Gonçalo Junior
  

 

O MAU CRIOULO SIMONAL

 

Embora esteja escrevendo uma biografia de um cantor famoso das décadas de 1930 e 1940, tenho ouvido muito Wilson Simonal nas últimas semanas. Praticamente todos os seus discos saíram em CD, o que facilita as coisas para mim. Simonal foi um fenômeno raro na música brasileira nos primeiros anos de ditadura militar. Considero sua voz a mais bela no gênero masculino já surgida no país.

 

Cheio de suingue, malemolência e malandragem para cantar, explodiu um sucesso atrás do outro, como “Sá Marina”, “País Tropical” e “Vesti azul”. Ele fazia o tipo sedutor e, ao que parece, adorava sair com mulheres brancas. Levou muitas à loucura, moças de classe média, inclusive casadas. Se não bastasse, “aquele crioulo metido a besta”, como se diz até hoje sobre os negros que “não procuram seu lugar”, gravou uma música em que dizia que todas as garotas eram gamadas nele porque, quando criança, ao invés de talco, sua mãe passou açúcar em seu bumbum. Por isso, muita gente detestava Simonal, mas não dizia que agia assim por racismo. Ele simplesmente era "metido", como já ouvi de senhoras da época.

Até que ele fez uma grande merda: ameaçou seu contador – que supostamente o teria roubado – de pedir para que amigos seus que eram agentes do DEOPS lhe dessem uma surra. Sem argumento, descontrolado, o cantor falou demais em recorrer a quem torturava e matava presos políticos e virou manchete de jornal. Não demorou para o crioulo ser taxado de dedo-duro dos colegas e jogado no limbo, até morrer de cirrose, esquecido, três décadas depois. Nunca se provou nada contra ele.

Esse assunto sempre me intrigou, pois a desgraçada ditadura militar, que um bando de imbecis quer de volta, foi tema de dois livros meus - Maria Erótica e A morte do Grilo - e eu pesquisei muito sobre o assunto. Em 1975, Simonal gravou um samba carnavalesco em que praticamente pedia reconciliação e uma chance para retomar sua carreira. Era o belo “A vida é só para cantar”, versão de um sucesso estrangeiro. Era tarde demais.

Quando esse assunto vem à tona, o racismo escancarado da mídia, principalmente, contra Simonal é amenizado ou ignorado. Ele foi um mau crioulo que rompeu as regras de convenção racial velada e hipócrita que se esconde na nossa fama hoje desmascarada de povo tolerante. E nessa luta desigual contra o preconceito, ao que consta, ele sempre esteve sozinho. Simonal foi o único exilado da ditadura dentro do seu próprio país, como diz o documentário sobre ele. E morreu sem alforria. Triste isso.



Escrito por goncalo.junior às 19h33
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PORQUE VOCÊ DEVE LER KEN PARKER, O MAIOR MOCINHO DO FAROESTE

 

 

Acompanho a epopeia do editor Wagner Augusto para publicar Ken Parker no Brasil há duas décadas. Embora tenha sido criado na Itália e não nos Estados Unidos, por Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, não apenas é mais um personagem de histórias em quadrinhos que vive no velho oeste americano. Ken Parker é, de longe, o maior, o melhor e o mais interessante mocinho do oeste já criado nesse formato de entrenimento - que me perdõem Tex, Jonah Hex, Zagor, Mágico Vento, The Lone Ranger (Zorro), Lucky Luke e outros. Suas histórias são carregadas de profundo humanismo e ele é o que se poderia chamar, nesse sentido, de um anti-herói, no sentido literal do termo - nada tem a ver com vilão, hein? Ou seja, aquele que se aproxima mais do leitor e leva a uma maior identificação porque erra, engana-se, quebra a cara, apanha, sofre, tem medo e, muitas vezes, vê-se perdido diante dos imprevistos da vida.

 

Venerado no Brasil por nomes como o cantor e compositor Arrigo Barnabé e a cartunista Laerte Coutinho, Ken Parker é quase uma religião para quem aprecia quadrinhos refinados, daqueles que atingem o conceito de arte e não de apenas entretenimento. E se não fosse o teimoso Wagner, esse público no Brasil estaria órfão. A série original, de 59 volumes, foi parcialmente lançada, pela primeira vez, entre 1978 e 1983, pela extinta Editora Vecchi, que faliu e, por isso, interrompeu a coleção no volume 53. A Best News, por volta de 1990, chegou a tentar completá-la, mas não passou de dois números. Wagner, então, começou a publicar edições especiais, com histórias mais curtas e álbuns de luxo. Até partir para o desafio de dar ao personagem o merecido tratamento editorial para a série completa. E, assim, no começo deste século, ele colocou no mercado todos os volumes, em papel especial, de primeira qualidade, e capa cartonada, com orelhas. Um primor do qual tive a honra de participar com a revisão de alguns números. Também produzi boa parte dos releases e até escrevi um guia de episódios, que nunca tive a oportunidade de publicar, mas quero fazê-lo um dia.

 

Desde o final de 2015, Wagner partiu para um novo e longo desafio: editar os 35 números da revista Ken Parker Magazine. A série original saiu na Itália a partir de junho de 1992, publicada pelos próprios autores, em edições mensais. Cada número trazia uma aventura inédita do personagem, algumas delas mais longas e, por isso, divididas em capítulos. A revista também publicava trabalhos de outros autores, artigos e reportagens ligadas aos quadrinhos naquele país. Teve uma interrupção em  setembro de 1994 e, depois, passou a ser publicada pela poderosa Sergio Bonelli Editore, até janeiro de 1996.

 

Seis números já saíram pelo selo Cluq, além do volume zero, que é distribuído gratuitamente para quem começar a coleção. A tiragem é limitadíssima em 300 exemplares, sem possibilidade de reimpressão. Eu te imploro, caro leitor deste blog: descubra Ken Parker. Mesmo que nunca tenha lido quadrinhos em sua vida ou não goste de faroeste. E o faça a partir dessa nova coleção. Comprometo-me a lhe devolver o dinheiro se não se viciar nessa rara e monumental obra-prima dos quadrinhos. Ah, o contato de wagner é esse para pedir os primeiros números: cluq@terra.com.br.



