrito por goncalo.junior às 21h05
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O primeiro passo para entrar no mundo de Proust

Adaptar literatura para os quadrinhos é algo que se faz há muito tempo. Desde os anos de 1930, para ser preciso. Na década de 1950, para acalmar os educadores que acusavam os gibis de causarem preguiça mental nas crianças, o editor Adolfo Aizen (1907-1991) criou a coleção "Edição Maravilhosa", que circulou entre 1948 e 1961 e teve 201 títulos com versões dos quadrinhos de clássicos universais e brasileiros. Desde então, muitas dessas tentativas têm se revelado mal sucedidas, tamanha a dificuldade de se encontrar um formato adequado que preserve a essência do texto original.
Nenhum autor, porém, se dispôs a um desafio tão gigantesco nesse segmento quando o francês Stéphane Heuet, com uma bem sucedida carreira diretor de arte em agências de publicidade. Ele se dispôs a, solitariamente, até o ano de 2019, transpor para a linguagem dos gibis os sete romances de "Em busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust - marco na literatura mundial e um clássico. Heuet não demorou para conseguir o aval das mais importantes instituições francesas especialistas em Proust. Quando o primeiro volume saiu, a receptividade do conceituado jornal "Le Monde" não podia ser melhor: "Longe de ser uma traição, é uma notável introdução à leitura de Proust".
Sem dúvida de que assim deve ser visto o trabalho do artista. Em qualquer versão quadrinizada de obras da literatura, como pregava Aizen, o leitor deve ter sempre em mente que a encenação gráfica - chamemos assim - não deve bastar para encerrar sua relação com o texto original. Pelo contrário, recomenda-se ser tratado como aperitivo antes de um banquete. Uma compreensão que deve ter o leitor brasileiro que está acompanhando a publicação da série pela Zahar, com tradução de André Telles.
O quinto volume em português acaba de chegar às livrarias pela Zahar (48 pags, R$ 39,90). Até o momento, Heuet está apenas no segundo livro da obra original. Neste "Um amor de Swann - II", ele mostra como cada vez mais o ciúme prende o protagonista aos caprichos da mulher amada e cobiçada. Swann irá sucumbir ou o tempo lhe dará forças para se libertar e voltar à tona?
O maior mérito do louvável trabalho de Heuet é tentar ser fiel ao texto de Proust, reproduzindo fragmentos mais importantes do texto original. Ele faz isso, porém, sem excesso de compilação, ao mesmo tempo em que faz uso bem dosado das imagens. Nesse quesito, aliás, ele tem um traço clássico da escola francesa, que remete a mestres como Hergé (Tintin), num traço sedutor que torna a leitura mais atraente e divertida. Até mesmo quando o assunto se chama Proust. 
Escrito por goncalo.junior às 21h18
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A CONFUSÃO E O FRACASSO DE VENDAS DE QUADRINHOS SUJOS 2

O mercado editorial brasileiro chega a ser engraçado pelas coisas curiosas ou esquisitas que acontecem. Às vezes, faz-se tudo cuidadosamente planejado, mas a coisa simplesmente dá errado. A recém-lançada caixa QUADRINHOS SUJOS 2, que a Peixe Grande mandou para as livraria em outubro, é um bom exemplo disso. Vejamos: Em 2005, eu organizei para a Ópera Graphica, a caixa com quatro livretos que chamei de QUADRINHOS SUJOS - TIJUANA BIBLES. Cada livrinho tinha cerca de 100 páginas e trazia sárifas pornográficas produzidas nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940. Eram histórias curtas que sacaneavam os próprios personagens dos quadrinhos, além de celebridades do rádio e do cinema e políticos. Organizá-los só possível porque por acaso comprei pela Internet de um colecionador americano nada menos que 250 revistinhas em fac-simile - bem impressas e em excelente estado de conservação. Foi um estrondoso sucesso. Em 40 dias, nada menos que DUAS MIL caixinhas foram vendidas. Lembro-me bem que um dia, na véspera do Natal daquele ano, um garota comprou nove na Comix. Não resisti e perguntei porque fazia aquilo. Ela disse que seria o presente de todos os seus amigos mais queridos. Lançar uma segunda caixa foi logo planejada e seu êxito dado como certo. Havia sobrado uma quantidade grande de livrinhos inéditos. Fácil. Dessa vez, priorizei as sátiras a Hollywood (atores, atrizes, desenhos animados etc). Escaneei tudo. Mas uma mudança na linha editorial da Ópera Graphica fez cancelar o projeto, já que qualquer coisa ligada a sexo estava descartado. Com o surgimento da Peixe Grande, em 2010, resgatei o projeto com Toninho Mendes. Pensamos em reeditar a primeira, mas optamos por fazer uma similar com material brasileiro - os discípulos de Carlos Zéfiro. E saiu QUADRINHOS SACANAS, em maio. Teve grande repercussão na mídia e logo as mil primeiras caixinhas foram vendidas. Optamos por segurar por um tempo a caixa dos QUADRINHOS SUJOS 2, que foi impressa ao mesmo tempo que QUADRINHOS SACANAS. Antes, lançaríamos MARIA ERÓTICA E O CLAMOR DO SEXO (ou Guerra dos Gibis 2), de minha autoria, que saiu em agosto. Tudo isso para não sobrecarregar o esquema de divulgação. Foi então que percebemos que não havia mais espaço para QUADRINHOS SUJOS 2 na imprensa. Afinal, muito já tinha sido dito dos dois lançamentos anteriores - que também tratavam de sexo. Mas a confirmação disso veio de uma forma completamente inesperada: muitos dos jornalistas que se dispuseram a falar da caixa fizeram uma grande confusão e trataram o lançamento como o volume 2 dos QUADRINHOS SACANAS. De nada adiantou explicarmos que se tratava de material americano antigo e era a continuação da caixinha de 2005, da Ópera Graphica. Muitos dos 2 mil compradores da primeira caixa não sabem dessa nova edição. Resultado: um retumbante e inesperado fracasso de vendas. Das mais de mil caixinhas impressas pouquíssimas foram adquiridas até o momento. E a chegada do QUADRINHOS SACANAS 2 no fim do ano só piorou. Se não bastasse, vários compradores de livrarias se recusaram a pegar os SUJOS 2 por pura confusão. Bom, que aqui me lê e conhece alguém que tem a primeira caixa, por gentileza, dê um toque, ok? 

Escrito por goncalo.junior às 21h16
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SUGESTÕES DE FILMES INDEPENDENTES PARA VER

Como prometido, sugiro a seguir alguns filmes independentes que gosto muito e que foram lançados em DVD no Brasil. Escolhi 35, reduzi para 15 e cheguei a dez. São todos desta década que termina. Faço um comentário breve de cada: 1 – A Hora da Vingança – Direção de Scott Thomas. Daylights Filmes. Impressionante, passa quase inteiramente dentro de uma casa. O título é clichê, mas o roteiro e os diálogos são muito bons: conta a história de um sujeito que quer vigar a morte da mulher e se transforma em inquilino do suposto assassino. 2 – Napoleão Dinamite – Direção de Jared Hesse. Fox Filmes. É o tipo de filme que você adora ou odeia. Eu o definiria como uma comédia sensível e inteligente. O personagem principal é um estudante meio retardado e ignorado por todos os habitantes da pequena Preston, em Idaho. Com a ajuda de um novo amigo, ele vira um herói. 3 – Buena Vista Delivery – Direção de Leonardo Di Cesare. Europa Filmes. É argentino. Explora a crise econômica no país com uma situação absurda e perfeitamente real, meio kafkiana. Hernán tem um precário emprego como motoboy e vê sua vida se transformar num inferno ao levar uma bela frentista para morar em sua casa.