Escrito por goncalo.junior às 09h26
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VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 2

A música preferida de meu pai era Doce de Coco, a obra-prima de Jacob do Bandolim. Aliás, ele era alucinado por Jacob e por Altamiro Carrilho, dois gênios do choro. Tinha todos os discos deles desde a década de 1950 e passou a vida a dizer que seria a herança a ser deixada por ele para mim - a imensa pilha continua no seu guarda-roupa, não tive coragem ainda ver. Alguns desses discos de Altamiro, na versão CD, estão autografados, a meu pedido, pois o entrevistei algumas vezes, em shows que ele fez em Salvador na décvada de 1980. Sobre Jacob, Seu Gonçalo contava que ele tinha morrido muito cedo, de enfarto – aos 51 anos, em 1969. Falava de seu perfeccionismo, que o levava a quase enlouquecer seus músicos, do talento como compositor. Lembrava ainda que tinha um cartório e uma filha dentista.

O dia sagrado do meu pai era o domingo. E para todos nós também. Era o momento de ficar com a família, de ouvir música, de comer o tradicional franguinho ensopado ao meio-dia em ponto – às vezes, ao molho pardo ou à cabidela, como se diz em algumas regiões do país,  misturado com macarrão. Bom demais. Às 8h em ponto, os quatro filhos, bem arrumados, deveriam estar sentados a seu lado no banco da Igreja Matriz, separada de nossa apenas por uma praça. Na volta, enquanto minha mãe preparava o frango, que ela mesma matava, com impressionante destreza e frieza, meu pai se punha a ouvir música e a tomar sua cachacinha, principalmente as que "importava" das cidades de Sebastião Laranjeira ou de Januária (MG), onde se produzia as melhores do Brasil, na sua opinião.

Cada vez mais, esse hábito o levaria ao alcoolismo e à diabetes. Mas ele não era um bêbado chato. Ao contrário, tornava-se mais carinhoso, menos durão, mais atencioso. E liberava uns trocados para irmos ao cinema, o Cine Sorbone, cujo fundos víamos da frente de nossa casa. Tanto que ninguém além da nossa porta sabia ou percebia que ele gostava de beber – dizia que o álcool o ajudava a suportar o trabalho extenuante, a burocracia mecânica que tinha que se submeter. E, assim, o domingo corria com variantes de temas musicais. Isso acontecia porque, para cada época do ano, ele tinha um repertório irretocável de marchas e sambas. Se era época de Carnaval, Lamartine Babo reinava absoluto em nossos ouvidos com clássicos como Lourinha, Linda Morena e O teu cabelo não nega – esse clássico racista, sucesso estrondoso em uma época que o racismo não estava na pauta.

No Carnaval, a música que ele mais gostava era a marcha A Jardineira, na voz inconfundível de Orlando Silva, gravada em 1938. Deste, sempre falava que depois que a mãe do cantor morreu, jamais conseguiu cantar Rosa (Pinxinguinha e Otávio de Souza), por ser sua música preferida. Orlando perdia a voz, com a garganta engasgada pelo choro. Quando vinha o São João, apareciam os discos de Luiz Gonzaga, que ele também venerava. Havia ainda as marchinhas juninas cantadas por Carmen Miranda, Mário Reis, Aurora Miranda e Francisco Alves - Cai cai balão e Chegou a hora da fogueira eram imbatíveis. O Natal era tempo de depressão, de melancolia, de ouvir Boas Festas (aquele que diz "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel") e saber que seu autor, Assis Valente, tinha morrido em um banco de praça, no Rio de Janeiro, em 1958, depois de tomar veneno com guaraná. (Continua).



Escrito por goncalo.junior às 21h36
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VIDA INTENSAMENTE MUSICAL - Parte 1

 

Em minha experiência como biógrafo de compositor – Assis Valente –, autor de dezenas de perfis e entrevistas com mestres musicais diversos (Dorival Caymmi, Valter Franco, Raul Seixas etc) e leitor de biografias da área, um detalhe em comum na vida desses artistas sempre chamou minha atenção: o fato de terem crescido em um ambiente musical. Ou seja, na sua infância ouvia-se muita música em casa. Mas, quantos como eu também tiveram os primeiros anos assim e não seguiram o caminho da música? Pelo menos de forma direta, pois, no meu caso, em toda a vida como jornalista profissional, escrevi sobre o tema, inclusive com resenhas de livros e discos.

Curioso que lá, na pequena cidade de Guanambi, onde passei a maior parte da infância, tocava-se de tudo em nossa casa. Discos. Toca-discos. Minha mãe amava Roberto Carlos e tinha uma quedinha pela música brega de Agnaldo Tomóteo e Carmen Silva. Quando brigava com meu pai, então, botava esses cantores no volume máximo e afundava o rosto no travesseiro. Chorava horrores, diante dos filhos impotentes para consolá-la. Meu irmão mais velho curtia Queen, Rod Stwart, Supertramp e coisas do gênero. Minha irmã, que veio antes de mim, ouvia Beatles e Janis Joplin – no seu quarto, descobri ainda os romances de Charles Bukowski, John Fante e Clarice Lispector. Foi ela quem moldou meu gosto musical e literário, sem dúvida. Afinal, era estudante de Filosofia e rebelde por natureza.

Mas foi meu pai a pessoa que realmente fez a minha cabeça musical, ao me apresentar velhos compositores, cantores e instrumentistas. A lista é imensa: Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Silvio Caldas, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, Mario Reis, Francisco Alves, Ademilde Fonseca, Ari Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, Chiquinha Gonzaga, Dorival Caymmi, Marilia Batista, Braguinha, Noel Rosa, Aracy de Almeida etc. Sobre todos, ele tinha na memória impressionante histórias maravilhosas dessas pessoas: algumas tristes, outras alegres, e muitas anedotadas.

Toda quinzena, ele me dava o dinheiro para ir à banca de seu Nunes - que parecia ter 110 anos e adulterava o preço de capa, pois só ele era jornaleiro na cidade - e comprar um fascículo da Nova História da Música Popular Brasileira, que a Editora Abril produzia e trazia de brinde um disco de vinil (LP), com uma seleção cuidadosa dos sucessos daquele compositor. Passávamos duas semanas lendo as biografias e ouvindo as músicas, até sair o próximo volume - foram 72 fascículos, se não me engano, lançados entre 1975 e 1978. Eu adorava tudo aquilo. Ouvia, aprendia, doutrinava-me e descobria a maravilha de nossos grandes mestres. (Continua)



Escrito por goncalo.junior às 23h33
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Rir para não chorar em peça sobre Alzheimer

Não tenho mais paciência para ver peças de teatro delirantes, subjetivas demais, longas e que deixam a plateia tensa no mero esforço de entender onde o autor quer chegar. Nesses casos, costumo ler a sinopse antes, apenas para me divertir pelo que pretende dizer e o que é dito. Ou não dito. Ou o que ficou na promessa.