4 – Amor pra Cachorro – Direção de Mike White. Um belo retrato da solidão urbana nas grandes cidades nesta década. Engraçadíssimo, sensível e tocante. Como diz a sinopse oficial, trata-se de uma charmosa e original comédia sobre a busca do amor, protagonizada por uma solteirona que vive sozinha com seu cachorro.
5 – A Cúmplice – Direção de Aelrun Goette. Daylights Filmes. Filme alemão baseado em fatos reais, na linha o que uma mãe faria para proteger o filho? Suspense sensacional. A vida de Jenny parece perfeita até ela achar o filho de sete anos chorando no porão de sua casa, logo após regressar de uma festa na casa da amiga Sandra, que ele acabara de assassinar no parque. 6 – Eu, Você e Todos Nós – Direção de Miranda July. Videofilmes. Premiadíssimo, foi bem visto no Brasil. Miranda sabe como ninguém criar personagens cativantes. Filmaço, filmaço. A trama é ambientanda num subúrbio de Los Angeles e conta a história de Richard, um vendedor de calçados que vive a separação no casamento e se vê às voltas com a criação dos filhos. 7 – Pátria Proibida – Direção de Christopher Quinn. Imagem Filmes. Chocante, daqueles que você não esquece nunca e passa a acreditar que o mundo tem jeito. Documentário produzido por Bradd Pitt e Nicole Kidman. Conta a história de John, Daniel e Panter, que vão para a América depois de escaparem de carnificina no Sudão. 8 – Paixão suicida – Direção de Goran Dukic. Fox Filmes. Se você quer ver uma comédia única e genial, que arrebatou dezenas de prêmios, veja este. O tema: para onde vão as pessoas que se mataram? Para um mundo de trabalhos servis, transporte ruim, bares sujos e velhas jukeboxes, o que leva os personagens a refletirem sobre a vida e a morte. 9 – Más Companhias – Direção de Arie Posin – Flashstar Filmes. Um exemplo de que filmes sobre adolescentes não devem ser imbecis ou de terror para agradar. SINOPSE: Dean, um adolescente rebelde e alienado, descobre que seu único e melhor amigo Troy, se suicidou. Prefere não contar nada para a mãe do amigo e tudo vira absurdo.
10 – O Último Filme de Terror. Direção de Julian Richards. Daylights Filmes. O mais radical, insano e mais terrível trama de terror que já vi. Difícil vai ser você conseguir ver até o fim. Resumo: um asassino em série usa um vídeo caseiro de horror para escolher sua próxima vítima. O que começa como uma brincadeira, se transforma em assassinatos.
Escrito por goncalo.junior às 09h03
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COMO ACHAR FILMES INDEPENDENTES EM DVD

Gosto muito de cinema. Tanto quanto ou mais que histórias em quadrinhos. Sou viciado em cinema dito independente, desses feitos longe dos grandes estúdios e produtoras, onde costumo encontrar as coisas mais interessantes que se faz na atualidade - aliás, esse tipo de produção sempre abriu caminhos para a grande indústria nos últimos 70 anos, pelo menos. Claro que não é fácil encontrar DVDs desse segmento no Brasil. Mas eles existem em quantidade que você nem imagina. E quase sempre por preços mais em conta. Para quem não mora em São Paulo, a dica é procurá-los na loja virtual www.dvdworld.com.br. Eu costumo usar alguns macetes para caçar esses filmes: Em primeiro lugar, alguns distribuidoras são especialistas em cinema independente: California, Imagem, FlashStar, Casablanca, Daylights e Imovision. Também se encontra algumas coisas legais da Paris Filmes. Portanto, fique de olho nessas marcas quando for comprar ou alugar DVDs. A dica número dois é olhar na capa ou na contracapa para ser ver encontra aqueles "louros" romanos que indicam premiações. Se o filme fez parte da seleção oficial de Sundance ou levou algum prêmio do mesmo festival, a chance de ser um bom divertimento é imensa. Outros eventos cujos premiados merecem atenção: Toronto, Nova York, Los Angeles, Goya, Berlim etc. Eu, particulamente, fujo quando tem prêmio de algum festival brasileiro, pois sempre me decepcionei, com raras exceções. O ponto três é o país de origem do filme - o que não é algo fundamental, mas pode fazer a diferença. Os australianos são fantásticos no quesito comédia. De lá vieram muita coisa boa nos últimos 30 anos. Os ingleses também. Hong-Kong e China têm rendido ótimos diretores, como Wong Kar-Wai. Os argentinos, então, podem não nos superar em futebol, mas nos bate em 1000 a zero quando o assunto é cinema. A quarta dica: se familiarizar com os nomes dos diretores. O cinema independente americano e inglês, por exemplo, tem revelado diretores geniais, que merecem atenção: Todd Solodz, Julian Richards, Sean Ellis, Goran Dukic, Jane Weinstock, Jonathan Teplitzky, Frank Whaley, Pavel Pawlikowski e Miranda July. No próximo post, sugiro alguns filmes que merecem ser vistos, na minha opinião.
Escrito por goncalo.junior às 12h07
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PORQUE ZOO MERECE SER LIDO

No final do ano passado, conversava com Jorge, dono da Comix Book Shop e amigo querido, sobre os lançamentos do fim do ano e, como sempre faço, pedi a ele indicações sobre o que valeria a pena ler. Ele recomendou, de imediato, ZOO, álbum de estreia de Nestablo Ramos pela editora HQM. Confesso que nunca tinha ouvido falar no rapaz e seu traço me impressionou muito - misto de humorístico com super-herói clássico. E levei o livro para casa no mesmo instante. Tão logo terminei de lê-lo, Telio Navega, do blog Gibizada, pediu-me uma lista com os melhores lançamentos de 2009 na minha opinião e inclui ZOO sem pestanejar. Inclui na relação também "Có", de Gustavo Duarte, que havia saído meses antes e achava que tivera pouco atenção da mídia especializada em HQ. Só para situar ZOO, um resumo segundo o site da editora: Zoo Fashion Week é o mais famoso evento de moda do ano e o sonho de alcançar a glória para qualquer modelo profissional. Entretanto, uma modelo de sucesso descobre que toda sua vida nas passarelas foi construída às custas do sofrimento de seres humanos, usados como matéria-prima na fabricação das mesmas roupas que ela é muito bem paga para usar.
Ainda do mesmo resumo: Esta é a porta de entrada para uma intrincada história, ambientada em uma realidade distorcida, em que animais lucram com a exploração de seres humanos e as coisas nunca são o que parecem. ZOO é um universo onde os favorecidos agora são aqueles que um dia sofreram nas mãos humanas: os animais. Apresentado por Nestablo Ramos Neto, criador de "Carcereiros", esta visão alternativa da realidade critica a forma cruel que o homem trata a vida animal. Ainda em dezembro do ano passado, fiz uma série de elogios ao álbum no Twitter. Mas as críticas positivas que eu esperava acontecer não vieram. Houve, sim, um silêncio tumular. É natural esse tipo de reação, por se tratar de um quase iniciante, embora soube depois que Nestablo tinha uma sólida carreira como quadrinhista. Descobriria se tratar de um dos mais profissionais autores que temos. Além de produzir rápido sem perder a qualidade, é impressionante o espírito juvenil e entusiasmado desse rapaz que já passou dos 30 anos, se não me engano. Nestablo é de uma empolgação contagiante, emocionante. Agora, ele me presenteia com uma experiência curiosa: acompanhar a produção de ZOO 2, uma epopeia que ainda deve render mais algumas partes. A cada leva de páginas finalizadas, ele me manda tudo por e-mail. O propósito é que eu comece a preparar a apresentação, que me deu a honra de fazer. Não vou aqui adiantar nada da história, cujos comentários farei na introdução que vou escrever. Mas reproduzo com autorização dele duas páginas em primeira mão. Entre o primeiro álbum e esse segundo, o que me impressiona bastante é a riqueza de simbologias e significados que Nestablo consegue imprimir em sua narrativa aparentemente apenas satírica. Numa leitura rápida, o que se tem é uma fábula - afinal, se trata de animais falantes também, principalmente simios - sobre as mazelas do homem sobre o ambiente. ZOO não chega a ser uma novidade nesse sentido. Já escrevi e repito que dois autores já distantes foram muito felizes ao dar a mesma abordagem: Karel Capek, com "A Guerra das Salamandras" (um dos meus livros preferidos); Pierre Boulle, em seu "O Planeta dos Macacos", um dos maiores manifestos pacifistas da guerra fria e bem diferente dos filmes). Ainda na mistura entre humanos e macacos, citaria ainda "Símios", o delirante romance do genial escritor inglês Will Self. Nestablo brinca, tira sarro, faz chacota ao inverter o papel de dominação dos homens sobre os animais. E seu humor funciona bem porque ele faz uma espécie de caricatura dessas situações, o que torna mais evidente o contexto. Por outro lado, foge ao discurso fácil e objetivo dos quadrinhos para provocar reflexão - o que talvez faça com que isso passe desapercebido de alguns leitores. A impressão que me dá é que apesar de tudo parecer escancarado e direito, a trama é cuidadosamente planejada para ser um tipo de HQ de fina ironia e bom humor, feito com inteligência, para divertir e fazer pensar. Guardadas as suas especificidades, é o mesmo tipo de observação que faço em relação às obras de Crepax, Manara e Serpieri, muitas vezes reduzidas a meros trabalhos eróticos ou pornográficos. Para que torce o nariz e quer pagar para ver, recomendo esperar essa segunda parte. 
Escrito por goncalo.junior às 10h33
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O RARÍSSIMO FANZINE DO CAMISA DE VÊNUS

Eu tenho um passado longo ligado ao universo dos fanzines. Uma vivência intensa, aliás, pois publiquei dezenas de números de seis títulos diferentes, entre 1983 e 1991. Dentre outros, Quadrinhos Magazine e Balloon Quadrinhos. Um dia, quem sabe, contarei essa saga aqui, em partes. Os fanzines seriam teoricamente revistas de fãs. Pelo menos é assim nos Estados Unidos. O nome é a junção das palavras ingleas "fan" e "magazine". No Brasil, porém, ganhou caráter de impresa alternativa, de contestação, um veículo importante para promover jovens quadrinhistas, jornalistas iniciantes etc. A explosão dos zines na década de 1980 se deve à massificação da xerox ou fotocópia, que barateou a impressão consideravelmente. Sem esquecer que as máquinas copiadoras permitiam ampliar ou reduzir imagens. Uma maravilha e uma revolução tecnológica, uma vez que tudo era montado com tesoura e cola, na unha. Ninguém imaginava que um dia haveria programas de computador para ajudar a fazer isso sem sujar as mãos. E claro que guardei algumas pérolas curiosas em minha coleção. Como este fanzine que mostro a capa acima, "Delirium Tremens", feito por Marcelo Nova, líder e vocalista da banda de punk rock baiana Camisa de Vênus. Não sei precisar a data, mas deve ter sido entre 1981 e 1983. O preço de cem cruzeiros é um indicativo disso. Não há qualquer referência ao Camisa, nessa edição em formato A4 dobrado ao meio, com 36 págnas cheias de colagens e muita irreverêncua. O expediente trazia quatro editores: Marcelo Nova, Marli Nova, Miguel Cordeiro e Rosana Almeida. No editorial, uma lista com dezenas de nomes que NÃO teriam inspirado o zine. Os textos variavam de poemas e manifestos punks a homenagens aos ídolos do movimento, como a banda inglesa PIL. Esse exemplo é, sem dúvida, uUm deleite para fanzineiros e fãs da banda.
Escrito por goncalo.junior às 00h23
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AS OUTRAS CAPAS DA GUERRA DOS GIBIS

Amigos que me visitam e acabam se deparando com o mar de papelada em que tento não me afogar ficam surpresos com as tralhas curiosas que tenho em casa. Por exemplo, a primeiríssima capa do que viria a ser A Guerra dos Gibis, publicado pela Companhia das Letras, em 2004. Pouca gente sabe que levei oito anos para conseguir um editor e ainda esperei mais dois de produção para vê-lo nas livrarias. Nesse período, levei 27 nãos de editores de pelo menos quatro estados brasileiros. Sempre que mandava uma cópia, eu colava as 20 primeiras páginas levemente, de modo que, ao folhear ou tentar ler, o tal editor pudesse descolá-las. Todas, absolutamente todas que voltaram, tinham as páginas coladas. Ou seja, nenhum de fato tinha avaliado meu trabalho, o que me fazia não esmurecer e a continuar tentando. Essas cópias traziam sempre a mesma capa, esta que reproduzo acima. Desse modo, a ideia original era chamar o livro de A INCRÍVEL Guerra dos Gibis, numa brincadeira aos nomes dos super-heróis da Marvel, que sempre vinham adjetivados, como o "Espetacular Homem-Aranha", o "Incrível Hulk" etc. Se você olhar rápido, pensará que a capa abaixo é a mesma do livro que saiu. Não é. A Companhia das Letras chegou a preparar esta, mas, no final, optamos por tirar os nomes de Roberto Marinho e Adolfo Aizen da mesma por um motivo que não me lembro, mas que me convenceu na época. 
Para fechar: você acha que tenho alguma mágoa pelo livro ter demorado tanto para sair? Que nada, esses caras me fizeram um grande favor. Eu aprendi faz tempo que tudo tem a sua hora. É preciso apenas que continuemos a seguir em frente e a acreditar que tudo é possível. Para ser piegas, como diz o comercial da Globo, é bem mais fácil do que se imagina realizar um sonho.