Ontem, fui ver Campeão de Dominó do Alasca, de Mario Viana, com direção de Aimar Labaki, que tem no elenco meu querido amigo Valdir Rivaben, ator com talento acima da média para o humor. São apenas três personagens em cena: dois filhos adultos e uma mãe idosa, corroída pelo Mal de Alzheimer.

Viana consegue o improvável: fazer rir - e refletir - sobre um assunto perturbador, principalmente para quem tem ou teve algum parente com essa terrível doença que, como sempre digo, rouba a alma da pessoa, deixa-a à mercê por completo das crueldades e regras de um mundo implacável. Em um texto enxuto, econômico, de diálogos precisos e sem excessos, ele expõe uma consequência natural desse mal: o drama familiar que ela acarreta. Faz isso ao contrapor dois irmãos em lado bem opostos: o que passou dez anos cuidando da mãe, com grande sacrifício, e o que a ignorou esse tempo todo e volta disposto a usá-la para um golpe que pretende quitar as dívidas com mafiosos.

O mais velho tenta convencer o outro a participar de um plano cruel, quando surge o momento de se fazer uma interesse reflexão sobre as relações familiares com parentes de reações diversas. Até onde vai a paciência, o estorvo, a responsabilidade de cada um? Todos esses pontos incomodam e levam a pensar, com sutileza e inteligência. No balanço final, sobressai um drama cômico carregado de humanismo e emoção. O trio é afiadíssimo nos 50 minutos do espetáculo. Vá ver.



Escrito por goncalo.junior às 11h58
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ALÕ VOCÊ AÍ DE CIMA!!!

SEI QUE NÃO VAI ME LIGAR AMANHÃ.

MAS VEJA SÓ OS NOSSOS DISCOS PREFERIDOS QUE ESTOU OUVINDO, COMO NOS VELHOS TEMPOS!

TÁ CHEGANDO AÍ?

NÃO É POR E-MAIL OU INTERNET. VIA CORAÇÃO.

 

 

 



Escrito por goncalo.junior às 11h37
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NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE E A SAUDADE DELE ESTÁ DOENDO EM MIM

Ontem, eu e meus três irmãos enterramos nosso pai. Foi e continua a ser um momento de dor pelo qual queremos adiar por toda a vida. Principalmente quando essa pessoa, além de pai, é o seu melhor amigo, alguém que jamais o decepcionou, nunca esteve ausente e viveu exclusivamente para os filhos. Alguém que ligava todos os dias para fazer a mesma pergunta: precisa de alguma coisa?

Em um momento assim, a princípio, somos tomados da certeza de que nunca mais veremos essa pessoa tão próxima, querida e especial. E é verdade. Tememos pela saudade e pelo fato de que somos frágeis e  delicados mortais. Mas hoje me vejo na certeza de que não é bem assim. E eu preciso lembrar aqui de uma historinha pessoal que me leva a isso.

Faz tempo, 39 anos atrás, eu era uma criança de oito  para  nove anos de idade quando, deitados no sofá, como  gostávamos de fazer, enquanto ouvíamos um disco de  Ernesto Nazareth – daquela coleção vendida em bancas de jornal –, meu pai disse, em tom melancólico, que só tinha seis meses de vida. Insisti para que ele me dissesse porque, mas se limitou a responder que era pressentimento. Não achei que fosse brincadeira. Criança costuma acreditar nessas coisas. E eu fiquei em pânico, com aquela informação exclusiva na cabeça.

Meu pai ia morrer. O que fazer? Espalhar o pânico lá em casa? De jeito nenhum. Guardei a má notícia só para mim. Contei os dias, as semanas e os meses. Até que chegou o tal dia da suposta partida. Bastava virar o relógio da meia-noite do 180º dia para ele falecer. Enquanto todos dormiam, fiquei em silêncio, sentado à porta do quarto onde ele e minha mãe dormiam. Esperei, esperei, esperei. Do seu quarto só ouvia o seu ronco. Até que adormeci.

Fui acordado na manhã seguinte por meu pai. Ele queria saber porque eu estava ali e não na minha cama. Desconversei, não falei que ele tinha sobrevivido aos seis meses de vida e voltei para o quarto, feliz. Era melhor esquecer o assunto, não mexer no que estava quieto. Se não morreu naquele dia, isso não se repetiria nunca mais. Ele viveria para sempre. E quase quatro décadas se passaram até que na madrugada de ontem, atendi o telefonema do hospital. Seu Gonçalo tinha acabado de falecer.

No momento em que seu corpo descia a sepultura, essa história me veio à mente. Eu estava errado. Ele de fato morreu. Não era eterno. Mas veio também uma outra certeza que a gente só aprende com a experiência da vida. A imortalidade existe, sim. Não da forma como se idealizada, como o Highlander do filme. A pessoa permanece para sempre, viva e presente na mente de quem a ama. É uma sensação estranha até que a gente se acostume.

 

Pode-se não falar dela todos os dias, mas as lembranças se tornam recorrentes. Descobri isso depois que meu avô morreu. No começo, creio, o sentimento era apenas de pura dor. Depois, transforma-se em uma espécie de energia positiva, de conforto, de força para seguirmos em frente. Desse modo, nunca estaremos só. Meu pai, tenho certeza, é, sim, imortal. E ele viverá para sempre na minha mente e no meu coração. Como a eternidade que será minha vida para alguém que me ama, um dia.



Escrito por goncalo.junior às 18h19
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Nunca me liguei muito em Natal, nunca pedi presentes, mesmo depois de muitos e muitos natais. Mas este ano eu queria ganhar um. É aparentemente simples, mas que está além das nossas ações e atos humanos, além das nossas possibilidades. Seria o melhor de todos os presentes. Que o dia de Natal amanheça e que uma pessoa que amo muito acorde de um longo sono, que contrarie a lógica dos céticos e dos práticos e pragmáticos e que abra os olhos. Basta isso para que a esperança renasça. Não sei explicar porque acho que isso vai mesmo acontecer. Afinal, é Natal. E milagres existem nesse dia.