Escrito por goncalo.junior às 00h07
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CONVERSAS INESPERADAS COM SARAMAGO, FERREIRA GULLART E MANARA
Crédito: Uol Entretenimento
No último post, falei dos meus contatos inesperados com Bob Dylan e FHC. Agora, mais três personagens. José Saramago - Três anos depois dele ganhar o Nobel de Literatura, em 1998, resolvi tentar entrevistá-lo para o caderno de cultura LEITURA DE FIM DE SEMANA, da Gazeta Mercantil, onde eu trabalhava. Lembro bem, foi no começo de dezembro de 2001, um dia antes de estourar a greve dos funcionários do jornal. Liguei para a editora dele no Brasil e nada feito. Não podiam me passar seu número. Localizei a editora portuguesa de Saramago, a Editorial Caminho, falei que era repórter do maior jornal de economia do Brasil e queria falar com ele. A moça só disse "Um momento" e me deu o telefone da casa dele, nas Ilhas Canárias. Pois não é que o próprio Saramago atendeu minha ligação? Pediu desculpas, disse que não podia falar naquele momento porque um carro o esperava para levá-lo a uma viagem - parece-me que faria uma palestra numa universidade americana. Disse que ligasse em quinze dias que conversaria comigo com prazer. A greve da Gazeta durou 33 dias. Era o começo do fim do jornal e eu nunca dei o telefonema de volta para a conversa que sempre quis ter com Saramago. Ferreira Goular - A data: maio de 2005, Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Sempre fui fanzaço dele. Como intelectual, poeta e pessoa. Uma figura símbolo para mim. Tinha lido poucos anos antes seu livro de memórias - No rabo do foguete, excelente - e conhecia parte de sua obra poética. Eu estava no Rio, fora fazer uma palestra a convite da Bienal do Livro sobre literatura infanto-juvenil (eu falaria sobre censura nos quadrinhos, por causa do Guerra dos Gibis), ao lado de Pedro Bandeira, Heloísa Perissê, Clara Averbruck e Mariana Veríssimo. No dia seguinte ao evento em que participei, um motorista deveria me levar ao aeroporto, mas houve confusão e ele partiu com o carro em direção à longínqua Bienal, em Jacarepaguá, para levar um convidado que faria palestra naquele dia. Só descobriria isso uma hora depois. Entrei no veículo e quem estava ao meu lado? Ferreira Goular. Imediatamente começamos a conversar. Passamos quase quatro horas presos num engarrafamento enlouqecedor por toda a cidade. Perdi o avião, mas tive uma das melhores prosas de minha vida. Com a humildade comum aos gênios, ele me disse que estava em dúvida sobre o que falar na palestra e começou a expor suas ideias e a aceitar minhas sugestões. Inesquecível. Ah, um lembrete: no retorno da minha palestra para o hotel, voltei com o ator Claudio Marzo, que pouco depois sofreria um derrame. Pareceu-me muito gentil, mesmo tendo que suportar por duas horas no trânsito o papo irritante de um sujeito em insistia em puxar seu saco. Milo Manara - Esse é recentíssimo. E o destino colocou Manara no meu caminho. Na verdade, uma pessoa que conhecia meu livro TENTAÇÃO À ITALIANA e botou na cabeça que eu deveria ser o mediador de Manara na conversa com os fãs em São Paulo, na Oficina Oswald de Andrade. Pedi várias vezes para colocar outra pessoa, mas ele insistiu. "Como vou deixar de fora alguém que dissecou toda a obra dele?" Argumentei que morreria de vergonha de ficar diante de uma plateia que só queria ver Manara. Não adiantou. Tive de ceder e fui. Sentar por mais de uma hora ao lado de um ídolo tão por mim cultuado é realmente algo bem especial. Principalmente quando essa pessoa é extremamente gentil e atenciosa com seus fãs. Manara não fala outra língua senão o italiano e parece não se incomodar com isso. Não está nem um pouco preocupado se perguntam: "Você não fala inglês?" Como a conversa demora cerca de vinte minutos para iniciar e estou sentado ao lado dele e do curador da exposição, também italiano, tento ser um bom anfitrião e puxo conversa. Ele me explica em italiano - consigo entender bem - que compreende um pouco de português - se falarem devagar com ele - por causa da semelhança com o espanhol, língua que ao menos lê por causa dos quadrinhos. Combinamos que eu começaria o evento com uma explanação sobre meu livro e lhe faço um resumo da obra: trata-se de um estudo teórico sobre os três maiores autores de quadrinhos eróticos do mundo: ele, Crepax e Serpieri. Manara conta que havia ficado muito curioso para saber do que se tratava, pois tanto no Rio de Janeiro quanto em Santos - cidades que visitara nos dias anteriores - apareceram fãs lhe pedindo para autografar o livro. Fez isso gentilmente, viu seu desenho na capa, mas percebeu que o autor tinha outro nome. Por um desses milagres, no dia anterior eu tinha conseguido um exemplar do esgotadíssimo Tentação à Italiana para dar a ele de presente. Passei na Comix para um dos longos papos que sempre tenho com Jorge, dono da loja, e falei da minha frustação em não ter uma cópia para dar a Manara. Com a gentileza que lhe peculiar, ele contou que Ed, um dos funcionários, havia encontrado um volume lacrado numa gaveta. Na saída, ele simplesmente empacou o livro e meu entregou. Deu tudo certo na conversa com o público, embora uma febre insistente tenha obrigado o artista a cancelar a sessão de autógrafos e a reduzir o papo em 40 minutos. A plateia lamentou com um "oh" mas foi extremamente compreensiva - claro que alguns fãs insistiram durante a abertura da exposição, que se seguiu. E ele atendeu a todos. Não me lembro de ter conhecido um artista do mundo dos quadrinhos como Milo Manara nos quesitos educação, simplicidade, humildade e gentileza. Um contraponto nobre para a antipatia psicótica do chato e insuportável Robert Crumb que, por ser gênio, acha-se no direito de considerar todos que se aproximam dele seres desprezíveis.
Escrito por goncalo.junior às 08h39
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O DIA EM QUE CONHECI BOB DYLAN NA FILA DO PASSAPORTE E OUTROS ENCONTROS INESPERADOS

Um repórter, muitas vezes, precisa ter sorte, muita sorte. E acredito que ela só vem se você realmente faz por merecê-la. Isto é, quando persegue incansavelmente uma informação, uma fonte, uma pista até. Lembro-me, porém, de algumas histórias em que a sorte me procurou como mero acaso e nem sempre eu estava a trabalho. Foram episódios dos mais curiosos que tinham uma pessoa famosa no meio. Vou contar aqui cinco delas que me vieram à cabeça agora, mas creio que ocorreram outras. As datas não são muito precisas. 1 - Bob Dylan - Eu estava na fila do aeroporto em Lisboa, em 1998. Era por volta das 7h da manhã, depois de atravessar o Atlântico, vindo de São Paulo. Esperava pacientemente na fila do passaporte onde passariam quem não era português ou não tinha o visto da Comunidade Europeia. De repente, vejo alguém familiar na minha frente. Muito familiar mesmo. Duas coisas me chamaram a atenção de imediato: a unha enorme do dedo polegar e a bota com um extenso bico matálico. Pensei: "É Bob Dylan". Mas não tinha certeza. O sujeito, então, foi para a outra fila, bem menor, a tal que recebia portugueses e europeus com passe especial. Notei que na continuação da minha fila estavam alguns músicos - pelos instrumentos que levavam. Perguntei a um deles em inglês se o cara que havia mudado de fila era o velho Bob, trilha sonora de minha vida inteira. O magrelo de chapéu e mal humorado resmungou algo negativamente que não entendi. Fingi-me de cego e colei atrás do suposto Bob. Ao ver que um casal de portugueses conversava atrás de mim, perguntei se havia algum show programado de Bob Dylan em Lisboa naqueles dias. Os dois disseram que sim, no dia seguinte. Não pensei duas vezes: peguei o livro que estava lendo sobre ditaduras em Portugal, saquei uma caneta e disse: "Mr. Dylan, please?" E ele gentilmente me deu um autógrafo. Na saída, ele esperava os músicos e me deu um tchauzinho. Infelizmente, não consegui comprar ingresso para o show. Não achei o livro com o autógrafo, fico devendo aqui. 2 - Fernando Henrique Cardoso - Foi em 1996. Eu trabalhava na sucursal de Salvador da Gazeta Mercantil e cobria todas as viagens do Presidente da República ao Nordeste desde o ano anterior. Na época, FHC comandava o país e vendia tudo que fosse estatal a preço de banana. Numa viagem para inaugurar um oleoduto em Jequié, interior baiano, ele decidiu que não daria entrevista. Inclusive a assessoria dele, de modo bem sacana, mandou que bloqueassem a passagem de ônibus cheio de jornalistas que tentavam acompanhar seus deslocamentos pela cidade. No aeroporto, a comitiva presidencial entrou pela pista e desapareceu. Desanimado, como todos os outros colegas, achei que não renderia mais nada e fui ao banheiro. Os demais jornalistas, no entanto, continuaram próximos da pista. Fiz xixi e notei que um senhor de terno se posicionou ao meu lado. Como macho que é macho não olha pro lado quando está em banheiro público, fui lavar as mãos na pia. Pois, quando levantei os olhos, não era FHC do meu lado? Estávamos sozinhos no banheiro. Uma tremenda falha na segurança dele, claro, que preferiu guardar a porta do local, sem fazer uma checagem lá dentro. E não perdi tempo. Identifiquei-me como da Gazeta Mercantil e ele respondeu duas perguntas minhas sobre uma polêmica da época. Não me lembro do que se tratava. Do lado de fora, Márcia, correspondente do Jornal do Brasil, assistia a tudo, imponente, sem poder entrar no banheiro. Furo da Gazeta. CONCLUO NO PRÓXIMO POST
Escrito por goncalo.junior às 21h21
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COMO ENCONTREI O MAIOR TESOURO DAS HQS NO BRASIL - EPÍLOGO

Tudo que relatei aqui sobre os mais de dez mil revistas e livros - além de incontáveis pastas de arquivos de folhinhas antigas (com pinups), recortes de jornais e revistas etc - que adquiri do genro e da filha de seu Loris Foggiatto me deixa meio frustrado porque, ao reler os posts anteriores, continuo com a sensação de que não consegui dimensionar essa experiência única que, creio, jamais se repetirá comigo e dificilmente com qualquer outro mortal. Eu recordei tudo diretamente no espaço de redação do blog a partir de minhas memórias e, por falta de tempo, não consegui olhar o acervo ou abrir as muitas caixas e pacotes que ainda estão lacrados. Eu citei muito pouco do que levei para casa. As revistas em quadrinhos e de humor raras, as coleções completas de títulos de outras áreas, os cartões postais, as fotos (centenas ou milhares) originais de prostitutas nuas, as milhares de revistas eróticas que traçam um apanhado fantástico desse segmento - que seu Loris chamava de revistas brejeiras -, cada um renderia ao menos um post inteiro aqui. E por que dar publicidade a isso na Internet? Exibicionismo meu? Quem me conhece sabe que não. O meu maior sonho é que tudo isso vá parar num museu ou arquivo público, numa instituição seriamente constituída, aberta ao público, onde pesquisadores possam estudar esse inacreditável material, com o devido cuidado e segurança que algo assim demanda. Seria um espaço com funcionários bem orientados que atenderiam esses visitantes. Tudo isso ficaria à disposição para consulta por pouco tempo, por causa de sua fragilidade causada com o desgaste do tempo, pois meu projeto prevê que tudo seja digitalizado e acessado de qualquer lugar do planeta pela Internet, guardados os devidos cuidados sobre direitos autorais, se for o caso. O maior obstáculo que imagino seria um órgão público topar manter no acervo as publicações de sexo, uma vez que o preconceito sobre o tema ainda é imenso, num grau de estupidez bem acima do que se imagina. Quando escrevi o livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo, fiquei impressionado sobre o quanto é possível contar por meio dessas revistas e livros a história da sexualidade brasileira, dos costumes, dos hábitos e das tradições, da emancipação das mulheres, da repressão nos nossos regimes autoritários, da censura, do desejo de liberdade, da luta contra o machismo, da repressão ao sexo feminino em todos os tempos e épocas. Assumo aqui a palavra de absolutamente nada cobrar sobre tudo isso que consegui juntar se aparecer alguma instituição com esses requisitos. Sim, desde que tenha a segurança de que tudo isso será realmente preservado ao longo de décadas e não simplesmente abortado por algum governante idiota, desses que destroem o que o anterior fez. Que se mantenha esse material para que futuras gerações possam conhecer e estudar esse tempo - o século 20, principalmente - em que todas as emoções, sensações, desejos e fantasias de gerações de brasileiros passavam por uma folha impressa. Por muitas delas. Um tempo em que o olhar fascinado pela imagem, desenho ou foto, combinava com o toque tátil sobre o papel e o cheirinho de tinta da revista que acabou de sair da gráfica. Sinto a presença de seu Loris no acervo que pretensamente assumi a missão de preservar. Vejo-me na obrigação de guardar um tesouro que ele por tanto tempo se empenhou em zelar - talvez para algum propósito que jamais saberei ou pelo simples prazer de colecionar. Seu Loris, na verdade, não era um colecionador, não saía por aí atrás de títulos para completar suas coleções. Ele apenas guardava as revistas que comprava e lia, com o cuidado de preservá-las das ações do tempo, dos insetos e roedores. Na solidão da velhice, ao contempar tudo aquilo, é possível que ele se sentisse na companhia de velhos fantasmas de sua infância e juventude. Ou que passasse o tempo a folhear aquelas revistas como uma espécie de máquina do tempo dos melhores momentos de sua vida. De certo modo, ele estava preso àquele tempos idos, vividos, mas não esquecidos, como também fazemos ao recorrer a velhos discos ou aos gibis de diferentes períodos de nossas vidas. Ao especular sobre a ligação de seu Loris com aquele tão fascinante mundo que criou ao seu redor, fico a imaginar que tipo de contato tomamos com objetos assim que, acredito, vão muito além do mero preservar para decorar uma casa ou por puro exibicionismo intelectual. Toda vez que leio um livro, por exemplo, passo a estabelecer com aquele exemplar e seu autor uma cumplicidade até mesmo familiar, diria assim, uma proximidade que jamais se concretizará, claro. Daí sempre acharmos que somos íntimos de nossos autores preferidos quand os encontramos. Toda vez que leio um livro, bom ou ruim, nunca deixo de terminá-lo. E procuro guardá-lo na estante como algo com o qual criei uma relação que não acabará jamais porque alguns fragmentos ou a soma de muitos permanecerão em minha memória para sempre. Assim sou eu e os livros, as revistas, os recortes, os arquivos, as pastas e as memórias dos outros, que capto por meio de um gravador ou pela ponta da caneta sobre o papel. Sou tentado a imaginar que o talentoso Loris - jamais reconhecido à altura que merecia como artista plástico - tinha um casamento eterno parecido dentro daquela caixa de lembranças e saudades onde viveu a maior parte dos 96 anos de existência. Não o admiro só por isso.