Escrito por goncalo.junior às 23h50
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O PRIMEIRO BULLYING NÃO DÁ PARA ESQUECER

 

Sempre que se fala em bullying – e é importante que isso aconteça –, volto às lembranças de infância para recordar meu primeiro problema nesse assunto. E veio, pásmem, de uma professora. Eu tinha cinco anos de idade, quando fui levado para a escolinha de Dona Lurdes, onde deveria ser alfabetizado pela famosa Professora Dolores, a mesma que tinha ensinado a ler e a escrever meu irmão e minha irmã mais velhos. Dolores devia ter seus 30 anos. Era uma mulher severa, autoritária, auxiliada por duas professoras mais novas e mais simpáticas, cujos nomes não me lembro. Dolores parecia um capitão do exército supervisiosando a tropa. Ensinava pelo terror. Infelizmente, não tenho uma única lembrança agradável dela.

No primeiro dia de aula, colocou-nos em pequenas mesas, onde cabiam quatro crianças em cada uma. Eu imaginava a escola algo muito bom, divertido. Adorava desenhar. Não via a hora de ter minha caixa de lápis de cor com 24 unidades, meu caderno novinho, lápis, régua, canetinha hidrocor, tudo que eu tinha direito. Inclusive uma merendeira de plástico, com suco e algum lanche que minha mãe prepararia. Meus irmãos adoravam aquilo e eu achei que seria realmente muito bom. Lembro que nessa época as rádios tocavam muito a música de Roberto Carlos Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Coube a Beto, um adolescente filho de um colega do meu pai, a missão de me levar à escola nas duas semanas. Seus pais estavam viajando e ele ficou hospedado lá em casa por um bom tempo. Beto ouvia muito o compacto da música de Roberto. Tinha um cabelo grande e cacheado, como dizia a música.

Desde a primeira aula, Tia Dolores - como exigia que fosse chamada pelos alunos - voltou sua atenção para mim. Por um motivo que lhe parecia sério e grave: eu era canhoto. Durante uma semana, manteve marcação cerrada, queria que eu usasse a mão direita. Com cara de poucos amigos, começou a ser ríspida e a segurar minha mão com força, agressiva. Eu deveria segurar tudo com a direita e o pânico tomava conta de mim. Como não estava dando certo, ela procurou minha mãe e deu o alarme: se eu não passasse a escrever “corretamente”, com a mão direita, eu nunca seria alguém na vida. Não seria um "doutor". O que fazer?, perguntou minha mãe. Ela determinou que eu fosse vigiado na hora das refeições, principalmente. Deveria pegar o garfo e servir comida com a mão direita.

Deu certo, virei destro. Mas até o ano acabar, eu travei, vivi o pânico, o terror de Tia Dolores. Tinha diarreia quase todo o dia, sentia-me mal, tentava não ir à escola. Não sei como passei de ano, pois aprendi a escrever, mas não sabia ler. Sim, é possível. Tanto que isso só aconteceu no primeiro ano do primário. Em parte, na verdade. Foi como se eu nunca tivesse frequentado a escola antes. Sabia apenas desenhar as letras, não conseguia formar as palavras. Mesmo assim, passei para o segundo ano, onde cai nas garras da professora Selma, uma solteirona e nossa vizinha que odiava todos os meninos da vizinhança e se vingava delas me colocando todo dia diante do quadro para resolver questões matemáticas que eu não conseguia e desandava a chorar. Humilhação diária, total. Risos dos colegas, chacotas. Eu era o burro da sala. Por anos, fui alvo de piadas de ex-colegas.

Fui rebaixado para o primeiro ano. Eu odiava escola, tinha pavor das professoras. Todas se pareciam com Tia Dolores, que depois eu identificaria com a figura de um oficial nazista, desses que a gente vê no cinema. De volta ao primeiro ano, humilhado, derrotado, morrendo de vergonha, deparei-me com uma jovem negra chamada Vera. Alta, braços largos, acolheu-me com um sorriso imenso desde o primeiro dia, cercou-me de carinho e respeito, ensinou-me tudo e até o fim do ano tornei-me o melhor aluno da turma. Eu escrevia bem e tirei as maiores notas. Era um outro aluno. E com a mão direita. De lá para cá, jogaria bola com a perna esquerda e fazia tudo com a mão esquerda também. Além disso, meu olho principal sempre foi o esquerdo.

A mudança que Vera promoveu em minha existência aconteceu em 1974. Em 2001, quando fui a Salvador lançar meu primeiro livro, País da TV, minha mãe me fez uma grande surpresa. Perguntou-me se eu me lembrava da professora Vera. Eu disse que sim. De coração, era a minha primeira mestra, disse a ela. “Eu a reencotrei no salão (de beleza) e a convidei para seu lançamento. Ela disse que vai”. Não só foi como me mandou um telegrama fonado, cheia de orgulho. Eu nunca mais a tinha visto. Vinte e sete anos tinham se passado. Vera agora era menor que eu e disse se lembrar bem de mim. Eu lhe disse que talvez a memória dela fosse vaga porque ela tivera muitos alunos. Mas, para mim, suas lembranças estavam bem vivas. Tudo que eu sabia devia a ela. E lhe dei um longo abraço. Da primeira professora a gente nunca esquece. Seu nome: Vera. O resto foi tropeço de infância.



Escrito por goncalo.junior às 21h50
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SIM, NÓS AINDA ESTAMOS AQUI. OU UMA DICA PARA LER UM BOM LIVRO

Marcelo Rubens Paiva ficou conhecido na década de 1980 por ter relatado no livro Feliz Ano Velho a dura experiência de ficar paraplégico após um mergulho enquanto se divertia com amigos. Virou escritor, escritor famoso. Escritor teimoso. Escreveu seguidos romances, mas a crítica sempre lhe torceu o nariz. Por causa do seu estilo coloquial, descompromissado com a erudição que costuma consagrar autores, foi chamado de semi-analfabeto, como ele mesmo diz. Mas seguiu em frente e virou colunista do Estado de S. Paulo, além de premiado autor de teatro – vi uma peça dele e gostei muito, embora não me recorde o nome.

Há um outro fato traumático que também o tornou conhecido em todo Brasil: em 20 de janeiro de 1971, seu pai foi arrancado de casa, diante dos cinco filhos pequenos e da esposa, Eunice, para sessões de tortura que o levaram a morte pelas forças de repressão da ditadura militar. Seu corpo jamais foi encontrado. Marcelo chega a falar disso no seu mais famoso livro. Mas revê tudo e passa a vida a limpo em um volume de memórias que acaba de sair: Ainda estou aqui. É um relato arrancado do fundo da alma, doloroso, de uma sinceridade impressionante – quando fala da mãe, por exemplo, mulher de luta que não se curvou diante das adiversidades da vida – sobre aqueles tempos difíceis. Não há pieguice em sua narrativa, é preciso ressaltar.