Escrito por goncalo.junior às 00h36
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COMO ENCONTREI O MAIOR TESOURO DAS HQS NO BRASIL - PARTE 7
De janeiro a agosto de 2010, poucos foram os finais de semana em que não passei pelo menos o sábado na casa de seu Loris Foggiatto, na Vila Mariana, São Paulo. Eu brincava com o amigo com quem dividia as buscas no porão que aquele sobrado era mesmo sobrenatural, como desconfiava uma parente do antigo dono. Afinal, saíamos para ir embora e, na volta seguinte, aparecia uma coleção de gibis ou uma edição rara num lugar onde nós havíamos vasculhado minunciosamente. Perguntava a seu João se alguém havia estado ali durante a semana e ele garantia que não. Não tinha motivos para não acreditar nele, claro. Lembro do número 1 da revista MAD, da Vecchi, de 1975, que apareceu do nada onde sempre passávamos. Ou das novas pilhas de almanaque de farmácia que surgiam de vez em quando. Mas aconteciam surpresinhas normais como me deparar com algum exemplar do Globo Juvenil ou do Suplemento Juvenil no meio de cadernos de turismo, por exemplo. Desde o primeiro dia, a filha de seu Loris falava que o pai havia sido muito amigo do cartunista paulistano Benedito Carneiro Bastos Barreto, o Belmonte (1896-1947), um dos mais importantes artistas gráficos do país na primeira metade do século 20, criador do personagem Juca Pato. Se Belmonte morreu em 1947 e Loris trabalhou na gráfica da Folha nos 13 anos anteriores, devem mesmo ter convivido todo esse tempo nos corredores jornal. É preciso lembrar que Loris era um excelente desenhista e promissor pintor. Os dois, portanto, tinham interesses em comum. (Ironicamente, Belmonte morreria numa clínica que ficava exatamente na rua onde seu Loris passou toda a vida, a Umberto I). Sua filha afirmava com convicção que havia na casa todos os livros de Belmonte, mais uma pasta com coisas pessoais do artista - não faço ideia do que se trata porque a mesma foi adquirida pelo comprador de Belo Horizonte. Só para situar, Belmonte reinou absoluto em seu tempo na imprensa paulistana, enquanto no Rio brilhavam nomes como J. Carlos e Raul Pederneiras - de quem ele era muito amigo. Publicou mais de uma dezena de livros - boa parte com seus cartuns relacionados à Segunda Guerra Mundial. Escreveu também volumes de crônicas e contos humorísticos (como o clássico "Idéias de João Ninguém", de 1935) e estudos históricos principalmente sobre São Paulo ("No tempo dos bandeirantes"; "Brasil de outrora" e "Costumes da América Latina"). Também ilustrou as obras infantis de Monteiro Lobato - foi o primeiro de muitos artistas a dar forma aos personagens do Sitio do Pica-pau Amarelo. O artista passaria boa parte da vida no grupo Folhas - hoje responsável pelos jornais Folha de S. Paulo e Agora. Foi ali que, em 1929, Belmonte transformou em sucesso seu mais famoso personagem, Juca Pato, nas páginas da Folha da Noite. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele ganhou fama mundial ao usar o humor para combater os países do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e por tirar sarro das incoerências das três maiores potências do mundo - as capitalistas Estados Unidos, Inglaterra e a comunista União Soviética. Nas minhas buscas pela casa de seu Loris, nada encontrei dele. Até que seu genro, gentilmente, lembrou-se que havia levado para casa um exdemplar de "A Guerra de Juca", com a reunião de caricaturas publicadas até 1940. Deu-me de presente, claro. Talvez tenha olhado no Mercado Livre o valor médio do mesmo, R$ 400, mas nada cobrou, em mais um de muitos gestos de gentileza desse ser humano único. Minhas esperanças quanto a Belmonte renasceram no porão da casa. Seu Loris havia trabalhado na Folha de 1934 a 1969 e, de acordo com a sua filha, todas aquelas montanhas de jornais que ele ali havia depositado cobriam exatamente esse período. "Papai sempre chegava com uma pilha de jornais nas mãos e, como tinha mania de guardar tudo, colocava no porão depois que a gente lia". Sim, eu percebi que eram exemplares dos três jornais que o grupo Folhas publicou no período: Folha da Noite, Folha da Tarde e Folha da Manhã. O primeiro, mais popular. O segundo, elitista, existia para concorrer com O Estado de S. Paulo e A Gazeta. Pedi ao genro de seu Loris para me deixar retirar daqueles jornais - boa parte devorada por cupins e traças - as páginas que tinham caricaturas e ilustrações de Belmonte. O ex-gráfico da Folha me deu uma ajuda sem querer. Ele havia separado perto de dez pilhas somente com os cadernos de domingo da Folha da Malhã, o "Suplemento", que tinha jeito de revista e que sempre trazia na capa exclusivamente um desenho de página inteira - tamanho standart, o maior de todos - feito por Belmonte. Um mais belo que outro, meticulosamente construídos a bico de pena. Não mais que três tinham sido comprometidos pelas traças. No total, tirei de lá perto de 150 capas cinematográficas, o mais fantástico tesouro da história desse incansável cartunista. Só isso daria um livrão de capa dura de babar. Um detalhe: no meio há edições especiais com todas as páginas ilustradas por ele, o que totalizariam um volume de 500 páginas, no mínimo. Eu olhei tanto aqueles jornais por tantos dias que me familiarizei com o esquema que deixava Belmonte como a estrela dos dois principais jornais do grupo. De segunda a sábado, ele publicava um cartum por dia na Folha da Noite. Na capa ou na página 4. Durante a guerra, por causa da repercussão de seus desenhos contra Hitler, ele ocupou metade de toda a capa em centenas de edições. No domingo, a Folha da Manhã reproduzia todos os cartuns da semana que saíram na Folha da Noite e usava seu traço na capa do Suplemento. Dos cartuns diários, juntei perto de dois mil, creio. Desses, perto de 400 tinham Hitler como personagem - quase sempre a figura central. Eu, aliás, já escaneei todos e estou à procura de um editor para publicar um belo volume, sob o título CONCERTO EM DÓ MAIOR. Até descobri que uma querida amiga tem o telefone da filha dele, para que possa lhe pedir para autorizar a publicação. Outros temas recorrentes nesses cartuns eram a política nacional e os problemas urbanos de São Paulo. Não sei o que fazer com o inacreditável acervo de Belmonte que reuni. Meus planos seriam, além do livro com Hitler como tema, um álbum de luxo com as capas do Suplemento da Folha da Manhã. Talvez arrisque uma biografia, mas só depois que Andrea Nogueira publicar a dela - aliás, ofereci-me para ajudá-la a encontrar um editor, o que faço no momento. Andrea é a maior autoridade em Belmonte no Brasil. CONTINUA 
Escrito por goncalo.junior às 11h17
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COMO ENCONTREI O MAIOR TESOURO DAS HQS NO BRASIL - FOTOS
Amigos, Antes de postar mais um relato, coloco aqui algumas fotos tiradas na casa de seu Loris Foggiatto. A maioria, no porão. Vejam que não foi nada fácil ficar abaixado por incontáveis horas olhando jornal por jornal. 




Escrito por goncalo.junior às 09h18
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COMO ENCONTREI O MAIOR TESOURO DAS HQS NO BRASIL - PARTE 7
De janeiro a agosto de 2010, poucos foram os finais de semana em que não passei pelo menos o sábado na casa de seu Loris Foggiatto, na Vila Mariana, São Paulo. Eu brincava com o amigo com quem dividia as buscas no porão que aquele sobrado era mesmo sobrenatural, como desconfiava uma parente do antigo dono. Afinal, saíamos para ir embora e, na volta seguinte, aparecia uma coleção de gibis ou uma edição rara num lugar onde nós havíamos vasculhado minunciosamente. Perguntava a seu João se alguém havia estado ali durante a semana e ele garantia que não. Não tinha motivos para não acreditar nele, claro. Lembro do número 1 da revista MAD, da Vecchi, de 1975, que apareceu do nada onde sempre passávamos. Ou das novas pilhas de almanaque de farmácia que surgiam de vez em quando. Mas aconteciam surpresinhas normais como me deparar com algum exemplar do Globo Juvenil ou do Suplemento Juvenil no meio de cadernos de turismo, por exemplo. Desde o primeiro dia, a filha de seu Loris falava que o pai havia sido muito amigo do cartunista paulistano Benedito Carneiro Bastos Barreto, o Belmonte (1896-1947), um dos mais importantes artistas gráficos do país na primeira metade do século 20, criador do personagem Juca Pato. Se Belmonte morreu em 1947 e Loris trabalhou na gráfica da Folha nos 13 anos anteriores, devem mesmo ter convivido todo esse tempo nos corredores jornal. É preciso lembrar que Loris era um excelente desenhista e promissor pintor. Os dois, portanto, tinham interesses em comum. (Ironicamente, Belmonte morreria numa clínica que ficava exatamente na rua onde seu Loris passou toda a vida, a Umberto I). Sua filha afirmava com convicção que havia na casa todos os livros de Belmonte, mais uma pasta com coisas pessoais do artista - não faço ideia do que se trata porque a mesma foi adquirida pelo comprador de Belo Horizonte. Só para situar, Belmonte reinou absoluto em seu tempo na imprensa paulistana, enquanto no Rio brilhavam nomes como J. Carlos e Raul Pederneiras - de quem ele era muito amigo. Publicou mais de uma dezena de livros - boa parte com seus cartuns relacionados à Segunda Guerra Mundial. Escreveu também volumes de crônicas e contos humorísticos (como o clássico "Idéias de João Ninguém", de 1935) e estudos históricos principalmente sobre São Paulo ("No tempo dos bandeirantes"; "Brasil de outrora" e "Costumes da América Latina"). Também ilustrou as obras infantis de Monteiro Lobato - foi o primeiro de muitos artistas a dar forma aos personagens do Sitio do Pica-pau Amarelo. O artista passaria boa parte da vida no grupo Folhas - hoje responsável pelos jornais Folha de S. Paulo e Agora. Foi ali que, em 1929, Belmonte transformou em sucesso seu mais famoso personagem, Juca Pato, nas páginas da Folha da Noite. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele ganhou fama mundial ao usar o humor para combater os países do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e por tirar sarro das incoerências das três maiores potências do mundo - as capitalistas Estados Unidos, Inglaterra e a comunista União Soviética. Nas minhas buscas pela casa de seu Loris, nada encontrei dele. Até que seu genro, gentilmente, lembrou-se que havia levado para casa um exdemplar de "A Guerra de Juca", com a reunião de caricaturas publicadas até 1940. Deu-me de presente, claro. Talvez tenha olhado no Mercado Livre o valor médio do mesmo, R$ 400, mas nada cobrou, em mais um de muitos gestos de gentileza desse ser humano único. Minhas esperanças quanto a Belmonte renasceram no porão da casa. Seu Loris havia trabalhado na Folha de 1934 a 1969 e, de acordo com a sua filha, todas aquelas montanhas de jornais que ele ali havia depositado cobriam exatamente esse período. "Papai sempre chegava com uma pilha de jornais nas mãos e, como tinha mania de guardar tudo, colocava no porão depois que a gente lia". Sim, eu percebi que eram exemplares dos três jornais que o grupo Folhas publicou no período: Folha da Noite, Folha da Tarde e Folha da Manhã. O primeiro, mais popular. O segundo, elitista, existia para concorrer com O Estado de S. Paulo e A Gazeta. Pedi ao genro de seu Loris para me deixar retirar daqueles jornais - boa parte devorada por cupins e traças - as páginas que tinham caricaturas e ilustrações de Belmonte. O ex-gráfico da Folha me deu uma ajuda sem querer. Ele havia separado perto de dez pilhas somente com os cadernos de domingo da Folha da Malhã, o "Suplemento", que tinha jeito de revista e que sempre trazia na capa exclusivamente um desenho de página inteira - tamanho standart, o maior de todos - feito por Belmonte. Um mais belo que outro, meticulosamente construídos a bico de pena. Não mais que três tinham sido comprometidos pelas traças. No total, tirei de lá perto de 150 capas cinematográficas, o mais fantástico tesouro da história desse incansável cartunista. Só isso daria um livrão de capa dura de babar. Um detalhe: no meio há edições especiais com todas as páginas ilustradas por ele, o que totalizariam um volume de 500 páginas, no mínimo. Eu olhei tanto aqueles jornais por tantos dias que me familiarizei com o esquema que deixava Belmonte como a estrela dos dois principais jornais do grupo. De segunda a sábado, ele publicava um cartum por dia na Folha da Noite. Na capa ou na página 4. Durante a guerra, por causa da repercussão de seus desenhos contra Hitler, ele ocupou metade de toda a capa em centenas de edições. No domingo, a Folha da Manhã reproduzia todos os cartuns da semana que saíram na Folha da Noite e usava seu traço na capa do Suplemento. Dos cartuns diários, juntei perto de dois mil, creio. Desses, perto de 400 tinham Hitler como personagem - quase sempre a figura central. Eu, aliás, já escaneei todos e estou à procura de um editor para publicar um belo volume, sob o título CONCERTO EM DÓ MAIOR. Até descobri que uma querida amiga tem o telefone da filha dele, para que possa lhe pedir para autorizar a publicação. Outros temas recorrentes nesses cartuns eram a política nacional e os problemas urbanos de São Paulo. Não sei o que fazer com o inacreditável acervo de Belmonte que reuni. Meus planos seriam, além do livro com Hitler como tema, um álbum de luxo com as capas do Suplemento da Folha da Manhã. Talvez arrisque uma biografia, mas só depois que Andrea Nogueira publicar a dela - aliás, ofereci-me para ajudá-la a encontrar um editor, o que faço no momento. Andrea é a maior autoridade em Belmonte no Brasil. CONTINUA 