O relato é carregado de emoção e, pelo modo como ele tratou do tema, lavou-me a alma. Numa época em que fazer revisões da própria vida e de suas posições políticas quase sempre tem levado muitos famosos - cantores, atores, escritores, jornalistas, políticos e cidadãos comuns - a posturas que misturam neofascismo com neozarismo, preconceitos e bastante intolerância, tão bem caracterizados nos desfiles – eu disse desfiles, não manifestações – verde-amarelo da Avenida Paulista, Marcelo vai na contramão. Aos 55 anos, honra o nome do pai, a dignidade da mãe e mantém a sua postura de sujeito indignado, decente, coerente, inconformado, ma ser chato ou rancoroso.

Certa vez, um mês antes de morrer em uma acidente de carro numa madrugada paulistana, aos 77 anos, em 1999, perguntei a Dias Gomes porque ele, naquela idade, não tinha feito como a maioria das pessoas depois dos 30 ou 40 anos e abandonado a sua capacidade de se indignar com as coisas, de continuar a sonhar com valores como justiça social e liberdade. Em sua sabedoria, disse apenas que a vida não teria sentido para ele de outra forma. Marcelo segue esse caminho com um grande livro, para fazer pensar e resgatar valores hoje pisoteados na ala fascista de nossa imprensa escrita ou televisiva.

Por isso, tomei a liberdade de reproduzir alguns trechos aqui:

Ao falar sobre a casa onde a família morou e seu pai foi sequestrado, Macelo lembrou que o sobrado tinha virado um restaurante. “Cheguei a visitá-la. Comecei a subir para o segundo andar. Um garçom me barrou. Expliquei que eu morara ali anos antes e queria rever a casa. Ele deixou. Sozinho, circulei pelos quartos. O meu se transformara em um depósito de garrafas. Tudo estava igual, o piso, as treliças das janelas, as mesmas portas e fechaduras. Tinha ainda o calor da minha família. Tinha ainda o calor do meu pai. Eu tinha vontade de contar para todos como fui feliz naquela casa".

Noutra passagem, um momento de grande emoção, ao falar da luta da mãe para superar a vida de dona de casa até os 41 anos, fazer faculdade, trabalhar e sustentar os filhos. “De dia, ia para a rua XV de novembro, sede da firma. Em casa, no quarto, trancada no escuro, chorava todas as noites, chorava sozinha, sem que nos déssemos conta. Não queria que percebêssemos, mas que tivéssemos uma infância e adolescência sem âncoras na alma, que tocássemos a vida, os estudos, que tivéssemos amigos, namoradas. Não repartiu sua dor com ninguém. Não sei julgar se estava certa ou errada. Era seu jeito de ser”.

A passagem que mais me tocou, no entanto, foi essa: “Em 1981, teve que vender um pequeno apartamento do meu avô Facciolla, em São Vicente. Precisava da assinatura do meu pai. Relatou o ‘problema peculiar’ ao juiz da Vara de Família, Marcos Martins, pedindo uma outorga judicial, ou seja, o direito de fazer a transação imobiliária sozinha. O juiz não apenas concedeu, como escreveu à Procuradoria da Justiça do Rio de Janeiro exigindo que um inquérito para apurar o desaparecimento de Rubens Paiva. Para ele, o relato de Eunice continha ‘veementes indícios de crime’ cometidos contra Paiva e sua família. Ela comemorou muito. Alguém estava do nosso lado. Foi o começo do reconhecimento. E da sua viuvez jurídica”.

Este talvez seja o melhor livro que escreveu em toda a vida.



Escrito por goncalo.junior às 15h04
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E A VIDA, O QUE É, DIGA LÁ MEU IRMÃO...

 

Hoje meu velho pai completa 85 anos e desafia o tempo e a vida. Ainda sorri, brinca e fala palavrões desconcertantes. Não era assim, foi o Alzheimer que mudou esse comportamento nele. Homem íntegro, sério, respeitador. A doença é terrível, uma frase muito longa seu cérebro não consegue assimilar. Mas ele entende ainda algumas coisas que acontecem à sua volta.

No último feriado, passei três dias grudados nele, abraçamo-nos por tanto tempo como nunca fizera em toda a vida, se somarmos os momentos que fizemos isso. A distância entre pai e filho que ele nunca fez questão de manter não existe mais. Beijei sua testa, seu rosto, arrumei seu cabelo, brinquei com ele. Meu pai é uma criança de cinco anos. Quer brincar, mas não sabe exatamente como subir no beliche ou no armário.

Há alguns anos, fui impaciente com ele, sem perceber os primeiros sintomas da doença. Todos os dias, ligava-me para saber quando saia o livro sobre Assis Valente. Era esse o único assunto, o que dominava sua mente, suas preocupações. Estava ansioso. Eu respondia, mas resmungava com ele: o senhor me perguntou isso ontem.

Hoje, esses telefonemas diários me fazem uma tremenda falta. Ao longo deste ano, uma única vez o telefone tocou lá em casa vindo dele. A cuidadora perguntou por mim e disse que meu pai lhe pedira para ligar. Ele reclamou, disse que eu era enrolado, que não ia visitá-lo. No mês passado, negou-se a atender minhas ligações. “Esse sujeito não tem palavra, diz que vem e fica me enrolando”. Ou essa: “Fala que eu saí, não vou atender”.

Hoje, dei os parabéns para ele. Parece que entendeu que eu queria dizer o quanto esta terça, dia 27 de outubro de 2015, é importante para ele e para todos os seus filhos, irmãos e sobrinhos. Seu Gonçalo, um patriarca sem fazer esforço para isso, continua teimoso, ranzinza, costuma demitir suas cuidadoras. Quando isso acontece, a cabeça está melhor.

Ok, 85 anos é muito tempo. Ele já viveu bastante. Mas nós queremos mais, queremos ele aqui ainda por cinco ou dez anos, como um ponto de referência, como uma fonte de amor de um homem que viveu exclusivamente para os quatro filhos. Ele e minha mãe nesse sentido são parecidos. Duas fortalezas de força, esperança e de certeza de cumplicidade e amor. É tudo que preciso para seguir em frente.