Escrito por goncalo.junior às 16h53
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COMO ENCONTREI O MAIOR TESOURO DAS HQS NO BRASIL - PARTE 6
Desde o primeiro dia em que estive no sobrado da Vila Mariana - ah, esqueci de dizer que fica na rua Umberto I, quase em frente ao começo da rua Pelotas -, eu ouvia a filha de seu Loris falar de um tal porão que havia ali, onde ela e, depois, seus filhos, brincaram por toda a infância. Havia da parte dela e do marido a suspeita de que no poderia ter mais revistas, uma vez que até aquele momento muitas coisas que eles lembravam não tinham sido ainda encontradas, como os 21 primeiros números de O Pato Donald. As semanas passaram e estávamos em abril. Outros compradores apareceram por lá, mas ninguém se interessara em saber onde ia dar aquela pequena entrada de 1 metro por 60 centímetros, aproximadamente. Um dia, quando as chances de encontrar mais revistas preciosas pela casa começava a rarear, desci as escadas até o quintal, acompanhado da filha de seu Loris. Tentei olhar pelo cercado e vi apenas uma montanha de coisas velhas: frascos de remédios antigos, abajures, vasos, martelos, lâmpadas, reveladores de filmes, móveis quebrados etc. Um metro adiante começava o breu. Consegui abrir a grade e visualizei uma pilha de revistas. Estiquei o braço e puxei com muita dificuldade. Tirei dois montinhos razoáveis. Eram os 100 primeiros números novinhos da revista Veja, sem qualquer indício de traça ou umidade. 
Rapidamente comecei a tirar as tralhas e cheguei à Ilha do tesouro. Nos três metros adentro, havia montanhas de revistas. Preciosidades tão valiosas quanto as que havia tirado de lá de cima. O lugar era de difícil acesso porque tinha pouco mais de um metro de altura por um de largura - nessa parte havia um corredor, estreitado por largas prateleiras. Não pensei duas vezes e liguei para um amigo colecionador, cujo nome vou preservar aqui. Eu já havia comentado com ele sobre minhas aquisições e falei rapidamente: "Largue tudo que está fazendo, pegue um taxi e venha imediatamente para o seguinte endereço. Ah, e traga uma lanterna". Não me perguntou nada. Imaginou do que se tratava e apenas disse: "Estou correndo praí". Em meia hora ele estava lá. Por que o chamei? Primeiro, pela amizade e pela gratidão. Depois, pelo tamanho físico. Eu tenho mais de 1,85m de altura e ele é baixinho. Tinha uma estatura possível para adentrar o porão até o fundo. E ele começou a me entregar pilhas e pilhas de revistas, depois de, pacientemente, tirar toneladas de tralhas do nosso caminho. Fizemos um pacto: cada coleção de quadrinhos dali retirada disputaríamos no par ou impar para ver quem escolheria primeiro. Ganhei a primeira e escolhi um montinho de Gibi Trissemanal, que incluia o volume 1, aquele com Charlie Chan na capa. Foi quando tive um grande susto. Enquanto eu folheava aquelas maravilhas, o tempo passou e chamei por meu amigo. Ele não respondeu. Gritei várias vezes e nada. Entrei em pânico, imaginei que ele tinha desmaiado ou morrido devido a algum bicho que o picou ou por falta de ar. Os donos da casa vieram ver o que estava acontecendo e nos preparamos para chamar os bombeiros. Até que vi a luz da lanterna se mover lá dentro. E o sujeito apareceu em seguida, completamente imundo, para dizer que havia muitos outros quartos no porão com muitas revistas. Tinha também perto de 30 montes de jornais, sobre os quais falarei no próximo post. A cada nova descoberta de gibis raros, ele gritava de lá, como se fosse uma senha. E começaram a sair montanhas de Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas, Mônica e Cebolinha (Abril) desde o número 1, Pernalonga, Almanaque Disney, Diversões Juvenis. Enfim, boa parte do que a Abril publicou de 1950 a 1979. Por cinco finais de semanas seguidos, tiramos coisas do porão. Isto é, revistas. Alguns exemplos: o resto da coleção de Carioca, Fon Fon!, Careta, Jornal das Moças, A Cigarra, Panorama e outras que eu tinha comprado e cujas numerações estavam incompletas. Tiramos de lá mais uma série do 1 ao 100 de Manchete, centenas de O Cruzeiro, inclusive os primeiros números, outra coleção de Quatro Rodas. Num outro dia, colhemos centenas de exemplares da famigerada Seleções do Digest, bíblia do anticomunismo cristão ocidental. Num dos quartos dos fundos, esse amigo achou os 90 primeiros números do Pato Donald e os 50 primeiros de Mickey, mais Seleções Coloridas do 1 ao 17, considerada a primeira publicação da Ebal, de Adolfo Aizen. Não seria justo com ele, que tanto se sujou e ralou naquele lugar, dividir essas preciosidades no par ou impar e o deixei ficar com tudo. Afinal, eu tinha encontrado maravilhas no porão, que também passei a explorar. Como um jornal de quadrinhos francês, que circulou a partir de 1902 - e cujo título vou ficar devendo porque seus volumes estão perdidos entre as caixas que ainda permanecem lacradas. E o alemão Allers Familj-Journal, cujos exemplares datam a partir de 1908. Todos em ótimo estado de conservação e que deixariam extasiados colecionadores e pesquisadores franceses e alemães. Outra descoberta: o Jornal do Lar, em formato standart (grande), dirigido a mulheres e publicado em 1932, mas que, na verdade, é um elo perdido da chegada dos comics no Brasil. Era impresso em cores. Uma publicação que encontrei em grande quantidade em todos os cantos da casa, principalmente no porão e que eu tinha me esquecido de citar (como dezenas de outras), foi o semanário humorístico paulistano O Governador, que teve mais de mil números. A publicação circulou entre as décadas de 1930 e 1940. Continuei a levar caixas e caixas para casa por meses. Mas havia no porão algo de muito valioso que, à primeira vista, não interessou a ninguém. Por causa disso, eu passaria meus próximos finais de semanas ao longo de quatro meses enfiado no porão daquela casa mágica.
Escrito por goncalo.junior às 16h17
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