Escrito por goncalo.junior às 12h37
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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE UM HOMEM QUE MERECE RESPEITO

Nesta fria e chuvosa manhã paulistana, enquanto digito estas primeiras palavras, ouço a versão de estúdio que Geraldo Vandré gravou em 1968 de Cominhando, também chamada de Pra não dizer que não falei das flores. Do outro lado do vinil, está a versão do Maracanazinho, gravada ao vivo, no calor da final do Festival Internacional da Canção. O LP me foi presenteado no domingo passado por minha amiga Fernanda Galib. Veio no lote de ótimos discos que ela resolveu gentilmente me presentear. Todos filés, coisas de primeira, herança de família.

Fernanda não sabia, mas foi uma grande coincidência. Quando o disco chegou, eu estava lendo a ótima biografia Vandré – O homem que disse não, escrita com competência por Jorge Fernando dos Santos. Conclui ontem a empreitada e agora ouço sua voz, a cantarolar os versos que um dia incendiaram o Brasil, sob a tutela de uma ditadura militar que essa música, de certo, ajudou a piorar. Falo isso no sentido de que Vandré criou um hino de resistência e provocou ainda mais a ira dos quartéis. Ele fez, sem dúvida, a canção brasileira mais importante, marcante e influente de todos os tempos, sem desmerecer a obra de Chico Buarque da época. Caminhando foi gasolina em capim seco, mostrou que o povo queria liberdade, não aceitava uma ditadura. É uma letra revolucionária, em que poesia e coragem dão o tom. Um trecho:

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Somos todos iguais, braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas, campos, construções

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Então, vem, vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos a fome em grandes plantações

Pelas ruas marchando indecisos cordões

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão

E acreditam nas flores vencendo o canhão

Então, vem, vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Vem vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Há soldados armados, amados ou não

Quase todos perdidos de armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição

De morrer pela pátria e viver sem razão

O que Jorge Fernando mostra em seguida é que matar Vandré foi, no primeiro momento, um pensamento dominante na chamada linha dura do regime militar, que defendia poderes absolutos para si e opressão massacrante a qualquer tipo de resistência. Para escapar, ele ficou escondido no interior de Goiás e em São Paulo por dois meses, depois fugiu para o Chile, Alemanha e França. Perdido, longe de seu país, da família e de seu povo, teve sua saúde mental minada, violentada, estraçalhada. Com a ajuda de um militar amigo da família, voltou ao Brasil em 1973 porque não suportava o exílio. Passou um mês preso e nunca se soube o aconteceu com ele nesse período. De nada vale o próprio compositor dizer que não foi torturado. Seu comportamento depois revelou-se fruto do terror, da intimidação, do medo de ser torturado. E até hoje, 42 anos depois, parece continuar da mesma forma. 

A esquerda nunca perdoou ou compreendeu quando um cabisbaixo e intimidado Vandré foi retirado da prisão para dar uma entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em que renegava seu passado de artista militante. Não consideraram que aquela poderia ter sido uma condição para não ser morto. Pelo menos fisicamente, pois, do ponto de vista moral, ele foi aniquilado naquele instante. A ditadura não podia carregar o ônus de ter de explicar seu desaparecimento ou morte. A conclusão é que ele foi, sem dúvida, a maior vítima da opressão e da repressão da ditadura brasileira no meio artístico. Destruíram sua capacidade de indignação, de resistência, de livre manifestação, de cantar. Vandré vive hoje, aos 80 anos, como um prisioneiro de seus piores pesadelos, aprisionado nas masmorras de uma ditadura que, espera-se, não deve voltar jamais.

Talvez suua biografia devesse ter sido mais contundente e opinativa nesse aspecto. Mas o livro de Jorge Fernando é excepcional, além de rigoroso na apuração e na citação de fontes. O Vandré incompreendido por seus pares, que têm dificuldade de vê-lo como resultado do terror psicológico do mais terrível período de nossa história, tem, agora, sua dignidade restaurada. Um grande homem cuja história pede respeito toda vez que um imbecil entoa na Avenida Paulista uma paródia de sua música para pedir a volta do regime militar.

 



Escrito por goncalo.junior às 12h31
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Meu encontro com o lendário Gil Gomes, o maior repórter policial do rádio e TV de todos os tempos

 

Na década de 1970, ainda muito criança, eu passava férias inesquecíveis na fazenda dos meus avós, nos confins do sertão da Bahia. Era um casarão secular com uma gameleira na frente, que morreu há três anos, depois de 106 anos de vida. A árvore atingia, sem exagero, a altura de um prédio de cinco andares. Descobriu-se que suas raízes buscavam água a três quilômetros de distância do caule. Ficávamos lá nos meses de janeiro e fevereiro. Até começarem as aulas em março. Não podia ser diferente. Por causa das chuvas, precisávamos esperar até as águas baixarem, depois das chuvas do começo do ano, senão o carro atolava. Foi lá que o nome Gil Gomes passou a fazer parte do meu imaginário.

Por anos, pelas manhãs, eu e meus irmãos ficávamos grudados no rádio para ouvirmos as crônicas policiais de Gil Gomes, o maior repórter de rádio e TV que já existiu no Brasil – na década de 1990, ele migraria para a TV e se destacaria no programa Aqui Agora, do SBT. Diariamente, nos anos de 1970, acho que pela Rádio Record, ele escolhia um caso de morte por violência para dramatizar com sua voz alarmante, impactante, dramática, inconfundível. Gil não era do tipo que se limitava a usar como fonte o boletim de ocorrência das delegacias, como se chama o registro que o escrivão faz de um fato policial. Ele recuperava a história da vítima ou do criminoso e criava um relato humano cheio de suspense, carregado de efeitos sonoros, que alimentavam nossas mentes de ouvintes.

Tudo aquilo me impressionava muito e mostrava que o mundo era mesmo cheio de violência. E o tempo passou. Aliás, correu, voou. Nos últimos três anos, morador da cidade de São Paulo que sou desde 1997, andei atrás dele para entrevistá-lo. Queria que me desse um depoimento para a biografia do Bandido da Luz Vermelha que estou escrevendo. Nesta semana, finalmente consegui ser recebido por ele em seu acolhedor apartamento, no bairro de São Judas. Graças à querida amiga Elaine Bittencourt, da Rede Record, cheguei a seu telefone. Depois de três remarcações, ele topou me receber. Pediu-me mil desculpas, só podia falar pessoalmente. A explicação se faz necessária: há oito anos, Gil está afastado do rádio e da TV. Nesse período, ele se tornou refém do Mal de Parkinson, essa doença degenerativa que afeta o sistema motor. Apesar do quadro, sua memória continua intacta, perfeita. Pouco antes de ficar doente, perdera seu filho de 30 anos, vítima de hepatite C.

Não encontrei o repórter de voz apavorante, mas um senhor de voz dócil e com olhos de passarinho, como um velho chefe guerreiro indígena que está ali, sentado, para passar a todos seus conhecimentos e sabedoria. Assim é Gil Gomes. Não há energia ruim a seu redor. Pelo contrário. Essas foram as impressões assim que me recebeu, bem cedo, na quarta-feira, dia 23 de setembro. Conversamos por duas horas. Não falamos mais porque ele começou a demonstrar cansaço. Extremamente gentil, logo vi que estava diante de uma pessoa bem humorada, generosa, prestativa, atenciosa. Se considerar seu histórico de vida, sua popularidade em todo Brasil, a legião de milhões de fãs que acumulou em quatro décadas, espere-se encontrar alguém diferente. Mas Gil é desprovido de vaidade, de egocentrismo. Não resmunga, não mostra amargura, não reclama da vida que leva, da distância do rádio e da TV.

E, assim, tivemos um papo maravilhoso. Ouvi confissões que jamais vieram a público, creio. Do próprio bolso, por exemplo, ele comprou e distribuiu mais de mil cadeiras de rodas para deficientes físicos pobres e pagou faculdade para os filhos de 27 “bandidos”, como ele mesmo diz. Gil agia como pai, amparado que filho de bandido não é bandido. Todos se tornaram advogados, sem exceção, e ele foi à formatura da maioria. Depois que caiu doente, nenhum deles apareceu para visitá-lo. Mas não reclama disso. Essa ingratidão não parece afetá-lo. Sereno, continua a falar de modo bem articulado e, repito, com uma memória de elefante.

Gil contou que ajudou a polícia a solucionar perto de 700 assassinatos na Grande São Paulo. E de um modo nada convencional. Ele era tão respeitado pelos ouvintes e telespectadores que as pessoas lhe entregavam bilhetinhos ou ligavam para informar o nome do assassino. Muitos foram passados em apertos de mão. Ele encaminhava a informação ao delegado, que investigaria a veracidade da dica. Parte dessa reputação se deve à respeitabilidade que alcançou em todas as frentes por onde atuou: entre os policiais, os bandidos e a população. Gil se equilibrava na corda bamba da ética e da moral e sobreviveu intacto, até ser forçado a parar de trabalhar por problemas de saúde.

O único momento em que perdeu a tranquilidade e se mostrou indignado foi quando falou sobre o massacre do Presídio do Carandiru, em 1º de outubro de 1992. Era dia de eleição, ele chegou cedo ao necrotério porque a Polícia havia informado que uma rebelião no mais famoso presídio brasileiro havia resultado em oito mortos. Ele foi checar no IML de Pinheiros. Trabalhava no SBT e teve sua entrada barrada no local por um PM, que negou qualquer explicação para justificar o que acabara de fazer. Gil não entendeu e ficou desnorteado, era a primeira vez que acontecia aquilo em mais de 25 anos de profissão. Mas não desistiu. Enquanto tomava café em um boteco próximo e pensava no que fazer, viu um funcionário do IML chegar reclamando que nunca trabalhara tanto e com tantos corpos e sequer tinham lhe servido um lanche. E contou a Gil que o lugar estava abarrotado de cadáveres.

O repórter partiu determinado para a entrada dos fundos do necrotério. Um policial tentou impedí-lo e ele soltou um "Vai tomar no cu" sonoro e seguiu em frente, apressado. O sujeito foi atrás e tentou barrá-lo novamente. E ele repetiu a frase com mais ênfase ainds. Atordoado, o policial nada fez e ficou estático. Ao entrar, o repórter ficou chocado. Desde aquela época, a cena que suas retinas capturaram o persegue. Ele já refez dezenas de vezes um cálculo aproximado da área e das pilhas de corpos. "Não foram 111 mortos. Passou fácil dos 300 cadáveres". Gil espera o dia em que um repórter investigue de fato essa história e revele o verdadeiro número daquela que foi a mais aterrorizante imagem de toda a sua vida. Quando saiu do necrotério, dentro da viatura do SBT, ele mostrou seu estado de choque. Como a Globo monitorava o rádio do SBT e vice-versa, sua indignação fez o massacre ganhar contornos e cair na imprensa.  "Nunca gostei de bandido, mas o que fizeram foi de uma covardia sem tamanho".

A maior parte da conversa, claro, foi sobre Luz Vermelha, que Gil conheceu tão bem. Ele faz uma revelação que ouviu do próprio bandido. Um furo. É o presente que me dá, como bom anfitrião. Tudo que ele disse bate com o que apurei. Não há porque não acreditar. Conversamos mais um pouco. Gil estava bem. Se eu tivesse uma emissora de rádio, eu o contrataria para fazer um programa duas vezes por semana. Ele relembraria os grandes casos que cobriu. Com um pouco de paciência, isso é prfeitamente possível. Tenho convicção disso. Ao final, diz: “Não tenho dado entrevistas, acho que recebi você porque gostei do modo como me procurou, confiei em sua voz, pareceu-me honesta”.  Foi a coisa mais gratificante que ouvi em duas décadas de jornalismo.



Escrito por goncalo.junior às 23h01
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Penélope Charmosa e a morte do herói

O morador de rua Francisco Eramos Rodrigues de Lima, era um fodido. Vivia não se sabe quanto tempo nas imediações da Praça da Sé, em São Paulo. Era mais um tipo disforme, invisível, um desses vagabundos que ninguém nota ou se importa. Como foi parar ali não se tem qualquer informação. Francisco acumulava 61 anos de uma vida difícil e morreria esquecido de frio ou de alguma doença típica de quem passa o tempo ao relento. Ou seria morto por alguém na calada da madrugada, em disputa por território nas calçadas. E acabaria enterrado como indigente, em cova anônima, se o destino não tivesse mudado sua rota nesta sexta-feira.

Penso que deve ter visto merda demais para perder toda esperança na humanidade. Se perdeu, não se deixou embrutecer, ficar indiferente, como mostrou no começo de uma tarde fria paulistana, quando resolveu ignorar a presença da Polícia e bancar o herói. Jogou-se para cima do vilão e tentou salvar a Penélope Charmosa, que apanhava com violência extrema, levava coronhadas na cabeça, sangrava perto do olho direito. Aquela covardia desmedida embaçou a visão de Francisco, deixou-o indignado, furioso. Não se faz aquilo. Muito menos com uma mulher. Ele se indigna mais ainda ao ver o grandalhão apertar sua barriga contra o chão com o joelho. Ela resiste, tenta se libertar e parece não ligar para o revólver que a ameaça. Numa luta desigual, a jovem não larga a bolsa, faz movimentos delicados e inúteis de uma combativa Penélope contra a forma bruta. Suposições minhas, claro. Francisco fez tudo perfeito, mas perdeu no combate físico. A queima-roupa, levou um tiro no peito e, ao que parece, no rosto, de um sujeito doze anos mais novo que ele.

Não creio que o bravo homem tenha imaginado que alguém filmava o que acontecia e resolveu se transformar em celebridade, virar herói, aparecer na televisão, ser visto por seus filhos, dar orgulho a eles, reaproximar-se da família. Ou, em outro contexto, ser recompensado com um emprego, uma casa para morar. A moça humilde que sofria não poderia lhe dar algo assim. Não houve tempo para ele pensar nisso, certamente. Nem para as TVs chegarem. E celular não é algo que se deva levar em conta em momentos desses. Um colega seu, Cleiton de Oliveira Balbino, lamentou a morte do amigo ao Uol e deu uma pista para explicar o que Francisco fez: "Era um cara do bem, ajudava as pessoas aqui, comprava comida para as pessoas".

Francisco surgiu do nada para ajudar a mocinha, a Penélope Charmosa em perigo nas escadarias da Sé, por onde passou, historicamente, um rio de lágrimas e de esperanças ao longo de séculos. Não é possível vê-lo andar sorrateiramente pelos degraus. Penso que  queria, no máximo, a gratidão de quem queria ajudar. Ou seria ele um idealista, um louco a pregar que é preciso ajudar o próximo, dar esperança às pessoas, salvar vidas e até sacrificar-se por estranhos? De qualquer modo, não pensou no risco da morte, que poderia morrer no duelo final, como filmes de faroeste que deve ter visto na infância – porque criança pobre antigamente adorava bangue-bangue. Ok, Francisco fez tudo errado. Uma grande besteira que lhe custou a vida. Afinal, não se seve cometer uma loucura daquela, deixa a polícia resolver porque é treinada para sitações desse tipo. Ouvimos todo dia esse discurso correto na televisão e a vida dura devia ter ensinado isso a ele.

Mas vamos relevar tudo isso e reconhecer a dignidade do gestode Francisco, ver no que ele fez uma atitude de grandeza em tempos de tanto egoísmo e individualismo. Embora tenha passado por privações nas ruas de uma cidade grande tão notória por sua violência e desumanização, algo ressurgiu que o levou a fazer aquela maluquice. Algo sobreviveu dentro dele que serve de lição para todos nós, que nada sabemos sobre ele e nem onde será enterrado. Tanta nobreza e tanto cavalheirismo é difícil de mensurar e é só nisso que quero pensar e acreditar.

Francisco é, mais do que nunca, um anti-herói de nosso tempo: miserável, mas que preservou até o fim uma virtude que se tornou rara. Virou um herói quixotesco, tolo, idiota, um otário, estúpido, imbecil, como muitos devem dizer ou pensar neste momento. Onde já se viu fazer aquilo? Ele nem conhecia a moça, ora. E, convenhamos, no pais do racismo cordial, ela tinha cara de pobre e era negra. Mas Francisco não tinha preconceito, era um cavalheiro, um gentleman. E homens assim não pensam muito antes de agir. E fez merda, uma merda que me tocou muito. Penso que ele hoje é o herói das mulheres. Ou deveria ser. Daqueles que elas sonham dia encontrar. Como aconteceu com a bela Penélope charmosa da Sé, com seu jeito de mulher simples. E todas elas deveriam ora por ele, enquanto os homens que gostam de espancar esposas, namoradas e filhas aprender um pouco com ele a respeitar o sexo oposto.

Quando acordou na sexta, talvez Francisco tenha imaginado que aquele seria o último dia da sua vida. Só não deve ter pensado que isso aconteceria daquele modo e que seria admirado e respeitado por um bom número de brasileiros, como eu. Francisco sai dignamente de cena e viverá por muito tempo ao menos na dor, na saudade e no amor de uma Penélope com quem jamais falou. Ela, certamente, lamentará de não ter lhe dado um abraço e um beijo na face como no final dos contos de fada, em agradecimento, embora Francisco fosse velho, feio e pobre. Mas ela, a balconista Elenilza Mariana de Oliveira Martins, solteira, será uma rara mulher que poderá dizer a seus filhos e netos que um dia um homem deu a vida por ela. E que, por segundos, teve o privilégio de conhecer um verdadeiro cavalheiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por goncalo.junior às 17h23
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DISCOS PARA CONHECER ANTES DE MORRER 1 - ANTOLOGIA DO CHORINHO

Lançado em 1975, o disco de Altamiro Carrilho apresenta um panorama dos grandes artistas do choro de todos os tempos, escolhidos por um de seus mestres: Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Luiz Americano, Jacob do Bandolim, Zequinha de Abreu, K-Ximbinho, Waldir Azevedo, Bonfiglio de Oliveira e Pixinguinha. Estou tocando na minha radiola o sexto LP porque os anteriores foram tão rodados que se tornaram imprestáveis.

Faixas:

1. ''Pot-pourri de Ernesto Nazareth''

Apanhei-te Cavaquinho; Escorregando; Brejeiro

2. ''Pot-pourri de Chiquinha Gonzaga''

Atraente; Corta Jaca

3. ''Pot-pourri de Luis Americano''

E do Que Há; Numa Seresta

4. ''Pot-pourri de Jacob do Bandolim''

Doce de Coco; Noites Cariocas

5. ''Pot-pourri de Altamiro Carrilho''

Flauteando na Chacrinha (Altamiro Carrilho / Ari Duarte)

Canarinho Teimoso (Altamiro Carrilho / Ari Duarte)

6. ''Pot-pourri de Zequinha de Abreu''

Os Pintinhos no Terreiro; Tico-Tico No Fubá

7. ''Pot-pourri de K-ximbinho''

Sonoroso (K-Ximbinho / Del Loro)

Sempre (K-Ximbinho)

8. ''Pot-pourri de Waldir Azevedo''

Pedacinhos do Céu; Brasileirinho

9. ''Pot-pourri de Bonfíglio de Oliveira''

Amor Não Se Compra; Flamengo

10. ''Pot-pourri de Pixinguinha''

Lamentos (Pixinguinha)

Um A Zero (Pixinguinha / Benedito Lacerda)

Carinhoso (Pixinguinha / João de Barro)



Escrito por goncalo.junior às 23h46
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